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CONTRA O TEMPO

AS PONTES DE SARAJEVO – Les Ponts de Sarajevo

38mostraspEste ano é o centenário do início da Primeira Guerra Mundial, que teve como gatilho o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do império Austro-Húngaro, em Sarajevo. O assassino era membro do movimento “Jovem Sérvia”, que pretendia terminar com o domínio da Áustria-Hungria sobre os povos eslavos (que incluia bósnios, sérvios e croatas), para enfim formar a Iugoslávia.

A partir desse fato, o mapa da Europa mudou para sempre, dando fim a milhões de vidas nas guerras que se sucederam, separando famílias, destruindo culturas e países, acirrando a intolerância religiosa. Partindo desta premissa, 13 diretores de diferentes projeções e nacionalidades foram convidados a rodar um curta, dando seu parecer sobre o tema, tendo a cidade de Sarajevo como centro, seja naquilo que ela representou, representa ou abriga como memória. Algo no estilo da séria Cities of Love (que já tem Paris, NY e Rio), só que alinhavado pelo traço do cartunista belga François Schuiten. O que seu desenho faz é unir o conteúdo de cada um dos diferentes olhares através das famosas pontes da cidade de Sarajevo, num interessante apanhado que une tristeza e guerra, (des)esperança e (in) tolerância – e até um certo humor negro. Na imagem acima, um grupo de garotos joga futebol e a bola cai no cemitério onde estão enterrados os cristãos sérvios e muçulmanos bósnios mortos na guerra. Um dos episódios mais tocantes.

Acho sempre interessante este recurso, ainda mais em um assunto tão complexo como esse, que mudou a história do século, produziu sérias sequelas culturais, sociais, familiares e religiosas e que tem, para mim, uma grande interrogação: a guerra na Bósnia nos anos 90. Um genocídio debaixo dos olhos de todos nós, em pleno coração europeu.

Para quem gosta de história e de explorar diferentes visões de um mesmo tema, vale seu ingresso. Sai do comum, abre a cabeça e faz refrescar a memória. Saí do cinema e uma mãe dizia para o filho, um jovem: “eu me lembro vagamente que teve mesmo uma guerra naquela região, lá pelos anos 90, bem quando você nasceu”. Pois é. É desse tipo de coisa que não dá para lembrar só “vagamente”. É por essas e outras que o cinema é memória fundamental.

 

DIREÇÃO: Ainda Begic, Leonardo Di Costanzo, Jean-Luc Godard, Kamen Ka | 2014 (114 min)

 

 

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TREM NOTURNO PARA LISBOA – Night Train to Lisbon
CLASSIFICAÇÃO: Suiça, Portugal, Para se Emocionar, Garimpo na Locadora, Drama, Alemanha - 02/12/2013

Trem noturno para Lisboa tinha tudo para ser um bom filme: tem ótimo elenco (Jeremy Irons, Charlotte Rampling, Mélanie Laurent, Jack Huston, Martina Gedeck) e o trailer (aliás, a distribuidora fez um bom trabalho)tem bom ritmo, sugere romance, suspense, uma boa narrativa, permeada de assuntos pessoais e de fatos históricos. Ou seja, pacote completo.

O que será que acontece com um filme que tem tudo, mas que vai perdendo a força com o decorrer da trama? Começa pungente: a pacata rotina de um professor de filosofia suíço (Jeremy Irons) é quebrada quando ele se depara com uma jovem pulando de uma ponte. Impede que ela cometa suicídio e, de quebra, encontra o livro de um escritor português chamado Amadeo do Prado que chama a sua atenção. Dentro dele há uma passagem de trem para Lisboa, naquela noite. Resolve largar tudo, embarca para Portugal e vai atrás desse tal de Amadeo e de sua história.

Em flashback, o diretor dinamarquês Bille August volta para a época da ditadura de Salazar, que resultou na Revolução dos Cravos , em 1974, pelas mãos da resistência. Amadeo do Prado é um médico, que se envolve com os rebeldes, apaixona-se pela namorada do melhor amigo e escreve sua história no livro que vai parar na mão do professor suíço. Um prato cheio para um ótimo filme sobre um momento histórico pouco explorado pelo cinema (até onde eu sei), com romance, traição, amizade e a discussão, sempre atual, sobre o dia em que alguém decidiu largar tudo e mudar de vida.

Por algum motivo Bille August, também de Pelle, O Conquistador, não engrena. Embora seja agradável, não é aquele filmaço que o trailer promete. Pena. Adoro filmes com esse viés histórico, ainda mais recheado de tantas caras conhecidas. O livro homônimo, do francês Pascal Mercier, que serviu de base para o filme, foi sucesso de vendas. No cinema, este trem não vai muito longe.

 

DIREÇÃO: Bille August  ROTEIRO: Pascal Mercier (livro), Greg Latter ELENCO: Jeremy Irons, Mélaine Laurent, Jack Huston, Martina Gedeck | 2013 (111 min)

 

 

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SINGULARIDADES DE UMA RAPARIGA LOURA
CLASSIFICAÇÃO: Portugal, Para se Divertir - 25/05/2011

DIREÇÃO: Manoel de Oliveira

ROTEIRO: Manoel de Oliveira, baseado no conto de Eça de Queiroz

ELENCO: Ricardo Trêpa, Cataina Wallenstein, Diogo Dória, Leonor Silveira, Júlia Buisel, Filipe Vargas, Miguel Seabra

Portugal, 2009 (64 min)

Manoel de Oliveira tem, nada mais, nada menos que 102 anos. Além da longevidade em si e da disposição de continuar criando, o diretor mostrou que tem uma aguçada capacidade de adaptar o contemporâneo ao antigo, de retratar os costumes do final do século 19 em uma linguagem visual atual, de falar dos costumes e relacionamentos de outros tempos sem parecer piegas ou antiquado. Mostrou que tem uma cabeça moderna, afinal de contas!

Isso porque sua adaptação do conto de Eça de Queiroz é curiosa e bem humorada. Eu não conhecia a história, muito menos esperava por esse final. Enquanto Macário (Ricardo Trêpa) conta sua história a uma moça durante uma viagem de trem e justifica sua tristeza, em flashback conhecemos o que realmente aconteceu. Trabalhando em Lisboa na loja do tio, Macário se apaixona por Luísa, a ‘rapariga loura’ que aparece na janela em frente. Ou melhor, apaixona-se por sua imagem. Sem conhecê-la, pede sua mão em casamento e resolve trabalhar para guardar dinheiro e se casar. Singular, a rapariga…

Interessante a construção de época, do vestuário ao mobiliário, da linguagem aos costumes. Mas mais interessante que isso é a introdução de alguns detalhes do mundo atual numa realidade de 130 anos atrás. Macário usa computador, viaja em trens modernos, ao mesmo tempo em que precisa pedir ao tio autorização para casar e é expulso de casa por não obedecer.  Mas nada disso parece fora do seu lugar, tamanha a sutileza. E para quem está familiarizado com Portugal, o panorama do Rocio e as tomadas da cidade são um convite à vida lisboeta.

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LIVRO e FILME – ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA
CLASSIFICAÇÃO: Portugal, Dicas Afins - 17/11/2010

Aproveitando Saramago e o documentário sobre sua relação com sua esposa, a espanhola Pilar Del Río, vou falar do que já deveria ter falado, na ocasião da sua morte em junho deste ano. Aproveitando o belo documentário José e Pilar e a cena em que os dois acompanham o diretor Fernando Meirelles na exibição da sua adaptação do romance Ensaio Sobre a Cegueira, quero registrar que não me esqueço da sensação que o livro e o filme produziram em mim. Quem não leu e gosta do estilo do autor português, coloque o livro na sua lista de desejos. Quem se cansa da sua falta de pontuação e outras coisinhas mais, veja o filme. A sensação produzida por ambos foi muito parecida e isso prova a competência e sensibilidade de Meirelles de levar para a tela algo muito difícil de transferir.

Quando li Ensaio Sobre a Cegueira (Blindness, título em inglês), imediatamente me lembrei do personagem de Machado de Assis, Simão Bacamarte. Em O Alienista, o médico Bacamarte resolve internar as pessoas da cidade que sofrem algum distúrbio de loucura. Acaba internando quase toda a população, até perceber que o louco mesmo era ele. Na história de Saramago, a loucura é substituída pela cegueira. Contagiante, ela acaba contaminando toda a população e a única que consegue enxergar e ver a falta de visão dos outros, a falta de dignidade, de humanidade e decência do ser humano num mundo como no nosso é a personagem de Julianne Moore no filme (também em Minhas Mães e Meu Pai). A prisão de todos para evitar uma epidemia não impede que a cegueira moral e ética se alastrem, assim como os pacientes de Bacamarte, todos loucos e desequilibrados.

A aflição que tanto o filme quanto o livro geram é inesquecível, ainda mais quando projetamos todas as barbaridades da humanidade nas proporções de uma epidemia. Saramago quis mesmo dizer que o homem não merece o mundo que tem. E Meirelles conseguiu transmitir isso. As imagens feitas em São Paulo são incríveis, de uma cidade que poderia ser qualquer outra no mundo. São imagens sem nome ou local, simplesmente como é a atitude gananciosa e egoísta das pessoas. As duas obras são fortes e marcantes. Saí do cinema como se tivesse levado um soco no estômago, como se aquilo pudesse nos fazer enxergar o que realmente somos, por o que realmente lutamos. E não restou um pingo de dignidade.

CRÉDITOS DO FILME:

DIREÇÃO: Fernando Meirelles

ROTEIRO: José Saramago (livro) e Don McKellar

ELENCO: Julianne Moore, Mark Ruffalo, Gael García Bernal

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