BICHO DE SETE CABEÇAS

Cartaz do filme BICHO DE SETE CABEÇAS
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Opinião

DIREÇÃO: Laís Bodanzky

ROTEIRO: Luiz Bolognesi, Austregésilo Carrano (livro)

ELENCO: Rodrigo Santoro, Othon Bastos, Cássia Kiss, Caco Ciocler, Valéria Alencar, Gero Camilo, Altair Lima, Daniela Nefussi, Jairo Mattos

Brasil, 2001 (74 min)

“Não tem dó no peito
Não tem jeito

Não tem ninguém que mereça
Não tem coração que esqueça
Não tem pé, não tem cabeça
Não dá pé, não é direito
Não foi nada
Eu não fiz nada disso

E você fez
Um bicho de sete cabeças…”
– Zé Ramalho e Geraldo Azevedo

 

Quando a diretora Laís Bodanzky (também de As Melhores Coisas do Mundo) resolveu adaptar para o cinema o livro autobiográfico de Austregésilo Carrano, estava disposta a mexer no vespeiro dos manicômios brasileiros. O resultado é perturbador, tanto do ponto de vista da saúde brasileira e da corrupção pelo repasse de verba pública, quanto do lado familiar e humano. Bicho de Sete Cabeças faz um retrato da família autoritária, sem autoridade construtiva; do relacionamento sem diálogo ou real preocupação o outro. Em uma das declarações que mais chocam no filme, Neto, o personagem de Santoro (também em Meu País, Che – O Argentino, Che – A Guerrilha, Leonera, Carandiru), diz que o pai conseguiu o que queria: fazer com que o filho fosse menor que ele. Neto representa os tantos jovens irrecuperáveis depois da experiência em um dos hospitais psiquiátricos brasileiros.

Depois de descobrir que o filho fumava maconha, Wilson resolve interná-lo num manicômio da pior espécie, instituição muito presente no Brasil. Sem qualquer rigor científico, médico ou humano, os pacientes são tratados como loucos, submetidos a choques, torturas, sedações e privações, produzindo sequelas para o resto da vida. Jovens enérgicos, produtivos e cheios de vida se tornam sujeitos apáticos, abobalhados e sem vida. O que acontece com Neto impressiona pela barbaridade do tratamento, mas também pela incapacidade que esse tratamento gera na pessoa de se adaptar à vida real, ao relacionamento com as pessoas, ao trabalho, à família, aos estudos.

Polêmico e premiado (venceu o Grande Prêmio Cinema Brasil, Troféu APCA, entre outros), o filme foi o primeiro longa de Laís Bodanzky e de Rodrigo Santoro. Corajoso. Gerou discussão no Congresso Nacional com relação à proibição de construção de hospitais desse tipo. Austregésilo Carrano, autor do livro Canto dos Malditos que inspirou esta obra, fez parte da comissão antimanicomial, que lutou pela reforma psiquiátrica no Brasil, já bastante influenciada pela produção deste filme.

 

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