É APENAS O FIM DO MUNDO – Juste la Fin du Monde

Cartaz do filme É APENAS O FIM DO MUNDO – Juste la Fin du Monde

Opinião

Toda vez que assisto a um filme dirigido pelo canadense Xavier Dolan faço o mesmo comentário: a idade de Dolan é inversamente proporcional à complexidade das relações humanas retratadas em seus filmes. Tem só 27 anos. É dele também (inclusive o roteiro) Mommy, Laurence Anyways e Eu Matei Minha Mãe – todos premiados em Cannes. E ele só tem 27.

Digo isso porque a dramaticidade não é algo banal. Muito menos fácil de trazer pra tela. E de imaginar, eu diria. Dolan cria contextos de conflitos familiares profundos, da relação materna com o filho (pilar de Mommy) e que se repete aqui em É Apenas o Fim do Mundo. Não é filme pra toda hora, muito menos pra qualquer público. Tem que mergulhar no conflito, deixar-se levar pra sentir o tamanho da tensão dos diálogos, dos sentimentos não ditos, das palavras mal interpretadas, dos olhares e, principalmente, do silêncio que o protagonista carrega. Perturbador.

Louis (Gaspard Ulliel, também em Saint Laurent) saiu de casa ainda jovem, não vê a família há 12 anos e resolve voltar para contar que vai morrer. Mas quando pisa em casa, é como se as mágoas, pesares, ditos-pelos-não-ditos e rancores transbordassem a ponto de não deixar nada mais aflorar. A única pessoa que consegue trazer à tona algo positivo, um interesse genuíno pela vida do rapaz que teve que viver longe de todos para sobreviver emocionalmente, é justamente quem não tem o vínculo afetivo antigo. A cunhada Catherine (Marion Cotillard, também em Dois Dias, Uma Noite, Ferrugem e Osso, Era Uma Vez Em Nova York ) não tem intimidade com ele, não tem uma relação viciada nas ruínas do passado, mas não consegue sair da lama. Quem cava cada vez mais fundo no lamaçal é seu irmão Antoine (Vincent Cassel, também em ), marido de Catherine, sua mãe (Natahlie Baye), que tenta sobreviver ao caos fingindo que está tudo superado, e a irmã Suzanne (Léa Seydoux, também em Diário de uma CamareiraAzul é a Cor mais Quente), que mal conhece a personalidade do irmão, mas também fica no meio do fogo cruzado e não consegue respirar.

Essa é uma metáfora boa. Ficamos sufocados com tanta cobrança, com tanta raiva e tanto desentendimento. Toda palavra é uma farpa. Não tem trégua. Uma família a ponto de explodir – ou o que restou dela.

Com esse elenco impecável, É Apenas o Fim do Mundo é um arraso. E me deixou arrasada também, duplamente: pela intensidade desse drama tão comum, fundamentado na comunicação violenta e pela profundidade dos sentimentos e da mente deste jovem diretor. O que será que vem depois disso?

 

 

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