O VALOR DE UM HOMEM – La Loi du Marché

Cartaz do filme O VALOR DE UM HOMEM – La Loi du Marché

Opinião

Adoro o cinema engajado. Não o panfletário. O cinema da vida real, aquele sem firulas, a vida como ela é. Que é boa, mas dura. Aquela em que é preciso manter os olhos abertos para enxergar o que se tem, sem deixar que a ausência seja mais fundamental que a presença. Um exercício – duro, mas necessário para (sobre)viver.

Quem faz isso essencialmente é o Ken Loach. Equilibra o humor inglês com as questões humanas, sem que pra isso seja cruel. É o que é e este ano foi justamente homenageado com a Palma de Ouro em Cannes pelo filme I, Daniel Blake – uma crítica social, mas com atores desconhecidos, humoristas de carreira. Dizem que parece vida real mesmo. Como ela é. E como fazem os belgas irmãos Dardenne, essencialmente. Mas aqui falta humor – porque, muitas vezes, falta mesmo na vida. O Garoto da Bicicleta, A Criança, O Silêncio de Lorna, O Filho, Dois Dias, Uma Noite. Tudo realidade, dureza, luta, desafio.

É nessa prateleira que se encaixa O Valor de um Homem. Seu outro filme, Mademoiselle Chambon, é maravilhoso, mas é romance. Aqui, o diretor Stéphane Brizé traz a realidade da regra de mercado: enquanto interessa pra empresa, o funcionário é mantido; acabou a conveniência financeira, desemprego. Recolocação depois de uma certa idade é cada vez mais difícil e cruel. Linguagem universal, funciona assim em todas as sociedades. Vincent Lindon foi, merecidamente, honrado com o prêmio de melhor ator em Cannes pelo papel do protagonista que deu duro a vida toda, perde o emprego – mas não a dignidade – precisa vender parte do patrimônio pra pagar as dívidas e as contas, aceita um salário e cargo inferiores e encontra alegria no convívio com a mulher e o filho, que precisa de cuidados especiais. Não é pouca coisa.

A propósito de Vincent Lindon, vale dizer que o prêmio se extende à toda a sua filmografia. Vários filmes comentados aqui no blog, que merecem ser vistos. Comece por Bem-Vindo (atual, sobre refugiados, cinema engajado), depois Mademoiselle Chambon (lindo romance), A Criança da Meia-Noite (solidário), Tudo O Que Desejamos, Augustine, O Diário de Uma Camareira. Tudo vale a pena.

 

 

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