ELEFANTE – Elephant

Cartaz do filme ELEFANTE – Elephant
Estado de espírito:

Opinião

DIREÇÃO e ROTEIRO: Gus Van Sant

ELENCO: Elias McConnell, Alex Frost, Eric Deulen, John Robinson

Estados Unidos, 2003 (81 min)

Esta semana teremos estreia de um filme extremamente perturbador, Precisamos Falar Sobre Kevin – que é assunto para outro artigo. Pesquisando sobre ele, cheguei em Elefante, do diretor Gus Van Sant, também de Milk – A Voz da Igualdade, Inquietos, Gênio Indomável. Este filme foi premiado em Cannes com a Palma de Ouro, além de melhor diretor. Tem realmente uma força impressionante e devastadora.

A inspiração foi nada mais, nada menos do que o Massacre de Columbine em uma escola do Colorado em 1999, que também serviu de inspiração para o documentário Tiros em Columbine, de Michael Moore. Mas Gus Van Sant segue uma linha diferente, mais observadora – o que é mais perturbador, porque deixa suspensa qualquer conclusão, qualquer explicação para a tragédia. Tive a sensação que cabe a cada um de nós buscar a razão que leva dois adolescentes bem formados, de classe média, que portanto têm ótimas condições de vida, com famílias, amigos, escola, a planejar a matança e sair atirando em seus colegas e professores.

Elefante tem uma câmera atuante, que faz o espectador passear junto pela escola e sentir-se parte desse mundo adolescente. Percorre os corredores do ensino médio (os atores são alunos reais da escolas escolhidos pelo diretor), portanto por onde circulam os adolescentes, mostrando a dinâmica da vida particular e escolar de cada um deles. Uma cena em que alunos se encontram, por exemplo, é mostrada duas, três vezes, cada vez sob o ponto de vista de um deles. Mostra adolescentes bulímicas, que vão ao banheiro vomitar após a refeição, adolescentes que desprezam os pais e desejam sair de casa o quanto antes, adolescentes que sofrem bullying por serem diferentes do padrão esperado; mostra o preconceito contra o homossexual, a necessidade de rotular pessoas e fatos, o grupo dos atletas, do estudiosos, os que namoram, os que fofocam. Fui sentindo uma angústia com esse panorama, até porque já fui adolescentes um dia e dá pra imaginar a solidão dessas pessoas, o vazio de uma fase em que há crescimento, mas que nem sempre vem acompanhado da maturidade para enfrentar a vida adulta que se anuncia na próxima esquina.

Comecei falando de Precisamos Falar Sobre Kevin, porque ele também trata desse tema que traz à tona a pergunta que não quer calar: por quê? Se não falta nada, por quê? Então, falta algo – ou falta o essencial? Que tremendo vazio. Que tremenda falta de esperança. Ainda não descobri o porquê do título Elefante, mas minha pesquisas indicam que pode ser por causa de uma parábola budista em que três cegos tocam num elefante. Como não conseguem vê-lo por inteiro, o definem de acordo com a parte que tocaram, de forma fragmentada. Sem ver o todo, suas definições são equivocadas e as conclusão imprecisas. É o perigo do rótulo.  Até o ano passado, o Brasil se orgulhava de não não ser palco de massacres do gênero – afinal, isso era parte da cultura americana. Ledo engano. Realengo nos mostrou o quanto essa questão é universal, o quanto tudo isso é complicado e só não enxerga quem não quer. Não deixem de assistir e preparem-se para falar sobre Kevin, ainda esta semana.

 

 

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