ANIMAIS NOTURNOS – Nocturnal Animals

Cartaz do filme ANIMAIS NOTURNOS – Nocturnal Animals

Opinião

Vale lembrar quem é Tom Ford: antes de cineasta, é estilista e responsável pela revitalização da Gucci. Portanto, olho bem aberto para a estética impecável de tudo que Ford faz – inclusive seu filme anterior, Direito de AmarAnimais Noturnos é de uma intensidade absurda – chega a rasgar o coração. Despeja, sem dó, o espectador dentro da tela, usando a estratégia de trazer uma história pra dentro da própria narrativa – tão bem amarrado que a gente até se esquece do que é a realidade da personagem, o que é ficção.

Vale dizer também que a Ford constrói dois mundos, bem distintos. Complementares, talvez. O claro, a sombra; o frio e impessoal, o confuso e caótico; o racional, o visceral. Susan, personagem da maravilhosa Amy Adams (também em A Chegada) – quanto talento em tanta frieza e insegurança! – e Tony, Jake Gyllenhaal (também em Evereste, O Abutre), vivem dois dramas. Na vida real, Susan e Tony foram casados, algo acontece e eles se separam. Susan se casa com um sujeito lindo e rico, que já a engana com outra. Vidas à parte. Susan lida com arte, é galerista – convive entre a perfeição da estética minimalista e contemporânea da arte, e o grotesco da vida real na pele das modelos que pousam na exposição da cena inicial. Sozinha e solitária, Susan recebe de Tony um livro escrito por ele, dedicado a ela. A história é de barbárie: a mãe e as duas filhas são violentadas e assassinadas por marginais na estrada, enquanto o pai fica refém dos assassinos. Chocante – e Susan devora o livro, assim como a gente devora a sua história pessoal.

Curioso Tom Ford, que é estilista da elite da moda, entrar a fundo nesse panorama do poder da imagem, da futilidade, da vaidade, da burguesia, do consumo. Faz uma reflexão importante. O que é, afinal, ficção e realidade? O terror de Susan era virar um espelho da sua mãe – conservadora e preconceituosa – e acaba repetindo o padrão, assim como previsto. Quantos de nós não repetimos e perdemos a essência, aquilo que somos. Animais Noturnos traz tudo isso, além da tensão de acompanhar relações humanas tão complexas na tela. E traz uma história de desamor – o que sempre é carregado de uma pitada de realidade.

 

 

Comentários