LEMON TREE

Cartaz do filme LEMON TREE

Opinião

A história mostra que, aparentemente, a maneira mais fácil de camuflar os conflitos e fazer vista grossa para as adversidades é tirá-las da vista. Muros foram e continuam sendo construídos com esse intuito, tirar da frente o problema, evitar o olho-no-olho e seguir em frente como se nada estivesse acontecendo. E não precisamos ir a Berlim ou Pequim para tanto… ele já chegou nas nossas favelas cariocas.

A história se passa na fronteira de Israel e Cisjordânia, os territórios ocupados por palestinos. Alegando motivos de segurança pública, o governo israelense ergueu um muro nessa fronteira, exatamente onde há um pomar de limoeiros. Eles são centro de conflito do filme,  a coluna vertebral da narrativa – numa grande e inteligente metáfora da intolerância humana.

Muitas coisas no filme impressionam. Para mim, é o olhar daquela mulher, capaz de mover montanhas. A palestina Salma Zidane (Hiam Abbas) cultiva seu pomar de limões herdado do pai e tira deles sua única fonte de sustento. Viúva há anos, faz desse cotidiano sua razão de vida numa Cisjordânia superpopulosa, pobre, que sofre com as sanções impostas por Israel. Salma vê sua vida virar de cabeça para baixo quando nada menos que o ministro da defesa israelense, Israel Navon (Doron Tavory), muda-se para a casa vizinha ao pomar, porém do outro lado da fronteira.

Analisando a realidade do perigo constante das autoridades da região, o serviço secreto israelense vê o pomar como uma ameaça à segurança do ministro e sua família e determina seja cortado, sem que a proprietária possa contestar da decisão.

Mulher forte, porém já cansada de tanto sofrimento, Salma juta forças para entrar na justiça contra a decisão israelense e se depara com a resistência das autoridades e com os olhares de conivência de Mira (Rona Lipaz-Michael), esposa do ministro – que não compactua com a atitude intolerante do marido e do país como um todo, mas se sente impotente e prisioneira de uma sociedade incapaz de chegar a acordos sem que a força seja usada para acuar e ameaçar.

O desenrolar da história – baseada em fatos reais compilados, já que foram muitas as desapropriações em nome da segurança nacional israelense – mostra mulheres fortes, determinadas, que seriam capazes de chegar a um acordo se essa missão lhes fosse designada. Numa sociedade em que a mulher é mantida sob a guarda do marido, irmãos e tios, as muçulmanas precisam desafiar os homens e Deus para dizerem o que pensam – tarefa nem sempre possível. Já do lado israelense, a vítima da segurança, da política, da hipocrisia e do poder desmedido também precisa ir contra tudo e todos para dizer o que pensa – apesar da riqueza, do luxo e do poder aos seus pés.

Muitas coisas impressionam no filme. Mas o que mais chama atenção, além do tema sempre polêmico dessa região de eternos conflitos e falta de consenso, são os olhares. O olhar feminino basta e prescinde de palavras. Compactuam da mesma opinião, sem nunca terem se falado; apoiam-se, mesmo pertencendo a polos completamente opostos. Salma e Mira conseguem encontrar sua alma e lutar por ela, mesmo em uma situação adversa e tida como praticamente perdida. As mulheres é que dão o tom do conflito e, principalmente, de seu desenlace.

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