DOUBLES VIES – do Festival de Veneza

Cartaz do filme DOUBLES VIES – do Festival de Veneza

Opinião

Por Suzana Vidigal, de Veneza

Segundo Olivier Assayas, diretor e roteirista do filme, a primeira cena do filme já mostra a que veio. Editor e escritor encontram-se na editora, saem pra almoçar e discutem sobre manuscritos de livros. A questão é publicar ou não publicar, se o livro digital vai destruir o físico, tendências do mercado literário, adequação aos novos tempos. Na entrevista coletiva de Doubles Vies no Festival de Veneza, Assays conta que pensou em levantar esses assuntos mais importantes já nessa primeira cena – e depois pensaria como continuar.

Num formato que parece comédia da vida privada, continuou tratando de todas as questões universais envolvendo os relacionamentos e comportamentos humanos contemporâneos. Fala com todo mundo, diga-se de passagem. Doubles Vies discute, com muito humor, sobre literatura e cinema, a revolução digital transformando completamente a maneira com que as pessoas se envolvem com as outras, num discurso universal sobre a datação do indivíduo. São dois casais: Selena (Juliette Binoche) e Alain (Guillaume Canet), ele editor, ela atriz; Laure e Léonard (Vincent Macaigne), ela executiva, ele escritor. Amigos de longa data, têm suas vidas cruzadas e entrelaçadas, numa dança de vidas duplas que vão e vêm, sempre em movimento, recheadas de ironia e referências.

Traduzido para Non-Fiction em inglês (e ainda sem título em português, mas já com passagem garantida no Brasil), a impressão que o filme dá é essa mesma, de não-ficção. Da conversa direta e honesta entre o escritor e seu editor, a câmera vai mostrando as relações como elas são, sem papa na língua. “Comecei a escrever sem saber onde ia chegar. Juntei as cenas e tornou-se uma comédia, que se impôs de forma progressiva”, diz o diretor, também de Personal Shopper, Acima das Nuvens. Sem apresentar conclusão sobre nada, o filme é aberto e deixa a brecha para o comentário de Guillaume Canet (também em O Homem que Elas Amavam Demais), que diz ter medo do “lado fast-food da era digital”, em que se consome rapidamente não se sabem nem o quê. “Saímos com um Kindle com vários livros, lemos até onde nos interessa e paramos no meio”, diz ele. “O livro físico nos instiga a continuar, vamos até o fim da história.” Uma grande mudança na percepção da realidade, essa história de redes sociais. “Aprendemos a vida de forma imediata e transformamos nossa vida em ficção.” Disse tudo, o Canet.

 

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