ROTEIRO: David Lean, E.M. Forster (livro)
ELENCO: Judy Davis, Victor Banerjee, Peggy Ashcroft, James Fox, Alec Guinness, Nigel Havers, Richard Wilson
Inglaterra, 1984 (164 min)
Depois de assistir a O Exótico Hotel Marigold, lembrei-me de Passagem para a Índia, um registro interessante sobre os conflitos raciais, econômicos, políticos e sociais entre o império britânico e sua colônia, a Índia, nos anos 20. Interessante e colorido, é dirigido por David Lean, do grande e incomparável Lawrence da Arábia.
Passagem para a Índia, para quem não viu, vale a pena. Toca na questão do preconceito racial dos brancos imperialistas e indianos, na diferença humana feita pela cor da pele, na maneira de tratar e sentir-se superior dos ingleses. Adela (Judy Davis) vai à Índia acompanhada pela sogra, para encontrar o noivo que exerce uma função importante no poder jurídico – nada imparcial, diga-se de passagem. Desprovida de preconceitos e sem compartilhar da mesma atitude de seus compatriotas que usufruem das mordomias e desprezam os indianos, Adela quer conhecer a verdadeira Índia. Sua disposição em viajar e conviver com os locais deflagra o conflito do filme. Do lado de Adela está um educador inglês, que tem uma visão humanista e positiva do que a presença britânica poderia contribuir para o país e sua população.
Uma grande produção, sem dúvida. A Índia é sempre um assunto de grande interesse e diversidade, que contribui para aumentar o repertório, enriquecer culturalmente e sair do cenário comum. Quem gosta do tema pode ver também o aclamado Gandhi (aliás, imperdível pela importância do tema e pela qualidade cinematográfica), Quem Quer Ser um Milionário ou ainda o simpático Despachado para a Índia. Sem esquecer de O Exótico Hotel Marigold, nos cinemas.
ROTEIRO: Mark Medoff, Hesper Anderson, James Carrington
ELENCO: William Hurt, Marlee Matlin, Piper Laurie, Philip Bosco, Allison Gompf, John F. Cleary, Geórgia Ann Cline
Estados Unidos, 1986 (119 min)
Será possível encontrar um lugar comum de comunicação e convívio entre uma pessoa surda e muda e alguém que escuta e fala normalmente que não seja no total silêncio, nem no mundo das palavras e do barulho? Interessante essa pergunta, que se aplica a outras dificuldades de comunicação, tão comuns entre os que não tem qualquer problema fisiológico de audição ou fala. O “comunicar-se” aqui vai bem mais além da simples troca de palavras. Entra na seara da interação, do querer ouvir e compreender, do querer ceder e compartilhar.
Pensando nisso, vejo como Filhos do Silêncio é absolutamente atual em dois aspectos básicos. O primeiro diz respeito ao enredo em si, inserido no contexto da educação. Sarah Norman (Marlee Matlin, vencedora do Oscar e Globo de Ouro pelo papel), é surda e muda, frequentou uma escola especial, mas se recusa a aprender a falar. Só se comunica pela linguagem dos sinais. James Leeds (William Hurt, também em Late Bloomers – O Amor não tem Fim, Hobin Hood, Syriana – A Indústria do Petróleo) é professor especializado em deficientes auditivos e inova na sua maneira afetiva e sensorial de ensinar, justamente na escola que Sarah estudou. Os dois se conhecem e Leeds passa a questionar a escolha de Sarah de viver no silêncio e de ser recusar a entrar no mundo dos “falantes”. Portanto, pensando no nosso mundo de hoje, mais preocupado com a inserção dos deficientes nas escolas e na sociedade como um todo, o filme é interessante e muito delicado.
Atual também no que diz respeito ao mundo tecnológico em que vivemos e do qual nos gabamos das inúmeras maneiras de se comunicar, de encontrar as pessoas, de se relacionar virtualmente. O excesso de meios pode também significar a escassez de afinidades, contatos reais, desenvolvimento de outros sentidos como tato, visão, olfato, paladar. O mundo virtual também é surdo e mudo, se for usado como único recurso para se comunicar. É silencioso, solitário. Sarah vive no silêncio por opção e medo de relacionar-se realmente. Isso não pode ser transportado para o outro extremo que vivemos hoje, o do excesso de possibilidades? O virtual de hoje também não nos isola, por assim dizer?
Fiquei tocada novamente pelo filme. Claro que o outro aspecto que chama a atenção é o da aceitação e do amor que nasce entre Sarah e James. Nem citei este terceiro, porque a aceitação do outro é sempre tema do cotidiano e meta a se seguir. Lembrei-me também do italiano Vermelho como o Céu, que fala da educação especial de cegos e do fundamental desenvolvimento de outros sentidos. São questões importantes. Nunca é demais parar para pensar.
ROTEIRO: Gérard Brach, Roman Polanski
ELENCO: Nastassja Kinski, Peter Firth, Leigh Lawson, John Collin, Tony Church
França, Inglaterra, 1979 (186 min)
Logo mais teremos mais um filme de Roman Polanski nos cinemas, Deus da Carnificina. Algo teatral, completamente diferente de sua filmografia, como por exemplo os ótimos O Escritor Fantasma e O Pianista. Diferente em tudo também do belo Tess, filme de 1979. Com suas 3 horas de duração, Tess faz o retrato da sociedade hipócrita e preconceituosa da Inglaterra do final do século 19.
Baseado no romance de Thomas Hardy, Tess é uma linda e cuidadosa produção de uma época em que ser nobre era a solução para todos os problemas de ordem prática – mas não moral. Tess é filha de um pobre agricultor, que se anima com a notícia de que sua família descende dos nobre d’Uberville e que portanto teria direito à algum bem ou pelo menos regalias. Para checar, envia sua filha mais velha Tess (Nastassja Kinski) até a mansão dos nobres e ela acaba se envolvendo com seu “primo”, que não é de uma linhagem tão notável assim. Claro que os afagos vêm sem amor, que Tess se desilude e que quando realmente se apaixona esse antigo relacionamento acaba sendo um empecilho para sua felicidade.
Tess é um filme de época, com figurino impecável e uma ambientação bem cuidada – venceu o Oscar de melhor direção de arte, fotografia e figurino. Apesar de longo, vale insistir para gosta do gênero. O desfecho foge do que se espera – o que acho sempre um alento e uma boa surpresa. Esperem pra ver Deus da Carnificina (nos cinemas dia 11 de maio). Eclético, o Polanski.
ROTEIRO: T.E. Lawrence, Robert Bolt
ELENCO: Peter O’Toole, Alec Guinness, Antony Quinn, Jack Hawkins, Omar Sharif, Anthony Quayle, Claude Rains
Inglaterra, 1962 (216 min)
Guardadas as devidas proporções – que fique bem claro - O Príncipe do Deserto me inspirou a rever o grande clássico Lawrence da Arábia. Esse sim, um épico, com quase quatro horas de duração, vendedor de 7 Oscar e uma paisagem do deserto como poucos filmes conseguiram fazer. Ou nenhum.
Também diretor de filmes como Dr. Jivago e Passagem para a Índia, David Lean constrói um retrato impecável da península arábica durante a Primeira Guerra Mundial, contando a história do oficial britânico que, cansado de executar tarefas no confortável e generoso escritório no Cairo, pede para atuar no campo. E, já naquele começo de século, atuar no campo no Oriente Médio era envolver-se num barril de pólvora. De um lado, as inúmeras tribos árabes rivais, violentas e ditatoriais por definição, disputavam terras e poder na península; de outro, os turcos que invadiam seus territórios, dominavam cidades e abriam caminho para anexá-los ao já enorme Império Otomano. Lawrence entra justamente nesse momento, em que os ingleses não queriam lutar contra os turcos, pois já combatiam na Europa, mas não desejavam o poder deles em uma região tão estratégica; e em que os árabes precisavam lutar contra um inimigo comum, e para isso precisavam colocar de lado seus interesses próprios e richas históricas.
Lawrence da Arábia ganha identidade árabe, agindo como conciliador e estrategista inglês para combater os turcos, graças à sua crença na revolta árabe e profundo conhecimento geográfico da região. Independente de sua controversa postura (que o filme não deixa claro, apenas sugere que tem dúvidas, inseguranças, que questiona sua missão em alguns momentos), é um fator determinante na reconquista da península pelas tribos nativas e sua direta negociação, daquele momento em diante, com os interesses ingleses e ocidentais.
Mesmo se você preferir não entrar nos detalhes dessas questões políticas e dos interesses particulares do Ocidente, fato é que Lawrence da Arábia é um clássico impressionante de cenas de batalhas entre tribos, viagens pelo deserto de fotografia impar. E mais: em se tratando de lutas tribais, de vingança e richas entre líderes, torna filmes como O Príncipe do Deserto algo novelesco e nada mais. Eu já tinha avisado – são propostas diferentes, não tem nem como comparar. Cada um no seu devido lugar.
DIREÇÃO e ROTEIRO: Jane Campion
ELENCO: Holly Hunter, Harvey Keitel, Sam Neill, Ana Paquin, Kerry Walker
Austrália, Nova Zelândia, 1993 (121 min)
Quando o filme tem um roteiro envolvente e amarrado e me fisga de uma maneira especial, deixando-me absolutamente absorvida pela história, confesso que muitas vezes me sinto no mais absoluto silêncio. Interno também. É como se o enredo, a realidade da tela me subtraísse da realidade, dos meus pensamentos e sentimentos. Entro no filme, por assim dizer. E quando isso acontece, a música também é absorvida, mas de uma maneira diferente. É como se eu a percebesse como conjunto, fazendo parte da imagem, da encenação, do cenário. Quando o todo é harmônico, a trilha ganha outras dimensões, fazendo com que muitas vezes eu me esqueça (ou não consiga) senti-la isoladamente.
Falha minha, eu sei. Principalmente em filmes como O Piano, em que a música compõe a trama e o drama vivido por Ada (Holy Hunter) e sua filha Flora (Anna Paquin, também em O Casamento do Meu Ex), ambas vencedoras do Oscar de melhor atriz e atriz coadjuvante respectivamente, e o filme levou também o de melhor roteiro. Elas se mudam da Escócia para a Austrália em meados do século 19, pois Ada está de casamento marcado com um rico fazendeiro. Muda, capaz de se comunicar através de gestos e com a ajuda de sua filha, ela se apaixona pela pessoa errada. Sempre com o piano como intermediário das cenas e dramas, compondo um panorama intenso e emocionante.
Sentir a música dessa maneira é bom e ruim ao mesmo tempo. Bom porque mostra que o filme forma um conjunto equilibrado, capaz de emocionar e tocar o espectador profundamente. Ruim porque a trilha linda e bem cuidada não é apreciada isoladamente, mas sim como composição do conjunto – acabou o filme e fiquei com vontade de ouvi-la de novo. Se quiser rever O Piano, pode tentar fazer o exercício de prestar especial atenção à trilha. Não em detrimento de todo o resto, que é belíssimo. Mas com o olhar – e ouvidos – de quem aprecia uma obra que fala por si só.
ROTEIRO: James L. Brooks, Larry McMurty
ELENCO: Shirley MacLaine, Debra Winger, Jack Nicholson, Danny DeVito, Jeff Daniels, John Lithgow
Estados Unidos, 1983 (123 min)
“Você não é especial o suficiente para suportar um casamento fracassado.” Com esse conselho, Aurora (Shirley MacLaine) aconselha a filha Emma (Debra Winger, também em O Casamento de Rachel) a não se casar. Na véspera da cerimônia. Dessa relação visceral, intensa e muito sincera entre mãe e filha, Laços de Ternura, que levou o Oscar de melhor filme, atriz, roteiro, diretor e ator, conta uma bonita história sobre as relações familiares, as dificuldades e alegrias do casamento, a amizade, o valor da vida.
Lembro de o filme ter feito o maior sucesso na época. Mais uma vez, cheguei nele por causa de Jack Nicholson, que assim como em Alguém Tem que Ceder, Um Estranho no Ninho, Antes de Partir, ele faz o papel de um solteirão inveterado e convicto (fica de fato muito bem no papel), mas que tem coração bom, afinal de contas. Par de Shirley MacLaine, ambos levam a premiação da Academia e acho que vale a pena sim rever. Vale dizer que o diretor James L. Brooks errou feio com seu último filme Como Você Sabe - nem percam tempo. Mas Laços de Ternura é sim singelo, simples, sobre as relações. Difíceis, nas diversas etapas da vida, mas que compensam o investimento no final.
ROTEIRO: Lawrence Hauben, Bo Goldman
ELENCO: Jack Nicholson, Louise Fletcher, Michael Berryman, Danny DeVito
Estados Unidos, 1975 (133 min)
Muitos são os filmes que retratam a maneira como os doentes mentais são, ou eram, tratados em manicômios, hospícios, sanatórios, hospitais psiquiátricos – ou como queria chamar esses centros que pretendem tratar pessoas que sofrem de algum distúrbio psiquiátrico. Para citar dois incríveis: Ilha do Medo, de Martin Scorsese, e Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bodanzky, que já estão no blog. A eles adiciono Um Estranho no Ninho, com Jack Nicholson (também em O Iluminado, Antes de Partir) no papel principal. Curioso notar que a maioria desses filmes trazem a dura realidade da incompreensão da alma humana, perturbada e sem o correto tratamento.
Vencedor do Oscar de melhor ator, atriz, diretor, roteiro, filme, portanto das cinco principais categorias, Um Estranho no Ninho teve a produção de Michael Douglas (seu pai, Kirk Douglas, comprou os direitos de adaptar para o cinema o livro homônimo) e direção de Milos Forman, que vai dirigir anos depois Hair e Amadeus. Quem conduz a trama é o anti-herói McMurphy, um sujeito que vive aprontando, é pego estuprando uma garota menor de idade e simula ser louco para não ir para a cadeia. Vai parar no sanatório, onde aparentemente todos os pacientes estão controlados e dentro dos conformes, sob o mando ferrenho da enfermeira-chefe Ratched (Louise Fletcher). Mac tira esse frágil e manipulado equilíbrio, negando-se a tomar os calmantes, alterando regras, perturbando a ordem do local e fazendo cair as máscaras do sistema psiquiátrico. O curioso e muito sensível é que Mac mostra que há manipulação dos dois lados, por parte do sistema e dos pacientes, que acham mais fácil ficar enclausurados do que viver em sociedade, enfrentando problemas, família, etc.
Jack Nicholson está espetacular, escolhido a dedo na sua ironia e petulância em quebrar as regras. Como qualquer ditadura, sobressai-se a lei do mais forte e as vozes são caladas. Literalmente, na figura do índio seu amigo. Melhor calar-se. Numa sutileza incrível no desfecho, o diretor dá mostras claras, mas não sem valorizar o humor e a amizade, da distorção das relações de poder e submissão. Vale a pena ver ou rever. Nem que seja só pelo final.
ROTEIRO: Stanley Kubrick, Stephen King (livro)
ELENCO: Jack Nicholson, Shelley Duvall, Danny Lloyd
Estados Unidos, 1980 (142 min)
Quem gosta de um bom filme de terror e suspense e ainda não passou por O Iluminado, baseado no livro de Stephen King, sempre é tempo. Jack Nicholson no papel do zelador de um hotel isolado no Colorado durante o inverno, completamente enlouquecido, é inesquecível. Tudo ali é a cara da década de 1980 – vestuário, cabelos, locação do hotel. Vale dizer que o banheiro todo vermelho-sangue é algo absolutamente incrível! Sem falar, é claro, de ser possível reviver o medo de ter assistido a este filme na década de 80, ou seja, com a certeza de que tudo aquilo estava realmente acontecendo.
Jack Nicholson é o memorável e completamente transtornado Jack Torrance, um escritor frustrado, que se candidata a ser o zelador de um hotel nas montanhas do Colorado. Fechado para os hóspedes, Jack tem que cuidar do hotel durante os meses de inverno, só na companhia de sua esposa Wendy e seu filho Danny. Com sua sensibilidade, Danny mostra aos pais que não estão sozinhos e o assassinato ocorrido no passado no mesmo hotel faz a história se repetir. Veja, reveja. É um daqueles inesquecíveis, ao lado de Seven – Os Sete Crimes Capitais, Psicose, O Silêncio dos Inocentes e Os Outros - só para citar alguns bons para rever.
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