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Polônia

BODY – Cialo
CLASSIFICAÇÃO: Polônia, Para Pensar, Garimpo na Locadora, Drama - 29/01/2016

Body tem uma particularidade interessante: usa as questões do corpo, da imagem que temos de nosso forma física, de como ela se apresenta para a sociedade, para falar do nosso espírito. Interessante esse prisma. Não dá pra separar as duas coisas, uma adoece a outra, uma cura a outra. Tem uma poesia nessa descoberta – um pouco cruel e irônica, é verdade; uma mensagem de que é preciso cuidar, olhar para o todo, não desistir.

A diretora polonesa Malgorzata Szumowska recebeu o Urso de Prata em Berlim pelo trabalho e tem mesmo muito mérito. Consegue equilibrar o desequilíbrio. Explico: Janusz é um médico legista, cujo ofício é inspecionar corpos mortos brutalmente, esquartejados, enforcados, violentados – portanto, o corpo aqui é matéria. Olga, sua filha, é uma jovem anoréxica e apática, que não se conforma com a morte da mãe, odeia o pai e não demonstra qualquer vontade de reagir física e emocionalmente – portanto, o corpo enquanto vítima. E Anna é uma terapeuta alegre e solícita, que lida com jovens com distúrbio alimentar, tenta conscientizá-las de que o corpo é ferramenta de expressão da mente e da alma, capaz de libertá-las desse autoflagelo que é a anorexia – portanto, corpo como alma e espírito.

Aparentemente sem possibilidade de conexão entre eles – e muito menos de conciliação – Body mostra que há sim uma possibilidade de enxergar além das distorções e interferências externas que a vida nos impõe. A jovem anoréxica pode ver sua imagem de outra forma, seu pai pode enxergá-la com mais cuidado e amorosidade, e Anna é simbologia de que há ferramentas de intermediação que emanam uma luz sobre o problema. Basta deixar iluminar. Lindo filme.

 

DIREÇÃO: Malgorzata Szumowska ROTEIRO: Malgorzata Szumowska e Michal Englert ELENCO: Janusz Gajos, Maja Ostaszewska, Justyna Suwala, Ewa Dalkowska, Ryszard Dolinski | 2015 (90 min)

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IDA – Ida
CLASSIFICAÇÃO: Polônia, Para se Emocionar, Para Pensar, Garimpo na Locadora, Drama - 04/02/2015

Demorou, mas valeu a pena esperar para ver Ida. Indicado ao Globo de Ouro e Oscar de melhor filme, já angariou muitos prêmios mundo afora, inclusive melhor filme na premiação britânica BAFTA. E todo esse holofote é justificado. A começar pelo enredo em si: a noviça Anna vive num convento na Polônia do pós-guerra dos anos 1960. Nas vésperas de fazer seus votos e tornar-se freira, vai visitar uma tia que parece ser a única parente viva. Toda a família morreu na guerra. Para sua surpresa, sua tia Wanda revela um segredo que muda tudo e as duas seguem juntas para saber do paradeiro dos corpos de seus pais. O resto você descobre por conta própria (aliás, cuidado com alguns textos estraga-prazer que estão por aí).

Todo em branco e preto, tem algo que lembra a melancolia e a crueldade de A Fita Branca (Palma de Ouro em Cannes e melhor filme estrangeiro no Globo de Ouro). Em Ida, o sentimento mais presente é o da desesperança. Em relação à vida, ao futuro e ao passado. É como se a vida passasse em branco, nem mesmo as grandes decisões têm emoção ou são recheadas de sentimentos. Simplesmente acontecem. Indiferença. A fotografia contribui para isso – aliás, concorre ao Oscar nessa categoria e é minha escolha. Triste, sombria, sem cor, nevada e gelada, a atmosfera do inverno polonês comunista é devastadora e nada inspiradora. Personagens e cenários combinam. E conversam.

Nebraska, bastante comentado no ano passado, também é melancólico e também é em branco e preto. Sem cor é como se a monotonia reinasse, mas principalmente como se reinasse uma nostalgia de tempos não conhecidos. Aquela tristeza profunda, a ausência de alegria de viver. Ida é um filme simples, de poucas palavras, mas de profundidade que vai incomodar alguns. Se não está disposto enfrentar isso, outras opções não faltam. Mas se eu fosse você, assistiria.

 

DIREÇÃO: Pawel Pawlikowski ROTEIRO: Pawel Pawlikowski, Rebecca Lenkiewicz ELENCO: Agata Kulesza, Agata Trzebuchowska, Dawid Ogrodnik | 2013 (82 min)

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WALESA
CLASSIFICAÇÃO: Polônia, Para Entender o Nosso Mundo, Garimpo na Locadora, Drama, Biografia - 13/06/2014

Walesa é filme que não emite muito juízo de valor – muito embora eu tenho tido a impressão de que Walesa estivesse, o tempo todo, por cima da carne seca. Principalmente  por causa da sua postura mais arrogante e bastante combativa diante da jornalista italiana. Mas, eu realmente acho que isso não tem tanta importância. Assista ao filme para lembrar o que foi a trajetória do funcionário de um estaleiro polonês, que tornou-se líder de uma greve em 1980 e incentivou a manifestação pacífica. O regime comunista colocou seu partido, o Solidariedade (nome bem sugestivo para sua visão de como atuar em sociedade), na ilegalidade, de onde saiu no final da década de 1980 com a queda do Muro de Berlim.

Vale lembrar sim. Quem está na faixa dos 40 viveu esse momento mágico da queda do muro em 1989 e do efeito dominó nos países além da Cortina de Ferro. Em 1990, Lech Walesa se torna presidente e ajuda a mudar a cara do país. Ganha o Nobel da Paz em 1983, quando a Polônia ainda era governada com a rigidez comunista, e por isso não pode ir à Suécia recebê-lo. Talvez o filme pudesse ser ainda mais emocionante, mas serve como ótima referência aos jovens que estudam esta passagem, que mudou o panorama europeu e mundial. Para quem viveu esta época, fico pensando na loucura que era visitar um país comunista fechado em plena Europa. Eram realmente dois mundos e assistir aos alemães destruindo o muro, tijolo a tijolo, foi de uma emoção indescritível.

DIREÇÃO: Andrzej Wajda ROTEIRO: Janusz Glowacki ELENCO: Robert Wieckiewic, Agnieszka Grochowska, Iwona Bielska | 2013 (127 min)

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ELLES
CLASSIFICAÇÃO: Polônia, Para Ver Bem Acompanhado, França, Drama - 20/07/2012

DIREÇÃO: Malgorzata Szumowska

ROTEIRO: Malgorzata Szumowska, Tine Byrckel

ELENCO: Juliette Binoche, Anaïs Demoustier, Joanna Kulig

França, Polônia, 2011 (99 min)

 

Nos cinemas: 20 de julho

Anne (Juliette Binoche) é aquela “mulher-polvo”, que cuida da casa, lava, limpa, cozinha (inclusive par o chefe do marido), cuida dos filhos (um adolescente indolente e um menino menor, que não desgruda do videogame) e ainda trabalha! É jornalista da revista Elle e está se dedicando a uma matéria sobre estudantes prostitutas. A partir da vivência e das entrevista com as garotas, Anne passa a questionar sua satisfação no casamento e no sexo. Intimista, o filme é Juliettte Binoche do começo ao fim, não dá para separar uma coisa da outra (também em A Insustentável Leveza do Ser, a trilogia A Liberdade é Azul, A Igualdade é Branca, A Fraternidade é Vermelha, O Paciente Inglês, Paris, Horas de Verão, Cópia Fiel). Portanto, é preciso gostar do seu trabalho. Eu particularmente gosto, sinto nela uma entrega ao personagem – e aqui isso é fundamental para que o filme tenha realmente algo a dizer. Mas repito, é intimista demais, no tema relacionamento com ela mesma, com seu corpo, seu marido, sua sexualidade e até no paradoxo era feminista versus tarefas que a mulher-polvo precisa dar conta.

Uma das garotas que Anne entrevista e serve como personagem para sua matéria é Charlotte (Anaïs Demoustier), uma jovem parisiense de classe média e família estruturada, que trabalha no comércio para camuflar o dinheiro que ganha na prostituição e não levantar suspeita perante os pais e o namorado. Personagem bastante real, bem construída. A outra é Alicja (Joanna Kulig), uma imigrante polonesa que quer esbanjar o dinheiro que ganha, sem medo ou culpa. Essa já é mais caricata, algo mais esperado e até preconceituoso por ser imigrante. São as suas histórias que vão mexer com o sentimento de Anne, fazendo com que ela mergulhe – inundada pela música clássica – no seu íntimo para se dar conta do que está realmente acontecendo na sua vida.

O curioso do filme – e o que eu acho que deve ser dito – é que as garotas não só contam o que vivem, o que fazem com os clientes, mas também envolvem Anne em um momento que ela está fragilizada, que a vida está perdida na rotina e que o prazer parece ter ficado para último plano. Os fetiches e as cenas de sexo – e violência sexual – são explícitos, não só para nós espectadores, mas para Anne, que passa a questionar a fidelidade do marido (as garotas atendem principalmente homens casados, bem sucedidos, que estão cheios da monotonia do casamento) e o seu papel como mulher.
Da diretor polonesa Malgorzata Szumowska, Elles pode ser interssante para mulheres, como diz o nome. Um homem não faria um filme desses, é feminino demais – assim como uma mulher não dirigiria Shame da maneira como fez o diretor Steve McQueen com as questões da masculinidade (guardadas as devidas proporções, porque Shame é muito superior em qualidade e intensidade). É o retrato de uma mulher insatisfeita, em vários aspectos da vida e que precisa se encaixar novamente naquele contexto. Isso incomoda, talvez por ser tão comum. Mulheres-polvo que se cuidem!

 

 

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