CLASH

Cartaz do filme CLASH

Opinião

Defina Clash: claustrofóbico. Assim como são as realidades políticas que sufocam, aprisionam e deixam o cidadão sem respirar. Aqui, é literalmente.

Imagina só: explode a revolução no Egito em 2011, em 2012 há eleições gerais, Mohamed Morsi da Irmandade Muçulmana é eleito, para ser deposto pelos militares em 2013. Revoltados, os seguidores do líder islâmico protestam nas ruas, o exército reprime, há confusão e surge um camburão. Lá são colocados: jornalistas estrangeiros, apoiadores dos militares e seguidores da Irmandade Muçulmana. E o filme começa. Dentro do camburão. Não é à toda que foi o filme de abertura em Cannes na categoria Um Certo Olhar. Tudo que a gente enxerga é a revolta acontecendo nas ruas através do olhar desses cidadãos presos, através da estreita janela do camburão. Simbólico, não?

O diretor Mohamed Diab é o mesmo de outro filme perturbador sobre o Egito, Cairo 678, sobre assédio e a condição da mulher naquela sociedade – mas dá para estender pra sociedade islâmica no geral. Em Clash, que pode ser entendido como conflito, explosão, o ápice do estresse, o pico do confronto físico e moral a que as pessoas se submetem pra sobreviver, perturba porque é sufocante. Presos no camburão, aparecem as diferenças políticas e sociais, entre homens e mulheres, até que a proximidade e o medo em comum fazer aparecer as semelhanças enquanto seres humanos. Os momentos de descontração são preciosos, todos se despem de suas crenças e vem à tona o que temos de mais precioso: a vida. Interessante quando um dos “presos”, um jovem, pergunta: “Mas temos sempre que escolher um lado?”.

Enquanto observam pela janela outras pessoas morrendo em outros camburões, enquanto imploram por liberdade, enquanto defendem a honra, enquanto disputam poder, desenvolvem também a compaixão e a solidariedade em momentos de sobrevivência. Os diálogos são preciosos e profundos. Dignos de um país em choque, em guerra, dividido. Só que chega um ponto na vida em que ter razão não muda nada. Estão todos condenados se o caminho da conciliação e da renúncia às vontades próprias não for o escolhido.

Assista, mas se prepare. Dá aflição, causa angústia, mas faz pensar. De alguma forma, é o que vivemos por aqui também. Uma prisão, valores encarcerados, vaidades expostas, seres humanos acuados.

 

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