DZI CROQUETTES

Cartaz do filme DZI CROQUETTES

Opinião

Nome no mínimo curioso. Dzi Croquette. Confesso que não fazia parte do meu repertório, até porque fez sucesso na década de 70 – eu era pequena demais para acompanhar e não era algo com apelo infantil, para dizer o mínimo. Mas o significado que o grupo carrega e todo o contexto que vem com ele não é, nem de longe, o que o grupo parecia ser no palco: 13 rapazes gays, vestidos de mulher, exageradamente maquiados, com figurino extremamente coloridos, embora escassos por estarem praticamente nus. Os Dzi Croquetes fizeram teatro, cantaram, dançaram com originalidade e um certo nonsense, origem do besteirol (como eles mesmos dizem no documentário) – mas só aparentemente. Em plenos anos de chumbo da ditadura brasileira, em que toda manifestação de arte foi fortemente reprimida e censurada, o grupo cantava em francês e inglês, além do português, fazia humor irreverente, dançava muito e quebrava padrões, tabus e preconceitos.

Foi pelo filme que fiquei sabendo da importância desse movimento em vários setores da vida artística e social brasileiras. Nas artes, os depoimentos de artistas como Claudia Raia, Miguel Falabella, Pedro Cardoso, Nelson Motta mostram como os Dzi influenciaram a maneira de agir das pessoas (muito sufocadas pela direita), permitindo que se soltassem, que vivessem a emoção dos espetáculos. Foi importante, inclusive, para a trajetória dos homossexuais brasileiros. Deve ter sido mesmo. Vendo as gravações dos programas, fiquei imaginando a reação da fatia da sociedade mais tradicional. Inclusive a censura ficou confusa. Acostumada a encontrar contraversão em manifestações artísticas ingênuas, viu no nu do Dzi Croquettes uma afronta. Mas não conseguiu achar nada de obscuro além do nu e o grupo continuou apresentando-se e fazendo seguidores. O sucesso foi nos anos 70, inclusive internacionalmente. Mas foi no início dos anos 80, quando o “câncer gay” (como era chamada a Aids na época) começou a aparecer, quando alguns de seus membros padeceram da doença e as drogas passaram a ocupar uma fatia grande demais da vida deles que o grupo se dissolveu. Dos 13 membros, 5 estão vivos e atuantes no campo das artes cênicas e musicais.

Foi inspirado neles que surgiu o grupo As Frenéticas. Delas sim, tenho meus registros – era época de Dancing Days. Se não tivesse assistido ao documentário, não arriscaria uma sugestão para a origem do nome do grupo. O nome vem de uma ideia simples: croquetes eram todos eles, formados de carne; “dzi” foi uma tentativa de registrar a sonorização do artigo “the” em inglês. Portanto, seria algo como “Os Croquetes” – o que não soaria tão original. Ganhou uma dimensão bem maior traduzida nesse idioma próprio do grupo, com identidade, coragem, ineditismo e, por que não, estranheza. A emoção nos depoimentos dá um pouco da importância e influência do grupo na maneira de pensar e fazer a arte no Brasil. Considerado o melhor documentário brasileiro nos festivais do Rio e São Paulo em 2010, vale a pena o registro.

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