ROTEIRO: Karim Ainouz, Ismail Kadare
ELENCO: Rodrigo Santoro, José Dumont, Rita Assemanv, Luiz Carlos Vasconcelos, Ravi Ramos Lacerda, Wagner Moura
Brasil, 2001 (105 min)
“Olho de um, olho de outro, acabou ficando todo mundo cego.” – Pacu, o filho mais moço
Já disse aqui várias vezes o quanto gosto do trabalho de Rodrigo Santoro no cinema. O nacional, que fique bem claro. Entendo que não seja fácil negar a participação em filmes de Hollywood, como o O Último Desafio, com Arnold Schwarzenegger, ou O Que Esperar Quando Você Está Esperando. Afinal, Santoro lutou para entrar na indústria americana e bem sabemos que não é tarefa fácil.
Sem desmerecer sua luta – quem sou eu para fazer isso. Mas seu trabalho no cinema brasileiro é infinitamente melhor. Aliás, sempre uma grata surpresa rever sua atuação em produções mais antigas, como o lindo Abril Despedaçado. Com a cara do diretor Walter Salles (também de Central do Brasil, Linha de Passe, Diários de Motocicleta, Na Estrada) o filme de 2001 conta com Santoro ainda jovem, recém chegado no campo da longa metragem com uma atuação marcante em Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bodanzky, também de 2001. Santoro está novo, porque é jovem. Mas não cru, porque tem maturidade, presença, entrega. E não estamos falando de personagens rasos, tolos, corriqueiros. Estamos falando de papéis densos e profundos nos dois filmes, em que o olhar marca mais do que a fala, em que a atitude diante da câmera é mais forte do que o diálogo propriamente dito.
Com cara de filme autoral, em Abril Despedaçado Santoro é Tonho, o filho do meio de uma família sofrida do sertão brasileiro, que já perdeu o irmão mais velho para o acerto de contas típico do interior cangaceiro, para a disputa de terras sem peso nem medida. Na base da vingança. Uma família toma terra da outra, vinga-se matando o primogênito, que é vingado pelo segundo filho, que mata o primogênito da outra família e assim por diante. Até que não sobra mais ninguém pra contar a história e herdar a terra disputada a ferro e fogo.
O equilíbrio talvez seja a grande sacada de Salles. Ao mesmo tempo em que mostra a escassez do sertão, a fome, a seca, a solidão, a ignorância, a bestialidade da violência, suaviza com a doçura entre os irmãos, com o livro que chega para fazer sonhar, com as imagens que compõem o inatingível, com o balanço que faz voar, com o circo que desperta a vida adormecida.
Quem ainda não viu, corra! É lindo, sensível e brasileiro. E ainda recomendo os filmes abaixo, torcendo sempre para que Santoro não desista do cinema em terras tupiniquins.
BICHO DE SETE CABEÇAS, de Laís Bodanzky
CARANDIRU, de Hector Babenco
LEONERA, de Pablo Trapero
CHE – O ARGENTINO, de Steven Soderbergh
CHE 2 – A GUERRILHA, de Steven Soderbergh
HELENO, de José Henrique Fonseca
MEU PAÍS, de André Ristum
ROTEIRO: Willy Russell
ELENCO: Pauline Collins, Tom Conti, Julia McKenzie, Bernard Hill
Inglaterra, 1989 (108 min)
Shirley Valentine tem 42 anos! Fiquei chocada. A minha idade. Quando assisti pela primeira vez, eu devia estar na casa dos 20 e sua realidade parecia algo muito, mas muito longínquo. Engraçado ver por essa perspectiva, do tempo que passa e de como cada personagem nos conta uma história dependendo da época. Mas o que importa é que o filme Shirley Valentine está na mesma prateleira de Bagdad Café – aqueles filmes que dizem, de uma maneira simples e sensível, uma história trivial: donas de casa aos 40, já sem filhos em casa, questionam o que fizeram com a vida, onde está a paixão da época do casamento e a sua identidade. Deslocar-se do lugar comum ajuda nessa procura: uma vai para a Grécia, a outra, para um decadente café na beira de uma estrada deserta.
Embora de maneiras completamente diferentes, lidam com a mesma questão. Bagdad Café, de uma maneira mais poética, musical, quase improvável; Shirley Valentine (Pauline Collins, também em Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos, Albert Nobbs) é mais teatral.Ela fala com a câmera, como se falasse conosco, quase num exame de consciência. E não apresenta final, deixa em aberto, para cada um se encaixar, ou não, como bem entender.
Resumo da ópera: tenha você 42 ou não, Shirley é o emblema da dona de casa inglesa (e de muitos outros países), que perdeu a identidade durante um casamento acomodado. Não sem humor e graça. Delicioso, feminino, mas não feminista. Assim como Bagdá Café. Doce. Reconciliador.
ROTEIRO: Boris Pasternak, Robert Bolt
ELENCO: Omar Sharif, Julie Christie, Geraldine Chaplin, Rod Steiger, Alec Guinness, Tom Courtenay
Inglaterra, 1965 (197 min)
De novo falando de um dos grandes filmes do diretor inglês David Lean, também de Passagem para a Índia e Lawrence da Arábia, de novo ressalto sua capacidade de contar uma grande história. Memorável. Constrói o panorama anterior à Primeira Guerra Mundial de uma Rússia aristocrata, do nascimento da Revolução Socialista, da fome, penúria e perseguição que se instalam com o poder socialista. Em mais de 3 horas de filme, Doutor Jivago é mais do que um clássico. É uma relato histórico baseado no livro homônimo de Boris Pasternak minuciosamente produzido (ainda mais considerando que isso foi feito há quase 50 anos) e cuidadosamente elaborado para não ser um novelão, mas sim um bonito romance histórico, sem melodrama excessivo, com emoção na medida certa.
Doutor Jivago (Omar Sharif, também em Lawrence da Arábia) é um médico que vive confortavelmente na sociedade aristocrata dos czares russos, mas que se mostra digno e correto, sem se render aos mandos dos corruptos do sistema. Casa-se com Tonya (Geraldine Chaplin, também em Americano) e se apaixona-se por Lara (Julie Christie), filha de uma costureira que casa-se com um revolucionário e vive dos favores de um político inescrupuloso, este que dança conforme a música para se favorecer. O czar cai, os socialistas tomam o poder e suas vidas são duramente afetadas por tudo isso – assim como as do povo russo, que sofre nos campos de trabalho forçado, passa fome e frio, perde suas propriedades e familiares. Toda essa história é contada por um oficial do partido, meio-irmão de Jivago, que nos anos 1940 quer encontrar sua sobrinha, filha de Jivago com Lara.
O enredo é muito mais elaborado e detalhado do que isso, claro. Essa é só para localizá-lo no tempo e no espaço, para dizer que o filme visita momentos históricos, constrói personagens marcantes e é um clássico que deve ser visto. Reserve 3 horas – você não vai se arrepender.
ROTEIRO: David Lean, E.M. Forster (livro)
ELENCO: Judy Davis, Victor Banerjee, Peggy Ashcroft, James Fox, Alec Guinness, Nigel Havers, Richard Wilson
Inglaterra, 1984 (164 min)
Depois de assistir a O Exótico Hotel Marigold, lembrei-me de Passagem para a Índia, um registro interessante sobre os conflitos raciais, econômicos, políticos e sociais entre o império britânico e sua colônia, a Índia, nos anos 20. Interessante e colorido, é dirigido por David Lean, do grande e incomparável Lawrence da Arábia.
Passagem para a Índia, para quem não viu, vale a pena. Toca na questão do preconceito racial dos brancos imperialistas e indianos, na diferença humana feita pela cor da pele, na maneira de tratar e sentir-se superior dos ingleses. Adela (Judy Davis) vai à Índia acompanhada pela sogra, para encontrar o noivo que exerce uma função importante no poder jurídico – nada imparcial, diga-se de passagem. Desprovida de preconceitos e sem compartilhar da mesma atitude de seus compatriotas que usufruem das mordomias e desprezam os indianos, Adela quer conhecer a verdadeira Índia. Sua disposição em viajar e conviver com os locais deflagra o conflito do filme. Do lado de Adela está um educador inglês, que tem uma visão humanista e positiva do que a presença britânica poderia contribuir para o país e sua população.
Uma grande produção, sem dúvida. A Índia é sempre um assunto de grande interesse e diversidade, que contribui para aumentar o repertório, enriquecer culturalmente e sair do cenário comum. Quem gosta do tema pode ver também o aclamado Gandhi (aliás, imperdível pela importância do tema e pela qualidade cinematográfica), Quem Quer Ser um Milionário ou ainda o simpático Despachado para a Índia. Sem esquecer de O Exótico Hotel Marigold, nos cinemas.
ROTEIRO: Mark Medoff, Hesper Anderson, James Carrington
ELENCO: William Hurt, Marlee Matlin, Piper Laurie, Philip Bosco, Allison Gompf, John F. Cleary, Geórgia Ann Cline
Estados Unidos, 1986 (119 min)
Será possível encontrar um lugar comum de comunicação e convívio entre uma pessoa surda e muda e alguém que escuta e fala normalmente que não seja no total silêncio, nem no mundo das palavras e do barulho? Interessante essa pergunta, que se aplica a outras dificuldades de comunicação, tão comuns entre os que não tem qualquer problema fisiológico de audição ou fala. O “comunicar-se” aqui vai bem mais além da simples troca de palavras. Entra na seara da interação, do querer ouvir e compreender, do querer ceder e compartilhar.
Pensando nisso, vejo como Filhos do Silêncio é absolutamente atual em dois aspectos básicos. O primeiro diz respeito ao enredo em si, inserido no contexto da educação. Sarah Norman (Marlee Matlin, vencedora do Oscar e Globo de Ouro pelo papel), é surda e muda, frequentou uma escola especial, mas se recusa a aprender a falar. Só se comunica pela linguagem dos sinais. James Leeds (William Hurt, também em Late Bloomers – O Amor não tem Fim, Hobin Hood, Syriana – A Indústria do Petróleo) é professor especializado em deficientes auditivos e inova na sua maneira afetiva e sensorial de ensinar, justamente na escola que Sarah estudou. Os dois se conhecem e Leeds passa a questionar a escolha de Sarah de viver no silêncio e de ser recusar a entrar no mundo dos “falantes”. Portanto, pensando no nosso mundo de hoje, mais preocupado com a inserção dos deficientes nas escolas e na sociedade como um todo, o filme é interessante e muito delicado.
Atual também no que diz respeito ao mundo tecnológico em que vivemos e do qual nos gabamos das inúmeras maneiras de se comunicar, de encontrar as pessoas, de se relacionar virtualmente. O excesso de meios pode também significar a escassez de afinidades, contatos reais, desenvolvimento de outros sentidos como tato, visão, olfato, paladar. O mundo virtual também é surdo e mudo, se for usado como único recurso para se comunicar. É silencioso, solitário. Sarah vive no silêncio por opção e medo de relacionar-se realmente. Isso não pode ser transportado para o outro extremo que vivemos hoje, o do excesso de possibilidades? O virtual de hoje também não nos isola, por assim dizer?
Fiquei tocada novamente pelo filme. Claro que o outro aspecto que chama a atenção é o da aceitação e do amor que nasce entre Sarah e James. Nem citei este terceiro, porque a aceitação do outro é sempre tema do cotidiano e meta a se seguir. Lembrei-me também do italiano Vermelho como o Céu, que fala da educação especial de cegos e do fundamental desenvolvimento de outros sentidos. São questões importantes. Nunca é demais parar para pensar.
ROTEIRO: Gérard Brach, Roman Polanski
ELENCO: Nastassja Kinski, Peter Firth, Leigh Lawson, John Collin, Tony Church
França, Inglaterra, 1979 (186 min)
Logo mais teremos mais um filme de Roman Polanski nos cinemas, Deus da Carnificina. Algo teatral, completamente diferente de sua filmografia, como por exemplo os ótimos O Escritor Fantasma e O Pianista. Diferente em tudo também do belo Tess, filme de 1979. Com suas 3 horas de duração, Tess faz o retrato da sociedade hipócrita e preconceituosa da Inglaterra do final do século 19.
Baseado no romance de Thomas Hardy, Tess é uma linda e cuidadosa produção de uma época em que ser nobre era a solução para todos os problemas de ordem prática – mas não moral. Tess é filha de um pobre agricultor, que se anima com a notícia de que sua família descende dos nobre d’Uberville e que portanto teria direito à algum bem ou pelo menos regalias. Para checar, envia sua filha mais velha Tess (Nastassja Kinski) até a mansão dos nobres e ela acaba se envolvendo com seu “primo”, que não é de uma linhagem tão notável assim. Claro que os afagos vêm sem amor, que Tess se desilude e que quando realmente se apaixona esse antigo relacionamento acaba sendo um empecilho para sua felicidade.
Tess é um filme de época, com figurino impecável e uma ambientação bem cuidada – venceu o Oscar de melhor direção de arte, fotografia e figurino. Apesar de longo, vale insistir para gosta do gênero. O desfecho foge do que se espera – o que acho sempre um alento e uma boa surpresa. Esperem pra ver Deus da Carnificina (nos cinemas dia 11 de maio). Eclético, o Polanski.
ROTEIRO: T.E. Lawrence, Robert Bolt
ELENCO: Peter O’Toole, Alec Guinness, Antony Quinn, Jack Hawkins, Omar Sharif, Anthony Quayle, Claude Rains
Inglaterra, 1962 (216 min)
Guardadas as devidas proporções – que fique bem claro - O Príncipe do Deserto me inspirou a rever o grande clássico Lawrence da Arábia. Esse sim, um épico, com quase quatro horas de duração, vendedor de 7 Oscar e uma paisagem do deserto como poucos filmes conseguiram fazer. Ou nenhum.
Também diretor de filmes como Dr. Jivago e Passagem para a Índia, David Lean constrói um retrato impecável da península arábica durante a Primeira Guerra Mundial, contando a história do oficial britânico que, cansado de executar tarefas no confortável e generoso escritório no Cairo, pede para atuar no campo. E, já naquele começo de século, atuar no campo no Oriente Médio era envolver-se num barril de pólvora. De um lado, as inúmeras tribos árabes rivais, violentas e ditatoriais por definição, disputavam terras e poder na península; de outro, os turcos que invadiam seus territórios, dominavam cidades e abriam caminho para anexá-los ao já enorme Império Otomano. Lawrence entra justamente nesse momento, em que os ingleses não queriam lutar contra os turcos, pois já combatiam na Europa, mas não desejavam o poder deles em uma região tão estratégica; e em que os árabes precisavam lutar contra um inimigo comum, e para isso precisavam colocar de lado seus interesses próprios e richas históricas.
Lawrence da Arábia ganha identidade árabe, agindo como conciliador e estrategista inglês para combater os turcos, graças à sua crença na revolta árabe e profundo conhecimento geográfico da região. Independente de sua controversa postura (que o filme não deixa claro, apenas sugere que tem dúvidas, inseguranças, que questiona sua missão em alguns momentos), é um fator determinante na reconquista da península pelas tribos nativas e sua direta negociação, daquele momento em diante, com os interesses ingleses e ocidentais.
Mesmo se você preferir não entrar nos detalhes dessas questões políticas e dos interesses particulares do Ocidente, fato é que Lawrence da Arábia é um clássico impressionante de cenas de batalhas entre tribos, viagens pelo deserto de fotografia impar. E mais: em se tratando de lutas tribais, de vingança e richas entre líderes, torna filmes como O Príncipe do Deserto algo novelesco e nada mais. Eu já tinha avisado – são propostas diferentes, não tem nem como comparar. Cada um no seu devido lugar.
DIREÇÃO e ROTEIRO: Jane Campion
ELENCO: Holly Hunter, Harvey Keitel, Sam Neill, Ana Paquin, Kerry Walker
Austrália, Nova Zelândia, 1993 (121 min)
Quando o filme tem um roteiro envolvente e amarrado e me fisga de uma maneira especial, deixando-me absolutamente absorvida pela história, confesso que muitas vezes me sinto no mais absoluto silêncio. Interno também. É como se o enredo, a realidade da tela me subtraísse da realidade, dos meus pensamentos e sentimentos. Entro no filme, por assim dizer. E quando isso acontece, a música também é absorvida, mas de uma maneira diferente. É como se eu a percebesse como conjunto, fazendo parte da imagem, da encenação, do cenário. Quando o todo é harmônico, a trilha ganha outras dimensões, fazendo com que muitas vezes eu me esqueça (ou não consiga) senti-la isoladamente.
Falha minha, eu sei. Principalmente em filmes como O Piano, em que a música compõe a trama e o drama vivido por Ada (Holy Hunter) e sua filha Flora (Anna Paquin, também em O Casamento do Meu Ex), ambas vencedoras do Oscar de melhor atriz e atriz coadjuvante respectivamente, e o filme levou também o de melhor roteiro. Elas se mudam da Escócia para a Austrália em meados do século 19, pois Ada está de casamento marcado com um rico fazendeiro. Muda, capaz de se comunicar através de gestos e com a ajuda de sua filha, ela se apaixona pela pessoa errada. Sempre com o piano como intermediário das cenas e dramas, compondo um panorama intenso e emocionante.
Sentir a música dessa maneira é bom e ruim ao mesmo tempo. Bom porque mostra que o filme forma um conjunto equilibrado, capaz de emocionar e tocar o espectador profundamente. Ruim porque a trilha linda e bem cuidada não é apreciada isoladamente, mas sim como composição do conjunto – acabou o filme e fiquei com vontade de ouvi-la de novo. Se quiser rever O Piano, pode tentar fazer o exercício de prestar especial atenção à trilha. Não em detrimento de todo o resto, que é belíssimo. Mas com o olhar – e ouvidos – de quem aprecia uma obra que fala por si só.
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