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Romênia

INSTINTO MATERNO – Child’s Pose
CLASSIFICAÇÃO: Romênia, Para Pensar, Garimpo na Locadora, Drama - 19/03/2014

Um homem rico atropela um garoto pobre e não presta socorro. Ele morre, o homem vai parar na delegacia, encurralado pelas evidências de culpa no cartório, até que chega sua mãe. Munida de argumentos, usa a mais poderosa influência possível para livrá-lo da cadeia: a prepotência do tom e do olhar, como quem pergunta ao interlocutor “você sabe com quem está falando?”.

Circo armado, os problemas veem à tona. Cornelia é superprotetora e sufocante, já enfrenta uma relação ultra desgastada com o filho adulto e não entende a sua rejeição, que chega no limite quando rechaça a manipulação da mãe no caso do atropelamento. Rica, erudita e esnobe, parte integrante da elite romena pós-comunista que se julga acima das leis, Cornelia domina o filme, a empregada, o marido, o filho e a até então indomável nova. Manupila, melhor dizendo, numa forma de amor doentio e às avessas. Fico me perguntando sempre por que temos tanto medo de frustrar os filhos, de deixá-los arcar com as consequências de seus atos, mesmo sabendo que isso é necessário e benéfico para que sejam adultos responsáveis. Essa mãe demonstra uma prepotência sem tamanho. O que o diretor Calin Peter Netzer constrói é uma linha de tensão permanente, num embate crescente da razão desmesurada, que gera controle, mas acaba ressaltando as fragilidades mais profundas.

Não há como não transpor a realidade (e tudo parece sim, muito real) da sociedade da Bucareste atual com a nossa. O poder corrupto, o tráfico de influências e favorecimentos, a troca de favores. Temos essa sensação permanente nas estruturas brasileiras. A Cornelia de Instinto Materno, vencedor do Urso de Ouro em Berlim, representa essa mentalidade que consome cultura erudita e circula na alta sociedade, mas não conhece a lei para todos, não se iguala diante dela. É superior e cruel, esconde-se na sua armadura autossuficiente, sem dar vazão aos sentimentos. Até que não há mais por onde escapar. Porque essa educação às avessas estraga, poda a autonomia, a capacidade fazer escolhas, de lidar com suas consequências e de levar uma vida independente. Porque nem Cornelia é de ferro e eu não resisti, como mãe, a tanta emoção junta.

 

DIREÇÃO: Calin Peter Netzer ROTEIRO: Razvan Radulescu ELENCO: Luminita Gheorghiu, Bogdan Dumitrache, Natasa Raab | 2013 (112 min)

 

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ALÉM DAS MONTANHAS – Beyond the Hills (Mostra de Cinema SP)
CLASSIFICAÇÃO: Romênia, Para Pensar, Drama - 24/10/2012

A princípio tem-se a impressão de que o convento ortodoxo nas montanhas romenas pertence a outros tempos. Recluso e rígido, pode muito bem estar localizado no passado, quando era comum meninas serem entregues aos cuidados de ordens religiosas. Até que aparece um celular e me dou conta de que estamos falando sim de isolamento físico e moral nos dias de hoje. Com esse contraste do dinâmico e do estático, do contemporâneo e do arcaico em plena Europa do século 21, a crítica torna-se ainda mais contundente.

Diretor também de Contos da Era Dourada, que trata dos anos anteriores à  queda do comunismo com sarcasmo, ironia e humor inteligente, Christian Mungiu escolhe, aqui, deixar o humor definitivamente para outro projeto. Além das Montanhas, concorrente romeno ao prêmio de melhor filme estrangeiro em 2013, tem tudo, menos humor. É monótono no seu ritmo (poderíamos tranquilamente ter recebido a mesma mensagem com 30 minutos a menos de filme), que está carregado de significado na lentidão das mudanças – ou ausência delas – na manipulação dos gestos e pensamentos, no isolamento, na existência do demônio. Com uma fotografia linda, forte, fria e cheia de metáforas, o filme é uma crítica severa ao culto levado ao extremismo, à inconsequência, à falta de razão, ou, no mínimo, de bom senso, na interpretação das escrituras religiosas e a sua tradução em comportamento humano. Lembra um pouco O Monge, com Vincent Cassel, na dimensão que ganha o pecado.
Alina trabalha na Alemanha e volta para a Romênia para rever a amiga Voichita, que vive enclausurada em um monastério ortodoxo nas montanhas. Órfãs, as duas eram íntimas quando viviam no orfanato, deixando claro, inclusive, que mantinham uma relação amorosa naquela época. Enquanto Voichita enrtrega-se cegamente a Deus, Alina contesta esse amor, a existência do ser supremo, a legitimidade da convivência cega e rigorosa da rotina do monastério e declara todo o seu amor à amiga. Conflito entre fé e razão, sentimento e discurso vem à tona pela postura incontrolada e obstinada de Alina, deixando no ar uma sensação de desconforto, incompreensão e impaciência com a trama que se arrasta. E se arrasta como as cenas geladas do inverno romeno, como a fala mansa de Voichita, como a falta de perspectiva de uma solução pacífica e conciliadora.

Vencedoras da Palma de Ouro de melhores atrizes em Cannes, Cosmina Stratan e Cristina Flutur dão o tom dramático ao filme, que também rendeu a Mungiu o prêmio de melhor diretor no mesmo festival. Embora seja uma crítica direta à igreja ortodoxa do Leste Europeu, mais especificamente da Romênia, podemos pensar em todas as comunidades religiosas que tem seu rebanho fechado em uma redoma de pensamento e credo, sempre obediente. Obediência pura e simples. Um perigo.

 

DIREÇÃO: Christian Mungiu ROTEIRO: Christian Mungiu, Tatiana Nicukescu Bran ELENCO: Cosmina Stratan, Cristina Flutur, Valeriu Andriuta, Dana Tapalaga | 2012 (155 min)

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TREM DA VIDA – Train de Vie
CLASSIFICAÇÃO: Romênia, Para Entender o Nosso Mundo, Comédia - 28/04/2012

DIREÇÃO: Radu Mihaileanu

ROTEIRO: Radu Mihaileanu, Moni Ovadia

ELENCO: Lionel Abelanski, Rufus, Clément Harari, Michel Muller, Agathe de la Fontaine, Johan Leysen, Bruno Abraham-Kremer, Marie-José Nat

Romênia, 1998 (103 min)

O alemão é uma língua rígida, concisa e triste. O iídiche é uma paródia do alemão, mas tem humor a mais. Para perder o sotaque iídiche é preciso retirar o humor. Só isso.”

Fazia tempo que queria conferir Trem da Vida, filme do diretor romeno Radu Mihaileanu. Desde que assisti aos ótimos A Fonte das Mulheres e O Concerto, notei que há algo em comum nos filmes que instiga a curiosidade sobre o olhar do diretor perante a vida. O humor, talvez, mas sobretudo possibilidade de rir de si próprio sem infantilizar ou ridicularizar. Uma sutileza que afasta gentil, porém firmemente, o pessimismo e o mau humor e aplaude a incrível capacidade de agradecer o dom da vida. Mihaileanu mistura situações da vida com outras improváveis, eu diria até fantasiosas, sem fazer realismo fantástico, mas numa dose boa para não parecer ridículo. Faz praticamente de um limão, uma limonada, da tragédia, uma parábola. É bem essa sensação que dá. E positiva.

Em Trem da Vida, o diretor fala do Holocausto, sem ser dramático ou catastrófico. Consegue transmitir a mensagem da dimensão do absurdo e da barbárie, através de um viés interessante da tragédia vivida pelos judeus durante a Segunda Guerra. Monta uma paródia do caos. Tudo começa em vilarejo na Europa ocidental, quando os habitantes dessa comunidade judaica recebem a notícia de que os nazistas vão deportá-los para um campo de concentração. Quem dá a notícia é o louco da comunidade, que também apresenta a solução – um tanto quando inusitada. Já que seria impossível furar o bloqueio dos alemães, por que não se passar por eles? Seria preciso só falar alemão sem sotaque, encontrar um comandante nazista, soldados, um maquinistas, prisioneiros e um trem para chegar em Israel a salvo.

Esquema montado, personagens escolhidos, a farsa começa e todos os habitantes do vilarejo embarcam no trem. É no trajeto que são contadas as histórias do povo judeu, em que são encenadas as tradições, em que aparecem outras minorias pelo caminho, também perseguidas, como os ciganos, em que grupos opostos se formam, em que é celebrada a vida em meio ao caos. Mihaileanu usa e abusa da cor, do texto afiado, do humor sutil e inteligente para envolver o espectador e quase nos fazer acreditar que isso seria possível. A começar pelo diálogo sobre a diferença entre a língua alemã e o iídiche, língua derivada do alemão medieval, falado por milhões de judeus na Europa na época da guerra. Passar-se por alemão significava falar sem sotaque iídiche. Para tanto, era só tirar o humor, a sutileza, e transformá-los em rigidez. Fantasiados de nazistas, seriam perfeitos alemães. Brilhante!

 

Outros filmes sobre o Holocausto: A Chave de Sarah, Marcha da Vida, A Lista de Schindler, O Menino do Pijama Listrado, O Pianista, O Leitor, Os Falsários, Um Homem Bom

 

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CONTOS DA ERA DOURADA – Amintiri din epoca de aur
CLASSIFICAÇÃO: Romênia, Para se Divertir, Para Entender o Nosso Mundo - 06/04/2011

DIREÇÃO: Ioana Uricaru, Hanno Höffer, Räzvam Márculescu, Constantin Popescu, Cristian Mungiu

ROTEIRO: Cristian Mungiu

ELENCO: Alexandru Potocean, Diana Cavaliotti, Radu Iacoban, Tania Popa, Teo Corban, Emanuel Pirvu, Avram Birau, Paul Dunca, Viorel Comanici, Ion Sapdaru, Virginia Mirea, Gabriel Spahiu, Calin Chirila, Romeo Tudor

Romênia, 2009 (149 min)

Depois da queda do comunismo em 1989 e da morte do ditador Ceausescu na Romênia, surgiu uma safra incrível de cineastas no país. São muitas as qualidades, mas basicamente eu ressaltaria duas: a ironia inteligente e a capacidade de fazer humor com a própria desgraça. Como já acontece em outros filmes conterrâneos como A Leste de Bucareste, Casamento Silencioso, Polícia, Adjetivo e Como Eu Festejei o Fim do Mundo, o cinema é veículo de denúncia de uma situação que já não existe, mas que deixou sequelas profundas na sociedade romena.

Achei que Contos da Era Dourada não tem o tom melancólico e sombrio de Casamento Silencioso, nem de denúncia como em Polícia, Adjetivo. É praticamente uma piada, uma tragicomédia capaz de abordar os pontos fundamentais do comunismo, absolutamente essenciais para a sua permanência por mais de 30 anos. As imagens e simbolismos do filme são muitos – aliás, os diretores fizeram escolhas incríveis. Pensando alto: a manipulação das informações através da montagem de fotografias por parte do Partido; a venda não autorizada de mercadorias para conseguir um dinheiro extra ou suprir a escassez de alimentos (inclusive são situações que beiram o absurdo, com a venda do próprio ar com cheio da indústria química!); o déficit educacional do país; o senso de urgência do Partido para os eventos oficiais, totalmente irreais, dispensáveis e sem qualquer importância ou sentido construtivo (o chapéu mexicano retrata perfeitamente essa ideia, de algo que não sai do lugar, da força da inércia); o cumprimento de regras e protocolos sem qualquer raciocínio lógico; a corrupção.

A “era dourada” do título compreende os 15 anos anteriores à queda do Muro de Berlim e ao efeito dominó no Leste Europeu comunista. Retrata uma situação patética, mas ainda dura e ditatorial. Contar a própria história com humor e sátira é uma boa maneira de mostrar que, apesar dos pesares, há perspectiva de futuro. Com humor, sempre há. Aos diretores romenos, meus sinceros cumprimentos.

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COMO EU FESTEJEI O FIM DO MUNDO – Cum mi-am petrecut sfarsitul lumii
CLASSIFICAÇÃO: Romênia, Para Entender o Nosso Mundo - 07/12/2010

DIREÇÃO e ROTEIRO: Catalin Mitulescu

ELENCO: Doroteea Petre, Timotei Duma, Ionut Becheru, Cristian Vararu, Mircea Diaconu, Jean 

Romênia, França, 2006 (min)

Juntamente com outros filmes também contados a partir do ponto de vista de uma criança como A Culpa é do Fidel, O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias e Machuca, Como Eu Festejei o Fim do Mundo também mostra o mundo sob o prisma de um garoto. Assim como os filmes citados, o que se mostra é a visão infantil a respeito de um momento delicado na história do país em que vivem,  momento esse pertencente somente ao universo adulto. Naturalmente excluídos de qualquer participação ou emissão de opinião, as crianças são observadoras atentas e muito mais sensíveis do que podemos imaginar. 

Aqui estamos falando da Romênia, na época da queda do ditador Caeucescu, em 1989. Ao ver a irmã de 17 anos ser enviada para um colégio mais rígido, seu irmão resolve montar um plano fictício para matar o ditador. Embora não tenha noção do que acontece, o olhar do garoto e as decisões de sua irmã nos mostram uma Romênia pobre, com uma população sem perspectivas, que sonha com o mundo fora do comunismo, mas que tem, ao mesmo tempo, vida comunitária, alegria nas coisas pequenas, vida familiar. Como Eu Festejei o Fim do Mundo é um filme singelo, que dá importância à cumplicidade dos irmãos e das pessoas que formam o povo de um país.

Embora o trailer abaixo não tenha legenda e encontar um interlocutor que fale romeno seja difícil, achei que valia a pena deixar o registro das imagens que mostram um pouco do clima do filme. Ele vai na esteira de boas produções romenas como A Leste de Bucareste, uma comédia muito interssante, e Polícia, Adjetivo, um bom filme, mas bem mais árduo. Toda essa safra retoma os anos debaixo da cortina de ferro – um interessante registro histórico com perspectivas bastantes diferentes.

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POLÍCIA, ADJETIVO – Politist, Adjectif
CLASSIFICAÇÃO: Romênia, Para Pensar - 29/07/2010

DIREÇÃO e ROTEIRO : Corneliu Porumboiu

ELENCO: Dragos Bucur, Vlad Ivanov, George Remes, Ion Stoica, Serban Georgevici, Costi Dita, Irina Saulescu, Cosmin Selesi

Romênia, 2009 (115 min)

O que é consciência? O que é moral? O que significa a palavra polícia? Essa é a grande questão do diretor Corneliu Porumboiu (também de A Leste de Bucareste) através da seguinte história: um policial não quer dar o flagrante em um grupo de jovens que fuma haxixe. Ele alega que a lei romena será alterada em breve e ficará como a da Europa (que não prende ninguém por ser usuário da droga). Não quer ficar com a consciência pesada no futuro por ter prendido alguém injustamente, embora a lei vigente no país diga o contrário e mande prender.

Enquanto esse é o questionamento íntimo do policial, ancorado no que ele entende por “moral”, seu chefe quer provar, pelo dicionário, que seu subordinado não sabe o que diz. A polêmica entra no sentido das palavras, servindo de argumento para o exercício da profissão e para a tomada de decisão. Interessante esse aspecto da linguagem, que aqui tem o mesmo “poder de polícia” e dá significado às ações do protagonista. Entra até na seara doméstica, já que a esposa do policial é professora de romeno e o idioma é tema das conversas cotidianas, como numa interpretação de letra de música. Aqui o idioma é fortemente marcado como algo importante da identidade e cultura nacionais e o toque de humor aparece justamente quando a língua mãe é o pano de fundo das discussões.

Tive a sensação de que Polícia, Adjetivo é praticamente filmado em tempo real. A vigilância do policial é exaustiva também para nós, espectadores, porque é nele que a câmera se fixa durante longos minutos sem novidades; suas refeições são filmadas do começo ao fim; suas passagens pelo escritório são detalhadas, sem que nada especial aconteça. Claro que tudo isso é proposital, numa metáfora à monotonia do cargo, do tédio de quem depende das atitudes do outro para dar o passo seguinte. Ganhou o prêmio de melhor filme do júri na categoria Un Certain Regard, em Cannes este ano. É um olhar realmente diferenciado, do predador que observa a sua presa, com toda paciência que é preciso para o bote.  

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A LESTE DE BUCARESTE – A fost sau n-a fost?
CLASSIFICAÇÃO: Romênia, Para Pensar, Para Entender o Nosso Mundo - 23/06/2010

DIRECÃO E ROTEIRO: Corneliu Porumboiu

ELENCO: Mircea Andreescu, Teodor Corban, Ion Sapdaru

Romênia, 2006 (89 min)

Logo após a queda do Muro de Berlim em novembro de 1989 (relatada no ótimo filme Adeus, Lênin!), o efeito dominó atingiu os países do leste europeu, derrubando definitivamente a cortina de ferro da ex-União Soviética. Na Romênia não foi diferente. Em Bucareste, o ex-ditador Ceausescu é deposto em 22 de dezembro daquele ano – um reflexo do conflito iniciado entre manifestantes e polícia em uma cidade vizinha.

Diante dos acontecimentos que mudaram o mapa da Europa, uma pequena cidade a leste de Bucareste se pergunta, depois de 16 anos, se realmente participou dessa mudança e fez uma revolução. Essa é a sugestão de um apresentador de televisão em seu programa. O filme gira em torno dessa questão e trata, com um humor sutil, tristeza e desilusão, o significado real dessa mudança para o povo e no povo em si.

A dita melancolia é transmitida pelo panorama da tal cidade, sem graça e mal cuidada; por seus habitantes (pelo menos a amostra coletada pelo diretor, vencedor do prêmio de Cannes aos novatos, o Camera D’Or), apáticos, que vivem uma crise existencial e familiar, fazem pinta de trapaceiros, como quem precisa tirar vantagem da situação por pura falta de opção. Na indiferença diante de qualquer mudança positiva que a tal revolução possa ter trazido, um grupo de estudantes chega ao cúmulo de sugerir a revolução francesa como tema de um trabalho – nem a revolução no próprio país exalta os ânimos, nem sequer é lembrada.

Pensando um pouco nos recentes filmes romenos (vejam também Casamento Silencioso), a semelhança entre eles é no mínimo curiosa. Ambos lançam mão da ironia e do humor sutil – que precisam ser percebidos nas entrelinhas – para tratar do grande estrago que o comunismo fez na alma do povo. As cicatrizes são tão visíveis que fiquei com a impressão de serem puros saudosistas – por ser o passado seu mais valioso patrimônio. Impressão de que só as novas gerações serão capazes de viver o presente olhando para o futuro; de que quem viveu a realidade do país fechado, reprimido, estatizado, carente de tudo não sabe valorizar o indivíduo, muito menos a si próprio. É uma crise de identidade e de maturidade, típicos de quem não aprendeu a andar com as próprias pernas. Se replicarmos essa visão aos tantos outros países na mesma situação, tem uma parte da Europa em sérios apuros.

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CASAMENTO SILECIOSO – Nunta Muta
CLASSIFICAÇÃO: Romênia, Para Entender o Nosso Mundo - 15/06/2010

DIREÇÃO: Horatiu Malaele

ROTEIRO: Adrian Lustig, Horatiu Malaele

ELENCO: Meda Andreea Victor, Alexandru Potocean, Valentin Teodosiu, Alexandru Bindea, Ioana Anastasia Anton

Romênia, Luxemburgo, França , 2008 (97 min)

O que era um vilarejo tranquilo antes do final da Segunda Guerra foi destruído pelos comunistas para a construção de uma fábrica; onde era uma fábrica antes da queda do Muro de Berlin e do ditador comunista Ceausescu em 1989 será construído um vilarejo turístico. Assim é a troca de poder, na Romênia e em qualquer lugar. Mudam-se os interesses, a destruição e a construção de uma realidade se sobrepõem com a maior facilidade – questão de conveniência. Coisa que não acontece com tanta desenvoltura assim com as pessoas, que ficam à mercê de toda essa movimentação de egos.

Essa insensibilidade humana é o ponto mais tocante de Casamento Silencioso. A vida de um vilarejo, com tudo que lhe é próprio (homens beberrões, romances tórridos nos campos, figuras caricatas), é eliminada de repente, durante uma festa de casamento; 50 anos depois, quem passa por lá não tem memória, respeito com o passado, com a tradição. Resta a ironia, o interesse pelo resultado. Fica o silêncio que dá conta de calar também ao espectador diante de almas fantasmagóricas, do cenário desolador e dos esqueletos do regime comunista.

Há sensibilidade de sobra na maneira de contar a história e, por isso o estranhamento é inevitável. O diretor Horatiu Malaele contrapõe o sarcasmo dos jornalistas que entram no que restou do vilarejo a procura de uma história sobrenatural, à melancolia, apatia e profunda tristeza das mulheres viúvas que sobraram ali depois daquele casamento em 5 de março de 1953. Vale dizer que coincidentemente morre nesse dia o líder soviético Stálin e, portanto, fica proibida qualquer manifestação festiva, música, dança, casamento ou funeral. O que se segue é uma cena tragicômica que beira o absurdo. Assim como a imposição do poder – mas essa é o absurdo propriamente dito.

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