RAUL – O INÍCIO, O FIM E O MEIO

Cartaz do filme RAUL – O INÍCIO, O FIM E O MEIO

Opinião

Imagino o que seja para a geração de Raul Seixas (1945-1989), que testemunhou as suas maluquices no auge da juventude, com contemporaneidade, assistir ao documentário de Walter Carvalho (também de Budapeste). Ainda mais recheado de bons depoimentos de gente que fez parte e testemunhou as andanças, composições, glórias e desprazeres da vida de Raul, como Caetano Veloso, Paulo Coelho, Nelson Motta, suas ex-mulheres, filhas, companheiros de gravadora, de magia, de drogas e rock and roll.

Independente da faixa etária, não há como não conhecer os clássicos como Gita, Tente Outra Vez, Maluco Beleza, Metamorfose Ambulante, Al Capone. Mas conhecer a música não quer dizer que conhecemos sua trajetória – e esse é o ponto, o interesse pela história de vida do cantor. Confesso que fiquei sabendo um pouco mais sobre ele quando li a biografia de Paulo Coelho O Mago, de Fernando Morais. Inclusive é Paulo que dá os mais interessantes depoimentos do filme. Tanto no livro quando no filme (um pouco longo demais), o escritor conta como conheceu, conviveu, levou o engravatado e comportado Raul para o mau caminho das drogas (e não vice-versa como pensam), como foi ser seu parceiro e como já não havia mais sintonia entre eles. Seus depoimentos no filme são longos, detalhados, sem qualquer filtro, parecendo realmente sinceros (embora comprometedores, se Paulo não fosse quem ele já é hoje) – fundamental quando falamos desses personagens controversos, amados e odiados como Raul Seixas e que deixaram o forte legado da sua imagem.

Estilo próprio, irreverente, insaciável, sem freio ou filtro, abusivo com álcool e drogas. Pelo que mostram as imagens do fim da vida, dos últimos shows e da visível doença, e pelo que contam aqueles que viveram ao seu lado, terminou sua vida como quem encerra uma tragédia anunciada: sozinho e solitário, com frágil saúde, decadente (mas não esquecido, continua tendo uma legião de fãs). Mas parece ter vivido de forma coerente com a construção da sua imagem e com o que profetizou em suas canções: uma metamorfose ambulante, sem opinião formada sobre tudo, sem fazer tudo igual, esforçando-se para não ser normal, aprendendo a ser louco, maluco total. Na loucura real. Tragédia anunciada. Mas poeta.

 

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