O APARTAMENTO – The Salesman

Cartaz do filme O APARTAMENTO – The Salesman

Opinião

O cinema iraniano não dá ponto sem nó. Justificar o conflito do filme em um prédio que corre o risco de desabar é como dizer que os alicerces da sociedade iraniana, da cultura censurada estão abalados. Asghar Farhadi faz filmes de gente comum, em que as situações estão no limite, em que é preciso resolver conflitos. Procurando Elly, por exemplo, vai além da moça que desaparece; é pano de fundo para discutir a condição da mulher muçulmana, a influência do ocidente, a relação homem-mulher no Irã, que se repente em O Passado, em A Separação. De novo, não tem ponto sem nó. Filmes densos, bem localizados na sociedade rígida e machista, mas que se aplicam, sim, aos contextos dos relacionamentos humanos em qualquer canto do mundo.

O Apartamento não foge à regra.  Entra mais a fundo na questão da honra masculina, numa sociedade em que a mulher é, explicitamente, propriedade do marido. Rana e Emad são atores, vão morar em um apartamento de um colega de trabalho e, enquanto se adaptam, Rana é violentada por um homem que invade sua casa. Louco de raiva – mas sem demonstrar afeto, nem acolhimento – o marido passa o investigar a identidade do agressor, em busca de vingança. Clima tenso: enquanto o marido escolhe o caminho da honra ferida, a mulher escolhe o perdão. Um Farhadi constrói um abismo entre o casal que, até então, parecia ter, na profissão e no teatro, a sinergia necessária para romper as barreiras da sociedade. Cenas marcantes, de um casal que se abandonou para mergulhar nas suas dúvidas e na sua solidão individual.

Aliás, o que fica é um abismo mesmo. Dá a impressão de que tudo será engolido pela distância que se cria ao construir um muro separando o afeto da tradição religiosa, o amor da expectativa da sociedade, o sentimento da honra. Metáfora das relações humanas, essa coisa do desabamento do prédio. Basta um abalo e vai tudo pro chão.

 

 

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