MAPA PARA AS ESTRELAS – Maps to the Stars

Cartaz do filme MAPA PARA AS ESTRELAS – Maps to the Stars

Opinião

Não sou fã de David Cronenberg. Lembro bem quando assisti a Gêmeos – Mórbida Semelhança – e do mal estar que o filme me causou. Pensando hoje – e sabendo de quem se trata – se ainda me lembro dessa sensação, o filme deve ser realmente bom. Preciso rever. Na época (1989), não fazia a menor diferença quem era o diretor. Lembro que fui atraída pelo ator Jeremy Irons. Cronenberg é conhecido por filmes de ficção científica que carregam um viés muito marcante da perturbação humana. Isso é muito mais forte do que qualquer efeito especial futurístico da ficção científica aventureira. Não é esse o seu perfil. Acho que agora sei por que os gêmeos de Irons me impressionaram tanto. O diretor não dá ponto sem nó.

O que não me faz gostar mais ou menos de seus filmes. Mas que eles são marcantes, isso são. É dele também o ótimo Um Método Perigoso, que mostra o quanto as mentes são capciosas e manipuladoras, e Cosmópolis – tão adorado pela crítica, mas que para mim ainda é uma incógnita. Não consigo superar a chatice do ator Robert Pattinson e a esquisitice do filme. Cosmópolis discute o poder e a fama, mas de uma maneira que não me cai bem. Acho chato. Pronto, falei.

No entanto, também tenho que confessar que, apesar de ter ido assistir a Mapa para as Estrelas ressabiada e desconfiada da maluquice que viria desta vez, saí do cinema afirmando que, desta vez, gostei de Cronenberg. Continua indigesto, sem dúvida – e acho que sempre será. Mas acerta no tom para criar um ambiente que incomoda, que gera estranheza e transpira solidão. Tem personagens emblemáticos, criaturas estranhas deste mundo cão das celebridades do cinema e tem Julianne Moore – que, em muitos momentos, basta.

Mapa Para as Estrelas discute o mundo de Hollywood naquilo que ele tem de mais emblemático: fama, dinheiro, poder, influência, favorecimento, interesse. Mas poderia ser qualquer mundo, conforme ele mesmo disse quando o filme foi exibido em Cannes no ano passado. Claro, o mundo do mercado financeiro, por exemplo. Quer melhor exemplo que reúne tudo isso? Através de Havana Segrand (Julianne Moore, também em Para Sempre Alice), uma atriz decadente que tenta recuperar seu prestígio entre os diretores, reconquistar papéis importantes no cinema e livrar-se dos traumas do passado, o diretor tece uma rede de interesses explícitos e implícitos, de desejos de vingança e traição, de mentiras e insanidades veladas. O filme todo tem um tom meio macabro. Predominam personagens ansiosos, inseguros, prepotentes e loucos, numa antítese à fortaleza e poderio de todo o glamour que rodeia a indústria das grandes produções.

O mais interessante de tudo isso é que está na moda fazer filmes que falam de atores decadentes. O cerne do premiado Birdman é justamente esse e em abril estreiam dois filmes com Al Pacino (O Último Ato e Não Olhe Para Trás), também sobre essa difícil celeuma de como lidar com a passagem do tempo e com o fator fama-dinheiro-poder que escapa pelas mãos. O tema é muito bom e sempre me faz parar para pensar que mundo é esse.

 

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