AT ETERNITY’S GATE

Cartaz do filme AT ETERNITY’S GATE

Opinião

Por Suzana Vidigal, de Veneza

É bom dizer logo de saída que At Eternity’s Gate não é uma biografia. Julian Schnabel, diretor do filme, conta que também é pintor – o que explica grande parte das suas escolhas. A história de Van Gogh contada aqui é sensorial, embora tenha como base as cartas escritas por ele ao seu irmão Theo, também seu marchand.

Em Veneza para apresentar o filme, Schnabel, também diretor do ótimo O Escafandro e a Borboleta, diz que não tinha um roteiro rígido. “Mesmo não sendo uma biografia, tem muitas verdades, misturadas com outras verdades, como todas as pessoas fazem todos os dias”, diz ele. É uma mistura: cronologicamente mostra a trajetória do pintor, mas permite transcender nas reflexões, na procura pela motivação na pintura, na paisagem. Assim temos um Van Gogh profundo – e lúcido (apesar de acreditarmos que ele era maluco). A sensação que dá é de que o pintor não cabia dentro de si mesmo; que a necessidade de criar, sair do material e ir para outro estágio da alma era tamanho, que tinha uma pintada de insanidade nesse contexto.

“Queria que o filme produzisse uma sensação parecida com aquela que temos ao ver um quadro de Van Gogh”, diz o cineasta. Tem uma áurea mesmo que flutua, sendo marcante ao mesmo tempo. O texto ajuda nessa viagem. Van Gogh, no filme, diz coisas como “estamos no tempo de plantar, a colheita vem depois”; “pinto com minhas qualidades e minhas falhas”; “minhas cores não vêm da realidade, e sim da minha palheta”. Cheio de licenças poéticas  – nem tudo que sai da boca de Van Gogh no filme está nas suas cartas.

Era insanidade? “Van Gogh estava lúcido, a dificuldade era quando tinha uma visão e não conseguia dividir isso com as pessoas”, diz Willem Dafoe, que representa o pintar com maestria. “Mais importante pra mim do que ler o roteiro, era saber que eu estaria pintando no filme”, conta ele. Isso leva o ator-pintor pra outro patamar, e as reflexões em forma de texto aparecem nas situações em que dialoga com personagens formais – o policial, o padre, o médico.

É dessa mistura de realidade e reflexão que vem o título At Eternity’s Gate. Para o diretor, Van Gogh era absolutamente lúcido sobre a eternidade, sobre a passagem por este mundo. A versão da sua morte, se ele teria se matado ou não, aqui vem de uma forma serena, do pintor certo de que estaria indo desta para melhor. Nos últimos 80 dias de vida, ele pinta 75 telas, produz como nunca. Faz jus quando diz que “pinta para parar de pensar; que não é uma forma de meditação, mas um encontro com tudo que está dentro dele”. É assim que a gente sente o filme. Vem de dentro.

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