ENCONTROS E DESENCONTROS – Lost in Translation

Cartaz do filme ENCONTROS E DESENCONTROS – Lost in Translation

Opinião

“Quanto mais você sabe quem você é e o que quer, menos as coisas o preocupam na vida.” – Bob Harris

Perdidos na tradução, perdidos na tradição, perdidos, cada um em sua função. Com o perdão da rima, não resisti ao comentário do título original. Em Tóquio, sem entender uma só palavra de japonês, Charlotte (Scarllet Johansson, também em Match Point, Vicky Cristina Barcelona) e Bob Harris (Bill Murray) estão perdidos. A dificuldade do idioma e do deslocamento cultural é uma interessante metáfora para a confusão e indecisão internas em que se encontram. Ponto para Sofia Coppola (também diretora de Um Lugar Qualquer), que tem um olhar preciso sobre as questões humanas e as relações que as pessoas têm com elas mesmas.

O olhar aqui repousa sobre a jovem Charlotte. Casada há dois anos, segue o marido fotógrafo até Tóquio, onde ele vai passar um tempo trabalhando. Portanto, sozinha em uma cidade onde não entende o que dizem, onde a dinâmica dos eletrônicos é enlouquecedora, está perdida nas decisões de o que fazer da vida, que profissão seguir, por que ficar casada, como lidar com a perspectiva de ficar pra sempre com uma só pessoa, de ter filhos, etc e tal. As lentes da diretora também repousam sobre Bob, quando jovem um astro do cinema, que vai à Tóquio ser garoto propaganda de uma marca de uísque para ganhar uma grana a mais. Ao contrário de Charlotte, Bob está casado há 25 anos, já sabe o que quer dizer rotina, mulher, filhos, contas para pagar, cobranças. Os temores de Charlotte se refletem em Bob quando se encontram no hotel onde estão hospedados – um ambiente previsível, assim como a vida de cada um deles.

A agitação de Tóquio é o personagem do filme que desperta o que ainda está vivo em Charlotte e Bob. É a partir desse encontro que algo dentro de cada um acorda da monotonia de suas vidas. É como se fosse um despertar para a reflexão, para a coragem das decisões, para tomar as rédeas da vida novamente. Sofia Coppola não deixa claro o que acontece no final – aliás, acho que nem ela sabe. Sua história permeia pelo desconhecido que há dentro das pessoas, pelas incertezas das situações que vivemos, mas sobretudo pela riqueza dos momentos que sugerem mudanças, novas experiências e vivências e pela importância de estarmos atentos a eles. Assim como em Um Lugar Qualquer, que o astro do cinema só percebe que leva uma vida vazia quando tem a companhia de sua filha, em Encontros e Desencontros os personagens se encontram no mesmo lugar em que se sentiram perdidos no começo. Um belo e sensível filme sobre a eterna dificuldade de lidar com a procura dos caminhos, com a possibilidade de mudança e com a coragem de sair da zona de conforto. E o mais bacana: não é um filme conclusivo, fechado, tachativo. Assim como não são as decisões. Cada um que tome a sua.

 

Comentários