J’ACCUSE

Cartaz do filme J’ACCUSE

Opinião

Baseado no famosos caso Dreyfus, J’Accuse é a volta de Roman Polanski ao grande cinema. Embora a presença do seu filme na competição pelo Leão de Ouro em Veneza tenha causado incômodo e declarações incisivas da presidente do júri, Lucrécia Martel (que disse ter aceito ao convite de presidir o júri antes de saber que o filme de Polanski estaria em competição), o exercício de separar o homem da obra é recompensado. É uma jornada pela França do final do século 19, com seus meandros escusos de favorecimento, seu antissemitismo e abuso de poder.

Alfred Dreyfus era capitão do exército francês de origem judaica e foi condenado em 1895 pelo tribunal militar, acusado de ter vendido segredos militares aos alemães. Fica preso na Ilha do Diabo, nas Guianas Francesas, até que o caso é reaberto pelo general Picquart (Jean Dujardin), que é indicado para chefiar a sessão de inteligência francesa e investiga o caso que já lhe parecia uma acusação injusta.

J’Accuse tem o título da carta escrita pelo escritor Émile Zola na época ao presidente da França na época, referendando a inocência de Dreyfus. Impecável, com ritmo de thriller, explica a história verdadeira, lembra o ritmo de O Escritor Fantasma. É tratado como uma história política, e não histórica – e isso faz a diferença, deixa evidente o questionamento sobre o interesse privado acima do público como mácula da sociedade. Claro que o antissemitismo é ressaltado, tendo em vista a história pessoa de Polanski que é de origem polonesa e perdeu sua família no holocausto. Aliás, a família de Dreyfus também foi enviada aos campos de concentração na Segunda Guerra, trazendo a questão fundamental da permanência do preconceito e sua origem de longa data.

Gosto da afirmação de que J’Accuse é uma “busca de uma violência surda”, mas evidente. Revelar a fragilidade de Dreyfus, sua vulnerabilidade é o ponto de Polanski. Além da beleza do filme, o que é fundamental para essa credibilidade é ter o francês como idioma – com roteiro originalmente escrito em inglês, ver a França em francês faz toda a diferença. E não menos internacional, certamente.

 

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