O GAROTO DA BICICLETA – Le Gamin au Vélo

Cartaz do filme O GAROTO DA BICICLETA – Le Gamin au Vélo

Opinião

Hoje começa oficialmente a 35a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, com evento só para convidados no Auditório do Ibirapuera. E o filme de abertura escolhido, entre os 250 que compõe a seleção deste ano, é a nova produção dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, também diretores de A Criança e O Silêncio de Lorna. Quem conhece essas duas obras anteriores, sabe que o estilo dos irmãos diretores não é dos mais afáveis. Levanta, de uma forma muito íntima, realista e seca, as dificuldades próprias do ser humano no que tange o respeito e de relação consigo próprio e com o outro.

Em O Garoto da Bicicleta não é diferente. O assunto ‘família desagregada’, ‘inversão de valores’ ‘desconstrução do amor’ é recorrente também aqui. Portanto, prepare-se. Mas, se servir de alento, digo também que este filme tem de belo o que os outros têm de amargo. Saí da coletiva de imprensa da Mostra, quando o filme foi exibido, aliviada. É como se a vida tivesse falado mais alto desta vez, como se os Dardenne tivessem tido a chance de escolher um caminho da esperança. E o fizeram. Optaram pela réstia de luz e resgate ético que poderia caber no roteiro, indicando que nem tudo são trevas. Apesar de todos (e não são poucos) os pesares. E apesar de não adotarem um estilo de direção que ‘facilite a vida do espectador’.

A espinha dorsal do belo O Garoto da Bicicleta, que venceu o Grande Prêmio do Júri em Cannes este ano, é a família que não se une diante das diferenças e dificuldades, que opta pelo caminho mais fácil, o do abandono. Cyril (Thomas Doret) foi deixado pelo pai (Jérémie Renier, também em Potiche – Esposa Troféu, O Silêncio de Lorna, A Criança) e vive em um internato. Tenta, de qualquer maneira, saber do seu paradeiro. Sabrina (Cécile de France, também em Além da Vida, Bonecas Russas, Albergue Espanhol) é sua tutora nos fins de semana e estabelece com o garoto uma relação de afeto, embora sinta, logicamente, resistência do menino. Apesar disso, as frustrações, angústias e dessabores falam mais alto e Cyril acaba cedendo a pressões de maus elementos na pequena cidade onde passa os fins de semana com Sabrina.

O que vem a seguir são situações em sempre há dois caminhos a serem escolhidos. Pai, tutora e garoto adotam uma postura que transforma não só as relações no filme, mas a relação do espectador com a história. Embora não seja uma linguagem pronta e mastigada, que deixe o espectador totalmente à vontade, mas sim um discurso que estimula a reflexão e o desconforto, os Dardenne desta vez escolheram elementos que suavizaram as tão difíceis relações. A bicicleta, os passeios, a luz do dia, a pequena cidade, a escolha de Cécile de France como a atriz protagonista – que tem um brilho especial, sim – trazem a esperança de que algo pode dar certo no final.

 

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