DHEEPAN – O REFÚGIO – Dheepan

Cartaz do filme DHEEPAN – O REFÚGIO – Dheepan

Opinião

Não dá pra esperar de um filme morno de Jacques Audiard. Os outros três do diretor francês que assisti são impactantes e principalmente intensos. Dheepan levou a tão desejada Palma de Ouro em Cannes este ano, imagino que por dois motivos mais importantes: a temática dos refugiados e a o sensação de veracidade transmitida pelos atores. Afinal, a escolha por profissionais desconhecidos do público foi ousada e deu realmente  a sensação de que estavam passando por aquele momento na vida real.

De fato é o que aconteceu com Dheepan, o personagem de Jesuthasan Antonythasan. O que ele representa no filme, um ex-soldado do Sri Lanka, que perde tudo na guerra civil, junta-se com Yalini e Illayaal para formar uma família falsa, conseguir os documentos para driblar as autoridades e migrar para a França. Antony é de fato um ex-soldado e foi pra França realmente como refugiado. Nenhum dos três tinha experiência com cinema, não se conheciam, não falavam francês (o que tornou a relação com o diretor no mínimo inusitada, segundo ele disse em entrevista em Cannes) e juntos tinham um estranhamento que se tem naturalmente diante do desconhecido. Dá credibilidade, mas precisou de alguém corajoso e disposto a incomodar como Audiard.

Migram pra França, conseguem ser alojados como refugiados políticos no subúrbio de Paris onde estão outras famílias estrangeiros, mas também suas gangues, máfias e traficantes de drogas. Ali têm que se adaptar à nova cultura, o que não é tarefa fácil. A menina se adequa com mais facilidade, aprende francês, ajuda os dois a tocarem a vida. Dheepan consegue emprego como zelador do prédio e Yalili, como cuidadora de um idoso. Embora os conflitos fossem eminentes e desse pra perceber que algo iria acontecer na briga pelo poder entre os moradores e mafiosos do local, Audiard força a barra um pouco quando dá à Dheepan pelos poderes para resolver a situação. Mas dá pra relevar, mesmo porque você estará envolvido com o ápice do conflito, com personagens que saem de uma guerra e entram em outra, preocupado com o afeto que começa a aparecer entre os três e a torcida para que realmente formem um lar.

O que importa aqui é que Dheepan faz um ponte direta com a realidade crítica dos últimos meses, em que a Europa tem que lidar com a multidão de gente que chega por lá fugindo de conflitos em seus países de origem. Estão buscando sobreviver, assim como Dheepan e sua falsa família. Assim como em O Profeta, Ferrugem e Osso, De Tanto Bater, Meu Coração Parou, Audiard quer causar incômodo, mas quis amenizar um pouco mais no desfecho. Poderia ter continuado na linha dura, mas prefiro acreditar que finais assim também sejam possíveis na vida real.

 

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