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Irã

O APARTAMENTO – The Salesman
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Para Entender o Nosso Mundo, Irã, Garimpo na Locadora, Drama - 21/02/2017

O cinema iraniano não dá ponto sem nó. Justificar o conflito do filme em um prédio que corre o risco de desabar é como dizer que os alicerces da sociedade iraniana, da cultura censurada estão abalados. Asghar Farhadi faz filmes de gente comum, em que as situações estão no limite, em que é preciso resolver conflitos. Procurando Elly, por exemplo, vai além da moça que desaparece; é pano de fundo para discutir a condição da mulher muçulmana, a influência do ocidente, a relação homem-mulher no Irã, que se repente em O Passado, em A Separação. De novo, não tem ponto sem nó. Filmes densos, bem localizados na sociedade rígida e machista, mas que se aplicam, sim, aos contextos dos relacionamentos humanos em qualquer canto do mundo.

O Apartamento não foge à regra.  Entra mais a fundo na questão da honra masculina, numa sociedade em que a mulher é, explicitamente, propriedade do marido. Rana e Emad são atores, vão morar em um apartamento de um colega de trabalho e, enquanto se adaptam, Rana é violentada por um homem que invade sua casa. Louco de raiva – mas sem demonstrar afeto, nem acolhimento – o marido passa o investigar a identidade do agressor, em busca de vingança. Clima tenso: enquanto o marido escolhe o caminho da honra ferida, a mulher escolhe o perdão. Um Farhadi constrói um abismo entre o casal que, até então, parecia ter, na profissão e no teatro, a sinergia necessária para romper as barreiras da sociedade. Cenas marcantes, de um casal que se abandonou para mergulhar nas suas dúvidas e na sua solidão individual.

Aliás, o que fica é um abismo mesmo. Dá a impressão de que tudo será engolido pela distância que se cria ao construir um muro separando o afeto da tradição religiosa, o amor da expectativa da sociedade, o sentimento da honra. Metáfora das relações humanas, essa coisa do desabamento do prédio. Basta um abalo e vai tudo pro chão.

 

DIREÇÃO e ROTEIRO: Asghar Farhadi ELENCO: Taraneh Alidoosti, Shahab Hosseini, Babak KarimI | 2016 (125 min)

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O PASSADO – Le Passé
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Irã, Garimpo na Locadora, Drama - 09/05/2014

O Passado não é um filme de grandes bilheterias, muito embora mereça cada centavo do seu ingresso. É filme de pessoas comuns, que passam por problemas de relacionamento. Que tomam decisões equivocadas e transformam a vida de quem está por perto. Por isso ganha destaque e oferece algo para sairmos da zona de conforto. O cinema iraniano tem esse viés forte, marcante e provocador do comportamento humano. Portanto, prepare-se para um filme sobre resoluções de conflitos.

Nem tudo é tão distante assim. Olhando o cartaz, há caras conhecidas. Bérénice Bejo ganhou o Oscar pelo lindo filme mudo O Artista; Tahar Rahim é um expoente do cinema francês, sempre com personagens árabes muito fortes. Recentemente atuou em Grand Central, mas é mais conhecido por seu papel em O Profeta. E o diretor Asghar Farhadi é o mesmo do ótimo Procurando Elly e de A Separação, que foi superpremiado mundo afora, com o a profunda questão do drama do divórcio em uma família iraniana, com todas as questões relacionadas à religião e ao papel da mulher na sociedade muçulmana.

O Passado pode não ser tão arrebatador como A Separação – talvez por não ter a presença forte da questão religiosa – mas nem por isso perturba menos. Marie é francesa, quer oficializar o divórcio com o ex-marido Ahmad, que vai de Teerã a Paris para assinar os papéis. Depois de quatro anos sem se ver, Ahmad sente a tensão permanente no ar e sua interferência é inevitável, principalmente com a jovem Lucie, sua ex-enteada. O que se segue é um processo de busca profunda pela razão de tanta dor, desentendimento e falta de comunicação. Atual, pertinente e bem representado na tela esse tema tão universal. Não tem nenhum super-herói, mas tem gente como a gente.

 

DIREÇÃO ROTEIRO: Asghar Farhadi ELENCO: Bérénice Bejo, Tahar Rahim, Ali Mosaffa | 2014 (131 min)

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11 DE SETEMBRO – 11’09”01
CLASSIFICAÇÃO: México, Japão, Irã, Inglaterra, França, Estados Unidos, Egito - 02/06/2012

DIREÇÃO: Samira Makhmalbaf, Claude Lelouch, Youssef Chahine, Danis Tanovic, Idrissa Ouedraogo, Ken Loach, Alejandro González Iñárritu, Amos Gitai, Mira Nair, Sean Penn, Shohei Imamura

Estados Unidos, França, Inglaterra, Japão, México, Irã, 2002 (134 min)

Um mesmo tema, sob diferentes perspectivas. Assim como na série de filmes sobre cidades do mundo, chamado Cities of Love (que já tem Paris, Eu Te Amo e New York, Eu Te Amo e ainda promete Rio, Jerusalém e Xangai), diretores de diversas partes do mundo foram convidados a fazer um curta sobre um assunto: o atentado terrorista às Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001. Cada um teria 11 minutos e 9 segundos para imprimir sua emoção sobre o assunto e o que se vê são 11 filmes diferentes, com linguagens, culturas, pontos de vista e emoção distintos. Gosto desse tipo de trabalho, ainda mais num tema tão perturbador como a intolerância religiosa, a violência a qualquer custo, a luta pelo poder transformada na sua forma mais perturbada de expressão que é o terrorismo.

Assim como a torre de babel que é Nova York – e eram as torres que desabaram no coração de Manhattan – 11 de Setembro introduz cada um dos curtas localizando no mapa mundi a nacionalidade do diretor. Globaliza o fato, suas consequências, sua dimensão. Do Irã, Samira Makhmalbaf (também de Às Cinco da Tarde, Green Days) mostra lindamente uma professora tentando mostrar a crianças afegãs refugiadas no Irã a dimensão do atentado para o mundo; da França, Claude Lelouch (também de Um Homem, Uma Mulher, Esses Amores) mostra o silêncio e isolamento do mundo da uma surda-muda em contraste com o caos do atentado; do Egito, Youssef Chahine conta como um diretor de cinema sente compaixão pelas vítimas de qualquer forma de violência (não me tocou muito, é verdade). Da Bósnia-Herzegovina, Danis Tanovic remete à Guerra da Bósnia, ao massacre de Srebrenica, também intolerância religiosa; de Burkina Faso, Idrissa Oudraogo mostra garotos deste paupérrimo país africano tentando prender Bin Laden, quase uma aventura; da Inglaterra, Ken Loach (também de À Procura de Eric) faz um paralelo com o 11 de setembro de 73, quando Allende é deposto no Chile, através de um chileno refugiado em Londres – muito interessante.

Do México, Alejandro Gonzalez Iñarritu (também de Biutiful, Babel, 21 Gramas, Amores Brutos) causa estranheza com a ausência de imagens, cenas de pessoas se jogando das torres – para chocar e fazer refletir, como de costume; de Israel, Amos Gitai (também de Aproximação, Free Zone, O Dia do Perdão), mostra o atentado a bomba em Jerusalém, que aconteceu ao mesmo tempo do que o ataque às Torres Gêmeas – confusão de sentimentos, nacionalidades, morteos, tragédias humanas entrelaçadas; da Índia, Mira Nair enfatiza o sentimento contra os muçulmanos em todo o mundo depois atentado; Sean Penn (também de Na Natureza Selvagem) dirige um curta poético, sobre a sombra do WTC nos prédios vizinhos; e do Japão, o filme menos envolvente e mais abstrato, Shohei Imamura não faz referência ao atentado em si, mas às guerras santas – ou ausência delas.

Como disse, gosto desse tipo de trabalho que propõe uma exposição sem restrições e sem censura, algo realmente autoral.

 

 

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A SEPARAÇÃO – A Separation
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Irã, Garimpo na Locadora, Drama - 19/01/2012

A primeira cena aparentemente expõe o drama do filme: um casal discute seu divórcio diante do juiz. Simin (Leila Hatami) consegue às duras penas um visto para sair do país e quer que o marido Nader (Peyman Moadi) dê permissão para que a filha única do casal, Termeh (Sarina Farhadi), viaje com ela. Além de Nader se negar a acompanhá-la por causa do pai doente, não dá autorização para que a filha viaje. Aparentemente, a questão da separação está colocada para o espectador, sendo que de cara são expostas situações delicadíssimas da cultura islâmica machista, controladora, autoritária e um tanto quanto irracional.

Mas é só aparentemente, como eu disse. Assim como em seu ótimo filme anterior Procurando Elly, o diretor Asghar Farhadi escreve um roteiro primoroso – A Separação já levou o Urso de Ouro no Festival de Berlim, além de prêmios para os atores, e o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro. O que parece ser um drama unicamente familiar, de um casamento já falido como tantos outros que precisam lidar com as questões que vêm com a separação, ganha corpo a cada momento em que o diretor apresenta um fato novo. Ele amplia a questão do relacionamento do casal de classe média (ela é médica, ele bancário) e até da questão islâmica em si, para algo muito maior, mais universal e comum a qualquer sociedade. E o faz de forma inteligente, deixando sempre uma ponta de suspense, de surpresa, de revelações que vão mudar o curso da história.

Tudo acontece quando Asghar Farhadi introduz um elemento novo na trama. Simin vai morar na casa da mãe, a filha fica com o marido, que tem que contratar uma pessoa para cuidar do seu pai enquanto ele trabalha. Entra em cena Razieh (Sareh Bayat), uma moça casada, religiosa, grávida, que precisa ajudar o marido desempregado. A presença de Razieh é que amplia a discussão. Pela religião, não poderia fazer esse trabalho (ficar sozinha com outro homem que não seu marido). Por isso mente, inventa, enrola-se na própria história, de modo que eu já não sabia quem falava a verdade. É aqui que entra esse viés mais amplo da relatividade da verdade e da mentira, dependendo do ponto de vista de quem conta e vive a história. Interessantíssimo o mosaico de revelações que o diretor traça, sempre mantendo a separação como pano de fundo, a presença da filha entre a briga dos pais e a questão jurídica, mas revelando principalmente profundas discussões sobre ética, honra, livre arbítrio.

Se tivesse parado na questão pura e simples da separação de um casal esclarecido e bem formado na sociedade iraniana de hoje, cerceada e censurada pelo autoritário Mahmoud Ahmadinejad, já seria um filme e tanto. Já formaria com outros iranianos o perfil dessa sociedade sufocada, como mostrado em Isto Não é um Filme, de Jafar Panahi. Mas Farhadi extrapola as diferenças culturais, sociais e econômicas e expõe a alma humana na sua fragilidade mais íntima, como faz em Procurando Elly. Mas aqui é mais intenso – e até mais perturbador.

 

DIREÇÃO e ROTEIRO: Asghar Farhadi ELENCO: Peyman Moaadi, Leila Hatami, Sareh Bayat | 2011 (123 min)

 

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ÀS CINCO DA TARDE – At Five in the Afternoon
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, Irã, Drama, Afeganistão - 27/12/2011

DIREÇÃO: Samira Makhmalbaf

ROTEIRO: Mohsen Makhmalbaf, Samira Makhmalbaf

ELENCO: Agheleh Rezaie, Abdolgani Yousefrazi, Razi Mohebi

Irã, Afeganistão, 2003 (105 min)

A jovem cineasta Samira Makhmalbaf só tem 31 anos e já faturou duas vezes o Prêmio Especial do Júri em Cannes. A primeira vez foi com apenas 20 anos, com o filme The Black Board (2000); a segunda com Às Cinco da Tarde, quando tinha 23. Aprendeu em casa, com o pai Mohsen Makhmalbaf, também cineasta, responsável pelo fantástico A Caminho de Kandahar, e com a irmã, diretora do filme Green Days. Família de artistas com olhar apuradíssimo. Ainda bem, porque é  através deles que temos a oportunidade de conhecer um pouco dessa cultura complexa e milenar, da situação social e política do Irã e da condição da mulher nos países muçulmanos.

Por causa da perseguições aos cineastas no Irã (ver comentário sobre Isto Não É um Filme), a família Makhmalbaf vive fora do país, inclusive no vizinho Afeganistão. Isso fez com que esta década de profundas mudanças no país fosse tema importante analisado em seus filmes, sempre trazendo à tona o ponto de vista feminino, a sensibilidade da maternidade e a agonia da falta de perspectiva. Noqreh (Agheleh Rezaie) quer ser presidente do Afeganistão. Inspira-se em mulheres que lideraram o poder no mundo, principalmente a paquistanesa Benazir Bhutto e a indiana Indira Gandhi, e quer desesperadamente saber o que esses dirigentes dizem ao povo para serem eleitos. Mas é claro que no Afeganistão tudo é diferente. Mesmo porque seu pai, um senhor conservador e autoritário, não quer que ela volte a estudar. Agora que o país já não está sob o comando do Taleban, as mulheres voltaram aos bancos da escola, onde discutem a situação política do país, suas ambições profissionais e pessoais e tentam achar um caminho para a sociedade esfacelada pela guerra e sofrida pelas perdas e mutilações.

Mas não há de ser a sua vontade a que prevalece – o pai a obriga a cobrir-se, estudar os ensinamentos do Alcorão, a jurar obediência e vê blasfêmia em tudo. Num país em que falta moradia, comida, água, a questão maior é a sobrevivência. Comandada pelo pai, segue com a cunhada pelo deserto, buscando um gole de água e um teto, lutando para salvar a vida do sobrinho e para entender como é possível viver num país totalmente destruído, material e emocionalmente.

Às Cinco da Tarde tem um tom desolador. Um provação do começo ao fim, com um olhar feminino sensível e apurado para as humilhações, como o uso da burca que esconde o rosto, a identidade e individualidade, assim como para as vaidades femininas, como o sapato branco de salto em meio ao deserto. Mostra uma sociedade sem rumo, perdida em seus conceitos autoritários, egoístas e machistas, perdida na aridez e na precariedade que o deserto já traz por si só, e que o homem tratou de piorar ainda mais.

 



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ISTO NÃO É UM FILME – This is Not a Film
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, Irã - 25/11/2011

Nos cinemas: 2 de dezembro

 

DIREÇÃO: Jafar Panahi, Mojtabe MirtahmasB

ROTEIRO: Jafar Panahi

Irã, 2010 (71 min)

No Festival de Cannes deste ano, quando a atriz Juliette Binoche dava entrevista coletiva para falar do filme Cópia Fiel, do diretor iraniano Abbas Kiarostami, ela caiu em prantos. Emocionou-se ao fazer um apelo internacional pela libertação dos cineastas iranianos perseguidos, mais especificamente por Jafar Panahi. Em 2010, ele foi condenado a 6 anos de prisão domiciliar, proibido de escrever roteiros, dirigir filmes por 20 anos, falar com a mídia e sair do Irã. Acusado de cometer crimes contra a segurança nacional e contra a República Islâmica, é condenado a não trabalhar, não denunciar, não atrapalhar o status quo do ditador Mahmoud Ahmadinejad.

Isto Não é um Filme é de fato uma denúncia. Trata justamente desse tema, um momento anterior ao veredito propriamente dito. Sem poder trabalhar e em prisão domiciliar enquanto aguardava a decisão final da apelação de sentença, Jafar decidiu produzir este filme escondido. Ou seja, filma ele mesmo, com suas dúvidas, inconformismos, falta de paciência, dentro da sua própria casa. Faz uma reflexão sobre a liberdade de expressão e a capacidade da arte de romper as barreiras da intolerância e da censura, enquanto espera o veredito. Para executá-lo, chama o amigo também cineasta Mojtaba Mirtahmasb e com ele divide este momento de intimidade e denúncia que percorre o mundo.

Este documentário foi enviado ao Festival de Cannes gravado em um pen drive, dentro de um bolo, onde foi exibido pela primeira vez. Depois disso, foi mostrado em importantes festivais do mundo todo, dando força ao protesto internacional contra esse tipo de repressão. Enquanto Jafar Panahi está preso, outros diretores também sofrem com a ditadura islâmica, como Mohsen Makhmalbaf (de A Caminho de Kandahar), que vive no exílio com a família e Mojtaba Mirtahmasb (co-diretor deste documentário), que teve seu passaporte confiscado. Isto Não é um Filme é um relato político, assim como é o critério da prisão e censura. Puramente político. Tem ritmo lento, reflexivo, documental, como deve ser a vida de alguém preso dentro da própria casa e da própria capacidade criativa. Muito instigante, faz parar para pensar.



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A CAMINHO DE KANDAHAR – Safar e Ghandehar
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, Irã - 19/11/2011

DIREÇÃO e ROTEIRO: Mohsen Makhmalbaf

ELENCO: Nelofer Pazira, Hassan Tantai, Ike Ogut, Sadou Teymouri

Irã, França 2001 (85 min)

“O amor é capaz de atravessar a escuridão da burca?”

Nafas, afegã que vive no Canadá

Assim como vários diretores iranianos, Mohsen Makhmalbaf, pai da também cineasta Hana Makhmalbaf, diretora de Green Days, vive fora do Irã. O regime do ditador Mahmoud Ahmadinejad adota descaradamente o caminho da censura, repressão, violência e prisão para tirar de cena pessoas, artistas e profissionais que tenham algo a dizer contra ele. Ou que simplesmente tenham algo a dizer.

Apesar disso – e por causa disso – a produção cinematográfica vai de vento em popa, sempre mostrando a cultura do Irã e dos países vizinhos como o Afeganistão. Em A Caminho de Kandahar, o diretor escancara todas as mazelas implantadas pelo regime opressor do Taliban neste país, assim como os rastros de destruição humanitária deixados por governo corrupto, extremista, teocrático, islâmico e machista. O filme mostra a crueldade das cicatrizes em cenas impressionantes, através da narrativa da viagem da jornalista Nafas (Nelofer Pazira), que precisa chegar à Kandahar para encontrar a irmã e impedir que ela se mate. Depois da separação ainda pequenas, quando fugiam do país para se fixar no Canadá, não se encontraram mais. Na ocasião, Nafas e a família deixaram a irmã para trás após ela ser gravemente ferida nas pernas em um dos campos minados afegãos. Nafas recebe uma carta da irmã dizendo que não consegue mais viver e que vai se suicidar após o último eclipse do século 21. Ela então começa a viagem até Kandahar pelos desertos inóspitos e desumanos, tentando se infiltrar numa das tantas caravanas de refugiados afegãos que retornam ao país pela fronteira com o Irã.

O caminho de Nafas é cruel em todos os sentidos, mas tem uma pitada de esperança na figura do “médico” que encontra pelo caminho. Ainda há quem se preocupe em simplesmente cuidar dos outros. Na maior parte dos casos, o trajeto é coberto de malandros e oportunistas; gente desconfiada e desconfiança; gente mutilada física e emocionalmente; gente faminta e miserável; mulheres cobertas e infelizes; sem rosto e sem identidade.

As cenas são de uma beleza incrível – e de uma crueldade atroz. Homens mutilados apelam no acampamento da Cruz Vermelha por um par de pernas, por uma mão, por algo que os faça dormir, ou parar de chorar; homens mutilados correm desesperadamente em busca da esperança que se resume no par de pernas lançados de paraquedas pelos helicópteros da Cruz Vermelha nesse território inclemente; mulheres de burca cruzam o deserto sem rosto, sem vontades, sem vida – coloridas sim (o visual que o diretor produz a partir daí é de arrepiar), mas com alma sem cor, sem brilho, sem nome, embora ainda vaidosa. São apenas algumas das cenas, mas garanto que vale o todo, o contexto, o aprendizado que chega sobre a intolerância, sobre o que ela é capaz de fazer com um povo e com a relação entre as pessoas. Como dizem os personagens, a esperança para quem tem fome é o pão; para quem tem sede, a água; para quem vive coberta, ser vista. Disse tudo. Imagine ver o mundo através dos pequenos buracos de uma burca. Conseguiu? Eu não fui capaz.

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GREEN DAYS – Ruzhaye Sabz
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, Irã - 07/11/2011

DIREÇÃO: Hana Makhmalbaf

Irã, 2009 (73 min)

Prender cineasta no Irã se tornou lugar comum. O argumento não é diferente daquele usado por outras ditaduras ferrenhas ao redor do mundo: é proibido expressar-se. Fazer cinema tornou-se ato que coloca em xeque o poder do presidente Mahmoud Ahmadinejad, de modo que tirar o produtor, diretor ou qualquer outro que questione e conteste o status quo passou a ser a medida mais eficaz. Mas, apesar de tudo isso, continua-se fazendo cinema no Irã. Felizmente para nós. É através dele que temos informações interessantíssimas sobre a maneira de pensar e agir dessa sociedade.

Se contarmos com a família Makhmalbaf para entender o que se passa no Irã, estamos feitos. Filha do renomado diretor Mohsen Makhmalbaf (também em A Caminho de Kandahar) e irmã da também cineasta Samira Makhmalbaf, Hana Makhmalbaf fez seu primeiro curta aos 8 anos, com 14 estreou em Veneza e aos 19 ganhava prêmio no Festival de Berlim. Produziu Green Days num misto de documentário e ficção rico em detalhes, informações e sobretudo sensações. Através de Ava, uma garota deprimida e totalmente desiludida com a realidade política e social iraniana, Hana conta como foi viver aquele momento político de 2009, quando o candidato da oposição Houssein Mousavi venceu incontestavelmente nas urnas, mas foi derrotado por Mahmoud Ahmadinejad, que manipulou o resultado. Ava percorre as ruas entrevistando as pessoas no momento das eleições, ao mesmo tempo em que intercala suas andanças com sessões de terapia, produção de uma peça de teatro que acaba sendo censurada e o trabalho braçal recomendado pelo psicólogo para apaziguar suas aflições.

É muito interessante, a construção de Green Days, principalmente na mescla que a diretora faz de ficção e realidade. As imagens dos protestos são impressionantes, assim como as da repressão policial. Claro que Hana e sua família vivem fora do Irã – condição essencial para manifestar-se, fazer o mundo conhecer a realidade do país e pressionar a opinião pública e instituições internacionais para que posicionem contra o regime de Ahmadinejad e a favor da libertação de quem quer dizer o que pensa. Básico.

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PROCURANDO ELLY – Darbareye Elly
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Irã - 08/09/2010

Quando se fala em filmes iranianos, logo pensamos em produções lentas, paisagens árduas e diálogos raros. Procurando Elly foge da regra e é por essa e por outras que vale a pena conferir. Importante dizer que a atriz Golshifteh Farahani (que faz Sepideh) foi pressionada pelo governo a não fazer este filme, que ele foi proibido no Irã e que depois disso a bela atriz (que também filmou com Ridley Scott) teve de pedir exílio na França. Só por isso já é interessante saber o que Procurando Elly revela de tão ameaçador ao status quo. É o poder pela censura e pela falta de liberdade de expressão, em tempos de Mahmoud Ahmadinejad.

O filme vai muito além da procura por Elly contada de antemão pelo título. Elly de fato desaparece em um fim de semana entre amigos. Ela é convidada por Sepideh, mãe de uma de suas alunas, a passar o fim de semana na praia. Por ser solteira, Sepideh quer apresentá-la a um amigo recém-chegado da Alemanha, que acaba de se separar. Antes do sumiço, tudo parece transcorrer normalmente. Depois do desaparecimento de Elly, o frenesi está armado, as mentiras são reveladas e é a chance do diretor Asghar Farhadi (vencedor do Urso de Prata de Melhor Direção no Festival de Berlim 2009) de trazer à tona as questões mais pertinentes que engessam a rígida sociedade iraniana.

A partir da situação de conflito, são colocadas em xeque questões polêmicas para nós ocidentais, como a posição da mulher na sociedade muçulmana, o uso permanente do véu e principalmente a questão da honra. Tudo pontuado com muita sensibilidade. Não que os sinais do mundo ocidental não existam. Pelo contrário: os carros, os celulares, a mala Louis Vuitton estão presentes e são marcantes – prova de que não há como tapar o sol com a peneira. Mas há situações interessantes como a representação de Deus no jogo de mímica, o perigo da mentira que leva à mentira, a adjetivação da esposa ideal – simpática, saudável, gentil. Se Elly aparece? Pouco importa, isso é só o pano de fundo de uma discussão muito mais profunda.

 

DIREÇÃO: Asghar Farhadi ROTEIRO: Asghar Farhadi e Azad Jafarian ELENCO: Golshifteh Farahani, Shahab Hosseini, Taraneh Alidoosti, Merila Zare’i, Mani Haghighi, Peyman Moaadi, Ra’na Azadivar, Ahmad Mehranfar, Saber Abbar | 2009 (119 min)

 

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