ELLE

Cartaz do filme ELLE

Opinião

Um dos conflitos propostos em Elle é sim a violência sexual contra a mulher. Mas este não foi o mais impressionante – embora as cenas de estupro sejam realmente brutais, intensas e definitivas. As camadas costuradas em cima desse choque constróem uma figura determinante da mulher aos 60: independente financeira, emocional e sexualmente; dona do seu nariz, mas lotada de encrencas para resolver. É um recorte do empoderamento feminino, mas sem aquela pegada feminista onipotente: simula a mulher de verdade, em carne e osso, que precisa sim dos outros, que se apega às pessoas, que tem traumas de família, problemas com os pais, filho, nora. E não esconde isso de ninguém. Vive intensamente.

Sem criar uma mulher-maravilha, Paul Verhoeven (também de Instinto Selvagem) traz o feminino na sua mais complexa faceta. Ninguém melhor do que Isabelle Huppert pra passar a mensagem. Ela não para de produzir – em 2016 foram seis filmes; pra 2017, outros seis programados. É impressionante. É como se sua personagem, Michèlle Leblanc, dona de uma empresa de games, fosse uma extensão dela mesma. Super à vontade no papel, fala da sexualidade nessa idade de maneira natural, do ponto de vista da mulher que deseja, instiga e busca o que quer. É nesse contexto que entra a violência sexual, que perturba a ordem das coisas – mas Michèlle não cai – titubeia, não denuncia, toma as providências práticas, mas não entra em pânico. Toca a vida e tudo mais que depende do seu bom senso e poder de decisão para acontecer, na família e no trabalho.

Genial, forte, perturbador. Um mergulho na psique humana conturbada e ambígua. Do uso da força – física e sexual -, da aceitação dessa disfunção entre os gêneros, da ambiguidade entre o culto externo, social, para a vivência pessoal de cada um. Elle é para ser sentido, feminino ao extremo. Além de Michèlle, sua amiga Anna (Anne Cosigny), sua nora Josie, sua mãe Judith e sua vizinha Rebecca são as mulheres que fazem a história acontecer. Mas Isabelle… sem palavras pra dizer o que é – e representa – essa atriz.

 

DIREÇÃO: Paul Verhoeven ROTEIRO: Philippe Djian, David Birke ELENCO: Isabelle Huppert, Laurent Lafitte, Anne Consigny, Charles Berling, Virginie Efira | 2016 (130 min)

 

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