MAGNÓLIA – Magnolia

Cartaz do filme MAGNÓLIA – Magnolia

Opinião

São muitos os temas em Magnólia. Mas se eu tivesse que resumir em uma só palavra, diria: culpa. A tão temida culpa… Do mosaico de personagens construídos pelo diretor Paul Thomas Anderson, o fio condutor do pecado marca suas vidas, que são punidas com um castigo vindo do céu (a chuva de sapos chega a dar arrepio), como dito no livro do Êxodo 8:2 – número que aparece em vários momentos do filme. Claro que isso foi pesquisa após o filme, já que eu não tinha essa referência em mente e fiquei intrigadíssima com esse elemento. Apesar de nauseante, é como se essa chuva representasse o caos existencialista dos personagens, lavasse definitivamente a alma daqueles que conseguem se salvar. É a punição e a esperança de redenção no final dos tempos.

Alguns filmes citados aqui já usaram esse recurso dos personagens com vidas distintas em diversos núcleos, que em algum momento se cruzam durante a narrativa. Como coincidências, introduzidas pelo prólogo do filme – um jogo do improvável e da força do acaso. É assim nos filmes do espanhol Alejandro González Iñárritu, Amores Brutos, 21 Gramas e Babel – aliás, gosto muito dos três. Mas é preciso ser habilidoso, criar uma espinha dorsal e uma liga entre os personagens. Além do tema da culpa, arrependimento, pecado, eu diria também que algumas cenas foram poeticamente pensadas, como aquela em que vários personagens cantam trechos da bela canção Wise Up, de Aimee Mann (linda e premiada trilha, também com a canção Save Me, que está no trailer), em sequência. Espetacular – chega a ter um tom profético, especial (segue vídeo abaixo).

Bem, vamos ao enredo – especial, por causa também da escolha precisa dos atores. Tudo acontece ao redor de uma rua chamada Magnólia, em Los Angeles, durante 24 horas de um dia. Começamos pela sempre ótima Linda (Julianne Moore, também em Minhas Mães e Meu Pai, As Horas, Amor a Toda Prova, Direito de Amar) casada com o milionário empresário do ramo da mídia Earl Partridge (Jason Robards), que está morrendo de câncer. Casou por interesse, mas Linda agora se arrepende de tudo que fez e se sente a pior das piores; já Earl sente-se culpado por ter renegado o filho Frank (Tom Cruise, também em Missão Impossível – Protocolo Fantasma), que é um sujeito estranho obcecado por sexo, que nutre um desprezo imenso pelas mulheres ensinando homens a dominar o sexo oposto. Cuidando de Earl está o enfermeiro Phil (Philip Seymour Hoffman, também em Tudo Pelo Poder, Felicidade, Dúvida), que é um bom sujeito, altruísta e que ajuda Earl a encontrar o filho nos últimos momentos de sua vida. Outro núcleo é composto pelo apresentador de um programa de perguntas e respostas da televisão, Jimmy Gator (Philip Baker Hall), produzido pela empresa de Earl, que tenta se reconciliar com a filha Claudia (Melora Walters) quando descobre que está gravemente doente. Claudia por sua vez é viciada em cocaína, está completamente sem rumo, até que conhece o policial Jim Kurring (John C. Reilly, também em Cyrus). Nesse programa de “perguntas e respostas” está o genial garoto Stanley (Jeremy Blackman), que sabe todas as respostas, mas é manipulado pelo ganancioso pai, assim como foi no passado Donnie Smith (William H. Macy), vencedor do prêmio quando era criança e hoje um adulto frustrado, fracassado e infeliz.

De alguma maneira, a culpa por ter abusado, mentido, enganado, abandonado, rejeitado, por ter deixado se levar, manipular, por não ter falado, não ter protestado causa nos personagens um arrependimento que é o grande pivô de suas vidas. Vão até o fundo do poço, quase que pedindo para que alguém coloque um limite na solidão, no sofrimento, na crise existencial insuportável que eles mesmo escolheram – pensando agora, percebi que muitos desses sentimentos estão ligados ao relacionamento pai-filho, ao abuso de poder e às consequências nefastas que isso causa na criança e no adulto. O diretor constrói Magnólia, vencedor do Urso de Ouro em Berlim, num crescente tão dramático, que a “chuva de sapos” do fim do filme só pode ser realmente uma praga dos deuses. Como diz a canção Wise Up, o sofrimento não acaba, a não ser que se pare para pensar, racionalizar, colocar a vida dos eixos. “Fazer a coisa certa nem sempre é fácil – às vezes as pessoas precisam de ajuda ou precisam ser perdoadas e salvas”, diz o sábio narrador. Imperdível!

 

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