MELANCOLIA – Melancholia

Cartaz do filme MELANCOLIA – Melancholia

Opinião

Começando pelo inevitável, não consigo entender como alguém capaz de fazer um filme tão intenso, dramático e íntimo foi também capaz de dar, em alto e bom tom, no palco mais cobiçado do mundo do cinema que é Cannes, declarações pró-nazistas. Uma postura não encaixa na outra e fica difícil imaginar como funciona a cabeça de Lars Von Trier. Sem falar no seu perturbador Anticristo – que instigou em mim o sentimento de angústia, incapacidade de curar as próprias feridas, incompreensão total do mundo. Já entrei em Melancolia achando que fosse ver algo do gênero, mas não. Aqui, o diretor também lida com as difíceis questões pessoais de cada um, seus sofrimentos e a dificuldade de verbalizar o que se sente, de se comunicar, de se ajudar, mas é o medo, a solidão, o desconhecido que falam mais alto e tomam conta da vida. E do mundo.

Do mundo quem toma conta e mobiliza é o planeta Melancolia que surge detrás do Sol e se aproxima da Terra. Dos personanagens, é o sentimento de melancolia. As imagens impressionantes do prólogo já dão uma amostra das dificuldades da vida – impressiona a cena sofrida da noiva que não sai do lugar; as duas partes seguintes, explicam o que cada um não é capaz de fazer. Na primeira, Justine (Kirsten Dunst, melhor atriz em Cannes pelo papel) se casa e a festa é minuciosa e luxuosamente preparada pela irmã Claire (Charlotte Gainsbourg, também em Anticristo). Infelicidade instalada em cada cena, em cada corte brusco, num jogo de câmeras que mostra a instabilidade emocional, a dúvida, a tristeza. Descompasso familiar que beira a loucura e a incompreensão. Na segunda parte, os cacos do que era para ser um casamento feliz são recolhidos e o planeta Melancolia ameaça a tênue e mascarada estabilidade de Claire, trazendo à tona sua mais íntima fraqueza. Com medo de si mesmas, cada uma em seu universo particular, as irmãs se afundam naquilo que parece ser o fim do mundo dentro da sua perspectiva pessoal.

A dramaticidade é tanta que fui ficando angustiada com o evidente pavor que corroia cada uma delas. Não dá para explicar, é uma leitura especial e muito delicada do túnel sem luz lá no fundo. Mas é uma angústia diferente de Anticristo – que causa repúdio. Aqui, a angústia causa sofrimento na seara mais íntima do ser humano. E por isso toca mais fundo. Belíssimo, entoado por uma trilha sonora clássica, Melancolia vale quanto pesa. E Lars Von Trier que tenha mais cuidado com o que diz e o que pensa da próxima vez, porque ao mesmo tempo em que foi capaz de dizer barbaridades, dirigiu seus atores com maestria. Sem isso, não haveria melancolia como a senti.

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