DIREÇÃO: Manoel de Oliveira
ROTEIRO: Manoel de Oliveira, baseado no conto de Eça de Queiroz
ELENCO: Ricardo Trêpa, Cataina Wallenstein, Diogo Dória, Leonor Silveira, Júlia Buisel, Filipe Vargas, Miguel Seabra
Manoel de Oliveira tem, nada mais, nada menos que 102 anos. Além da longevidade em si e da disposição de continuar criando, o diretor mostrou que tem uma aguçada capacidade de adaptar o contemporâneo ao antigo, de retratar os costumes do final do século 19 em uma linguagem visual atual, de falar dos costumes e relacionamentos de outros tempos sem parecer piegas ou antiquado. Mostrou que tem uma cabeça moderna, afinal de contas!
Isso porque sua adaptação do conto de Eça de Queiroz é curiosa e bem humorada. Eu não conhecia a história, muito menos esperava por esse final. Enquanto Macário (Ricardo Trêpa) conta sua história a uma moça durante uma viagem de trem e justifica sua tristeza, em flashback conhecemos o que realmente aconteceu. Trabalhando em Lisboa na loja do tio, Macário se apaixona por Luísa, a ’rapariga loura’ que aparece na janela em frente. Ou melhor, apaixona-se por sua imagem. Sem conhecê-la, pede sua mão em casamento e resolve trabalhar para guardar dinheiro e se casar. Singular, a rapariga…
Interessante a construção de época, do vestuário ao mobiliário, da linguagem aos costumes. Mas mais interessante que isso é a introdução de alguns detalhes do mundo atual numa realidade de 130 anos atrás. Macário usa computador, viaja em trens modernos, ao mesmo tempo em que precisa pedir ao tio autorização para casar e é expulso de casa por não obedecer. Mas nada disso parece fora do seu lugar, tamanha a sutileza. E para quem está familiarizado com Portugal, o panorama do Rocio e as tomadas da cidade são um convite à vida lisboeta.
Aproveitando Saramago e o documentário sobre sua relação com sua esposa, a espanhola Pilar Del Río, vou falar do que já deveria ter falado, na ocasião da sua morte em junho deste ano. Aproveitando o belo documentário José e Pilar e a cena em que os dois acompanham o diretor Fernando Meirelles na exibição da sua adaptação do romance Ensaio Sobre a Cegueira, quero registrar que não me esqueço da sensação que o livro e o filme produziram em mim. Quem não leu e gosta do estilo do autor português, coloque o livro na sua lista de desejos. Quem se cansa da sua falta de pontuação e outras coisinhas mais, veja o filme. A sensação produzida por ambos foi muito parecida e isso prova a competência e sensibilidade de Meirelles de levar para a tela algo muito difícil de transferir.
Quando li Ensaio Sobre a Cegueira (Blindness, título em inglês), imediatamente me lembrei do personagem de Machado de Assis, Simão Bacamarte. Em O Alienista, o médico Bacamarte resolve internar as pessoas da cidade que sofrem algum distúrbio de loucura. Acaba internando quase toda a população, até perceber que o louco mesmo era ele. Na história de Saramago, a loucura é substituída pela cegueira. Contagiante, ela acaba contaminando toda a população e a única que consegue enxergar e ver a falta de visão dos outros, a falta de dignidade, de humanidade e decência do ser humano num mundo como no nosso é a personagem de Julianne Moore no filme (também em Minhas Mães e Meu Pai). A prisão de todos para evitar uma epidemia não impede que a cegueira moral e ética se alastrem, assim como os pacientes de Bacamarte, todos loucos e desequilibrados.
A aflição que tanto o filme quanto o livro geram é inesquecível, ainda mais quando projetam
os todas as barbaridades da humanidade nas proporções de uma epidemia. Saramago quis mesmo dizer que o homem não merece o mundo que tem. E Meirelles conseguiu transmitir isso. As imagens feitas em São Paulo são incríveis, de uma cidade que poderia ser qualquer outra no mundo. São imagens sem nome ou local, simplesmente como é a atitude gananciosa e egoísta das pessoas. As duas obras são fortes e marcantes. Saí do cinema como se tivesse levado um soco no estômago, como se aquilo pudesse nos fazer enxergar o que realmente somos, por o que realmente lutamos. E não restou um pingo de dignidade.
CRÉDITOS DO FILME:
DIREÇÃO: Fernando Meirelles
ROTEIRO: José Saramago (livro) e Don McKellar
ELENCO: Julianne Moore, Mark Ruffalo, Gael García Bernal
DIREÇÃO: Miguel Gonçalves Mendes
ELENCO: José Saramago, Pilar del Río, Gael García Bernal
Espanha, Portugal, Brasil, 2010 (125 min)
José não seria Saramago se não fosse Pilar. Pelo menos foi com essa sensação que saí do cinema, após assistir ao documentário José e Pilar. Revelador e sensivelmente editado, o filme retrata três anos da vida do casal de maneira natural e espontânea, referendando a parceria como o próprio Saramago a define: “eu tenho ideias para os romances; ela, para a vida”. Prêmio Nobel de Literatura, era contestador, ateu e comunista. Mas não melancólico, nem sisudo. Daquela figura triste e desiludida que eu tinha em mente, sobrou pouca coisa. Foi substituída por um sujeito espirituoso, consciente, realista e principalmente apaixonado pela vida e por Pilar.
Jornalista e tradutora espanhola com quem se casou aos 66 anos, Pilar foi seu alicerce na coordenação da carreira, na maratona internacional das entrevistas e compromissos, no estímulo da escrita, no direcionamento da vida. Conforme ele mesmo disse, tudo veio tarde, inclusive a literatura. Os livros que construíram Saramago internacionalmente foram escritos depois dos 60 anos, com um estilo específico, às vezes difícil e incompreendido – também na forma, já que não utilizava a pontuação comum. O filme mostra a casa do casal na ilha espanhola de Lanzarote, passa por seu dia a dia, pela biblioteca, pela formação da Fundação José Saramago, pelos momentos difíceis da doença, da exaustão das viagens e compromissos, pelo humor inteligente e simples durante as entrevistas e conversas com amigos. As trocas com Pilar são reveladoras e emocionantes, assim como a cena em que assistem à adaptação de seu livro Ensaio sobre a Cegueira por Fernando Meirelles (também em O Jardineiro Fiel).
A edição de José e Pilar é leve e criteriosa. Mostra um Saramago humano e humorado, tendo como pano de fundo o momento da sua vida em que escreve o curioso livro A Viagem do Elefante. Reverenciado no mundo todo, Saramago morreu em junho de 2010 e deixa um importante e inteligente legado sobre sua percepção do mundo e da humanidade. Nem sempre fácil ou afável, mas que merece uma reflexão. Vale a pena ver o trailer abaixo.
ROTEIRO: Carlos Saboga, Camilo Castelo Branco (livro)
ELENCO: Léa Seydoux, Clotilde Hesme, José Afonso Pimentel, Maria João Bastos, Ricardo Pereira, Adriano Luz
Portugual, França, 2010 (266 min)
Mistérios de Lisboa e também da França, Itália, Brasil. A Europa do século 19 é retratada neste folhetim do escritor Camilo Castelo Branco, publicado em 1854 e adaptado pelo diretor Raúl Ruiz para o cinema. Na Europa, será também exibido na televisão como as minisséries que costumamos ver por aqui – um formato interessante para produções como esta, que tem quase 4 horas e meia de duração. É impecável, o figurino e reconstrução de época são lindos e a história inclui tudo aquilo que você puder imaginar: romance, traição, ganância, poder, compaixão, assassinato, mistério, vingança.
O fio condutor é a história de Pedro da Silva, um menino criado pelo padre Dinis em um colégio interno de Lisboa, contada em flashback. Não conhece mãe nem pai e é a curiosidade por saber suas raízes que puxa o fio do novelo, mais do que embaralhado, da história. A partir daí, os personagens se entrelaçam, as coincidências acontecem e a história vai passando pelos acontecimentos históricos da época, pelo enriquecimento dos piratas portugueses em alto mar, pela Queda da Bastilha na França, pelas peripécias de D. João VI, de Napoleão e por aí vai. Um grande filme!
ROTEIRO: Gonçalo Galvão Teles e Suzanne Nagle
ELENCO: João Tempera, María Adánez, Marco Delgado, Isabel Abreu, Margarida Carpinteiro, Lia Gama
Quando vi Dot.com nas prateleiras da locadora, o que me chamou a atenção foi o fato de ser um filme português. Confesso que ter a co-produção da Videofilmes, de Walter Salles, já é um filtro importante e fiquei curiosa para assistir. Afinal, este é o primeiro filme de Portugal no Cine Garimpo.
Também achei curioso o tema do filme. O pequeno vilarejo de Águas Altas mantém contato com o resto do país através do seu site. De repente aparece uma multinacional espanhola exigindo que a aldeia feche o site, já que Águas Altas é o nome de um de seus produtos. Juridicamente, a empresa é dona da marca e ameaça cobrar uma multa altíssima da aldeia se ele continuar no ar. Na dúvida de que partido tomar, os habitantes da aldeia se dividem e tentam entrar em consenso.
Dot.com tem uma fotografia bonita e um retrato simpático da vida do vilarejo. Mas o interessante é o tema em si. Estive no ano passado em Portugal e nas conversas com gente local percebi o quanto eles realmente se sentem uma província espanhola. Cheguei até a ouvir o termo “filial espanhola na Europa”. Imagino que isso não seja uma postura generalizada, mas é curioso como esse ressentimento histórico é tratado no filme. Defender o site e não entregá-lo de mão beijada para a Espanha passa a ser uma questão de honra. Não acho que o filme tenha um tom irônico propriamente dito, mas confesso que “ironia” foi a primeira coisa que me veio à mente.
“Todos têm terror do silêncio e da solidão e vivem a bombardear-se de telefonemas, mensagens escritas, mails e contactos no Facebook e nas redes sociais da Net, onde se oferecem como amigos a quem nunca viram na vida. Em vez do silêncio, falam sem cessar; em vez de se encontrarem, contactam-se, para não perder tempo; em vez de se descobrirem, expõem-se logo por inteiro (…). E por isso é que vivem essa vida estranha: porque, muito embora julguem poder ter o mundo aos pés, não aguentam nem um dia de solidão. Eis porque já não há ninguém para atravessar o deserto.”
No teu deserto, de Miguel Sousa Tavares (Editora Companhia das Letras, 128 páginas) não foi tão falado quanto Equador e Rio das Flores, do mesmo autor. Mas é muito interessante. Lembrei dele por causa do deserto de O Paciente Inglês, dessa paisagem mágica e inóspita do filme, um mar de areia. E também por causa do romance – que no livro, ele chama de ”quase romance”.
O enredo gira em torno de uma história de amor que deveria ter acontecido, mas que não se realizou. Veterano no deserto, o protagonista português desta vez é acompanhado na travessia do Saara por Cláudia, uma moça que conhece praticamente na partida da viagem. Já no começo do livro ele conta que, anos depois dessa viagem, Cláudia morre – por isso escreve, para recordar a história que viveram juntos. O texto é simples, quase uma conversa que deveriam ter tido, mas que não tiveram.
Mas o que eu gosto no livro é a metáfora do deserto. É o fato de o autor falar do silêncio, da importância do “não falar” para que se possa ter o que falar; da necessidade de conhecer o deserto, a solidão e a reflexão para poder se conhecer melhor. Gosto do que ele diz das relações do mundo atual (trecho acima). Isso me fez parar para pensar no valor que os momentos de silêncio têm na vida.
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