INFÂNCIA CLANDESTINA – Entrevista – Infancia Clandestina

Cartaz do filme INFÂNCIA CLANDESTINA – Entrevista – Infancia Clandestina

Opinião

Que fique bem claro: a produção escolhida pela Argentina para concorrer à indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2013, disputando vaga com O Palhaço, também é brasileira. O próprio Benjamín Ávila, diretor do filme, não mediu palavras – e elogios – ao roteirista brasileiro Marcelo Müller, com quem dividiu o difícil trabalho de escrever um roteiro que conseguisse misturar, de forma harmônica, ficção e realidade.

Na conversa com jornalistas após a exibição do filme, fiquei sabendo que o personagem Juan (Teo Gutiérrez Romero), um garoto de 12 anos, em parte encena a experiência do próprio diretor argentino. “O filme está baseado na minha infância, no que eu e meus irmãos vivemos. Não é autobiográfico, mas a partir dela criamos elementos fictícios para construir a história”, revela Benjamín Ávila. “Rodamos com o filme por festivais em todo o mundo e fiquei emocionado quando várias pessoas se manifestaram dizendo que também se sentiam como Juan. Um senhor de 75 anos da África do Sul que sofreu no Apartheid, uma mulher de 30 da Ucrânia que foi perseguida em seu país e uma iraniana de 24, que viveu  a falta de liberdade.”

E é verdade. O filme fala da Argentina, mas tem o tema universal da repressão, do confisco da liberdade, da ruptura forçada das famílias. E, convenhamos, o cinema argentino sabe falar do assunto com muita competência. “O debate está muito mais vivo na Argentina do que aqui”, analisa Müller. “O argentino está mais debruçado, porque lá as violações aos direitos humanos ainda continuam. Há cerca de 400 crianças desaparecidas, que são hoje homens e mulheres que vivem em alguma parte do mundo e que não sabem sua história.” Aqui a recente Comissão da Verdade reativou o assunto; na Argentina, nunca foi apagado. “O filme seria diferente se o roteirista fosse argentino. Sendo brasileiro, ajudou para que a história fosse universal. Acredito muito mais nessa ideia de coprodução, do que quando ela é puramente econômica”, arremata.

O ponto central do filme é Juan, que tem 12 anos e transmite, em todas as cenas, sem exceção, sua visão do que está acontecendo com seus pais guerrilheiros, perseguidos pelos militares nos anos 1970. A vida familiar, cotidiana, afetiva é totalmente integrada à vida clandestina, ao nome falso, ao esconderijo. Isso é tão forte no filme que até pareceu que o ator Teo Gutiérrez Romero já tivesse alguma experiência. Ávila me respondeu que não, que foi feito um trabalho de casting fortíssimo e que, de fato, Teo conseguiu transmitir a força, antagonismo e a luta pelo ideal da época, sem que seu lado emotivo, infantil, da descoberta do primeiro amor fossem deixados de lado.

Não pude deixar de lembrar outros filmes que também retratam a realidade dos anos de chumbo através do olhar infantil. O brasileiro O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, o chileno Machuca, o argentino Kamtchaca, e ainda o francês A Culpa é do Fidel. Mas Infância Clandestina usa uma ferramenta interessante e que foi muito bem ponderada no contexto da passagem da infância para a vida adulta – o próprio título, Infância Clandestina, já transmite esse antagonismo. Apesar de ter sido um movimento arriscado, decidiram usar a animação para retratar as cenas de violência contra os membros da família. O uso do traço adulto, quase um mangá, mistura fantasia e realidade, num desenho maduro e intenso. “Resolvemos fazer a animação nas cenas de agressão física, porque se filmássemos não seria novidade para ninguém”, diz Ávila. E funcionou, chama a atenção de todos e dá o tom dramático e lúdico que se pretendia. Afinal, segundo ele, é um filme para gerar perguntas, e não fornecer respostas.

 

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