NEVER LOOK AWAY – Werk ohne Autor

Cartaz do filme NEVER LOOK AWAY – Werk ohne Autor

Opinião

Suzana Vidigal, de Veneza

O título original em alemão é como Obra Sem Autor – o que não tem nada a ver com Never Look Away, usado em inglês. Os dois fazem sentido dentro da narrativa do filme e das escolhas do diretor alemão Florian Henckel von Donnersmarck, que passou pelo Festival de Veneza para a apresentação do longa. Mas é claro que a escolha original é a alma da história e da ideia que Florian quer transmitir sobre arte. Voto nela para o título em português. Veremos.

Vale dizer que o longa conta a história do pintor Kurt Barnert (Tom Schilling), que viu o nazismo acontecer quando criança; que se torna adulto depois da guerra, formando a geração de artistas que tiveram que crescer num país traumatizado com as barbaridades feitas pelo seu próprio povo. Portanto, fala da arte, claro, e falar de uma “obra sem autor” se encaixa aqui. “Acredito na arte livre, sem códigos, como tinham os nazistas e os comunistas”, diz Florian, também diretor do ótimo A Vida dos Outros. A premissa é de que quando o artista encontra sua linguagem e aquilo que quer transmitir com seu trabalho, está livre, não envolve política, nem expectativas. A arte se torna mais inteligente que o artista, como diz Kurt, o pintor. É ela que importa, ganha sua autonomia, tem vida própria. Sim, o autor tem o direito de manter em segredo as motivações da sua obra, afinal ela mexe com suas mais íntimas experiências. Nesse sentido, também há obra sem autor, inclusive neste filme.

Já o título Never Look Away remete à fala da tia de Kurt, que ama a arte, se interessa pela expressão que sai do lugar comum e que ousa, e usa essa expressão pra aconselhar o sobrinho a olhar sempre para a verdade, deixando que ela venha à tona. Mesmo que seja doloroso.

Analisando sob esse prisma, os títulos se completam. A ideia de Florian é falar da história da Alemanha do ponto de vista da geração pós-guerra, que começou a trabalhar a reconstrução. “O pintor encara os acontecimentos da sua vida sem julgamento”, diz o diretor. “Olha por traz da cortina e consegue tocar a vida adiante.” Importante mostrar quem cometeu os crimes – parece que a intenção é não deixar o caminho fácil para os assassinos mesmo.

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