INCÊNDIOS – Incendies

Cartaz do filme INCÊNDIOS – Incendies

Opinião

Indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, Incêndios vai além do título. Além de cristãos ateando fogo em um ônibus cheio de muçulmanos, de escolas queimadas e crianças sem teto, os incêndios de que o diretor canadense Denis Villeneuve trata são internos, da alma em chamas, do sofrimento em carne viva, da necessidade de apagar o fogo para poder viver. Intenso, forte, emocionante e, sobretudo, muito bonito. É através de Nawal Marwan (personagem da atriz belga Lubna Azabal, de descendência hispano-marroquina) que a grandeza do filme chegou para mim. Sua condição de mãe supera qualquer dor, mágoa ou raiva que a vida lhe ensinou a sentir.

Não vou entrar em detalhes, porque este filme não merece ser desvendado desta forma. Mas posso dar o panorama geral, sem tirar o fator surpresa e as revelações da história. Nawal Marwan morre e deixa seu último pedido escrito em testamento: quer que seus filhos gêmeos localizem o pai e o irmão, em algum lugar do Oriente Médio, para entregar-lhes uma carta. Jeanne (a ótima Mélissa Désormeaux-Poulin) e Simon não sabem se esses parentes estão vivos, nem nunca os conheceram. Ao partir em busca dos familiares, descobrem o passado da mãe e a nova realidade de suas próprias vidas. Em nenhum momento é dito que país é aquele – árido, muçulmano, severo, conflitante – talvez porque possa representar vários povos e regiões. Mas cristãos contra muçulmanos e vice-versa, massacres revidados com intolerância e terror me remeteram ao Líbano, no período da guerra civil entre 1975 e 1990 – e à incrível animação Valsa com Bashir, que retrata, na linguagem dos mangás, o genocídio dos refugiados palestinos no Líbano pelas mãos dos falangistas cristãos.

As retomadas dos conflitos históricos são sempre uma maneira de nos fazer lembrar aquilo que a humanidade não pode repetir. Incêndios trata também, de uma maneira subliminar, mas não menos importante, da questão dos imigrantes em países como o Canadá, formado em grande parte por esses grandes movimentos migratórios de povos originários de países em conflitos. Mas eu diria que é um filme humano, o que faz com que tenha um bonito equilíbrio nos quisitos razão-emoção, fatos-sentimentos e consiga emocionar e informar, entreter e formar opinião.

Concorreu ao Oscar com o mexicano Biutiful, o argelino Fora da Lei, o dinamarquês Em um Mundo Melhor.

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