PERSÉPOLIS – Persepolis

Cartaz do filme PERSÉPOLIS – Persepolis

Opinião

 

A escritora e cineasta iraniana Marjane Satrapi tem uma história de vida interessante, trágica e emocionante para contar. Resolve fazer isso aos 35 anos, em forma de história em quadrinhos, que faz sucesso em todo o mundo e termina servindo de inspiração e roteiro para este filme. Assim como em Valsa com Bashir (que fala do envolvimento de um soldado israelense no massacre de palestinos no Líbano em 1982) a animação fala de um importante fato histórico do Oriente Médio, dá forma ao pensamento e às vivências das pessoas envolvidas e traz à tona explicações do mundo como ele é hoje.

Entender o Irã de hoje não é tarefa fácil. A República Islâmica do ditador Mahmoud Ahmadinejad é pura censura, autoritarismo, repressão e violência, como mostrado em produções como Isto Não é um Filme e Green Days. Mas é muito interessante conhecer como tudo isso começou, principalmente pelo olhar curioso e ingênuo de uma menina de 10 anos (como em A Culpa é do Fidel ou O Ano em que meus pais saíram de férias), que tinha uma vida confortável e tranquila com a família, até tomar conhecimento vagamente de que pessoas desapareciam, eram presas e torturadas sob o regime do xá Reza Pahlevi, que o povo andava insatisfeito, que algo ia muito mal.

Eram os anos 1970, quando os comunistas contestavam em todo o mundo os regimes de direita. No Irã não foi diferente. O povo derrubou o xá Reza Pahlevi, mas o aiatolá Khomeini, líder religioso xiita, tomou o poder e acabou instalando um sistema ainda mais repressor, impondo as leis islâmicas destorcidas e prejudiciais para todo o povo. E também para a pequena Marjane, que sente a mudança dos tempos na imposição do uso do véu para as meninas, na manipulação do modo de pensar e agir das pessoas em todos os campos que ousavam contestar o status quo, na constante tensão da vida a partir daquele momento. Marjane, então, conta a sua trajetória no exterior, sua dificuldade de se integrar com a cultura ocidental, a realidade da Europa naqueles tempos, a relação com a família (em especial com a avó) e os reflexos da mudança de rumos do país na sociedade iraniana como um todo. Interessantíssimo, ainda mais quando pensamos na rica produção de cinema iraniana de hoje e em todas as denúncias de cineastas presos, banidos da profissão, profissionais exilados, proibidos de se expressar.

O título Persépolis faz referência à antiga capital da Persia. Retoma, assim, as tradições do país através do olhar cuidadoso, incrédulo, contestador e sensível de uma criança, depois adolescente e adulta. Crescer significou para Marjane aguçar sua consciência política e social e escrever o livro e produzir este filme foi não só uma maneira de pensar a sua biografia, mas principalmente registrar uma época, documentar uma era, uma vida, uma realidade totalmente em voga nos dias de hoje na mídia e nas relações internacionais como um todo. Além, é claro, que ser uma animação cuidadosamente trabalhada nos seus detalhes em branco e preto do passado, do colorido do presente. Não foi à toa que Persépolis venceu o prêmio do júri em Cannes em 2007. Para entender o nosso mundo, o Irã, o mundo islâmico extremista e a mente de uma menina de 10 anos. Genial!

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Quem se interessar por esse tipo de registro, vale a pena dar um espiada no livro. Sei de um colégio que adota essa literatura com alunos de 12 anos. Superinteressante – linguagem familiar dos quadrinhos contada por alguém da mesma idade deles, para tratar de um assunto sério, atual e que provavelmente ainda terá muitas implicações nesse mundo globalizado. Além, é claro, de aumentar o repertório dos adolescentes com outras formas de expressão… Nada mal.

Persépolis (Marjane Satrapi, Ed. Companhia das Letras, 352 páginas)

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