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Hungria

WHITE GOD
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Para Pensar, Hungria, Garimpo na Locadora, Drama - 03/03/2016

Por Suzana Vidigal

White God é daqueles filmes que produzem um misto de emoções. Ao mesmo tempo a gente sente pena, da menina que fica sem seu cachorro e único companheiro; compaixão, pelo cachorro que sofre; ódio, daqueles que o fazem sofrer; raiva, de um pai insensível; esperança, da menina Lili que nunca desiste. Forte e denso, tem uma ternura que destrói todo o universo da dureza humana e simplesmente acolhe. Não é à toa que levou o prêmio na categoria que eu mais gosto em Cannes: Un Certain Regard. Tem mesmo, um certo olhar, específico, sensível, metafórico e, ao mesmo tempo, muito real, da natureza humana.

E canina – por que não? Como deve ter sido difícil filmar a primeira cena do filme, em que Lili anda de bicicleta nas ruas desertas de Budapeste, seguida por uma verdadeira matilha de cães! Só dá pra entender no final e, se eu fosse você, não leria muito sobre o filme antes de assistir. Saber que Lili fica com o pai enquanto a mãe vai viajar, que eles não tem intimidade, que o pai se nega a ficar com seu cachorro e acaba soltando-o na rua, já é de bom tamanho. O que acontece depois, enquanto Lili tenta seguir com a vida, mas não consegue parar de pensar em Hagen (o cachorro que venceu a Palm Dog em Cannes) e resolve fazer de tudo para recuperá-lo, deve ser surpresa. Claro, para que o final seja sublime.

O diretor húngaro constrói uma metáfora sim, falando da questão da tolerância com as minorias, com as raças não puras, com os imigrantes. É e sempre foi uma questão na Europa e é interessante que ele faça isso com a relação entre seres humanos e cães. Mas, mais do que a metáfora em si, o que deixa de mensagem é a força que tem a escolha e determinação pelo caminho do afeto e da tolerância. Para se emocionar, com toda a certeza.

 

DIREÇÃO: Kornél Mundruczó ROTEIRO: Kornél Mundruczó, Viktória Petrányi ELENCO: Zsófia Psotta, Sándor Zsótér, Lili Horváth | 2014 (121 min)

 

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FILHO DE SAUL
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Para Pensar, Para Entender o Nosso Mundo, Hungria, Garimpo na Locadora, Drama - 03/02/2016

Assisti na Mostra Internacional de São Paulo do ano passado e sai arrasada. Quando parece que a gente já viu o suficiente sobre o Holocausto, vem um olhar diferente e ainda mais atordoante. Mas é imperdível, exatamente por isso: coloca você num lugar incômodo, de dor e sofrimento inimagináveis.

Lendo isso até parece que não vale o ingresso. Vale sim! Sair do lugar de conforto com essa qualidade de reflexão é um privilégio. O foco é fechado em Saul, um prisioneiro judeu, num lugar claustrofóbico, escuro, cercado de morte. Ele está preso em Auschwitz e faz parte do grupo escalado pelos nazistas para “receber” os judeus nas câmaras de gás, separar seus pertences e “limpar” o ambiente depois que só sobraram corpos no chão. Cruel assim. Esse grupo de prisioneiros era chamado Sonderkommando e ficava isolado no campo de concentração, numa tensão absoluta e completa.

O filme tem cheiro de morte. O olhar de Saul para as pessoas que chegam e ainda acham que vão tomar banho, seus gestos de sutil gentileza com essas vítimas, seu desespero ao perceber que um dos garotos sobrevive ao gás e sua incessante busca pela dignidade final são de causar mal estar. Filho de Saul tem esse dom: deixar claro que a vida é o mais precioso, mesmo em uma situação como aquela; que procurar um rabino e fazer um enterro decente ainda faz algum sentido.

Húngaro, Filho de Saul ganhou vários prêmios em Cannes, foi o melhor filme no Globo de Ouro e concorre ao Oscar. O ator Géza Röhrig faz sua estreia em longas com este filme. É tão forte que fica difícil acreditar que o cara é novato.

DIREÇÃO e ROTEIRO: László Nemes ELENCO: Géza Röhrig, Levente Molnár, Urs Rechn, Sándor Zsótér e Christian Harting | 2015 (107 min)

 

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ATRÁS DA PORTA – The Door
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Hungria, Drama - 27/02/2013

atrás da portaDIREÇÃO e ROTEIRO: István Szabó

ELENCO: Helen Mirren, Martina Gedeck, Károly Eperjes

Hungria, Alemanha, 2012 (97 min)

 

Quem não se lembra da célebre relação entre patroa e empregada em O Primo Basílio, do romance do português Eça de Queirós? Enquanto Luisa mantém um caso extraconjugal com Basílio, a empregada Juliana faz chantagens tremendas e torna a vida da até então ingênua Luisa um inferno. Ao assistir a Atrás da Porta, lembrei-me logo dessa relação doentia de dependência apesar dos maus tratos. Ou será vice e versa?

É preciso dizer que quem torna essa relação extremamente marcante e aflitiva é Helen Mirren, que faz o papel da amarga Emerenc, uma senhora que trabalha como governanta na Budapeste de dos anos 1960, que ainda tenta se reerguer dos horrores da Segunda Guerra. Quando a escritora Magda (Martina Gedeck, também em A Vida dos Outros, O Grupo Baader Meinhof) a contrata para trabalhar na sua casa, a relação entre as duas evolui para uma dependência estranha, cheia de rancor e mágoa por parte de Emerenc, e de curiosidade e dependência por parte de Magda. Uma amizade às avessas, numa interpretação espetacular das duas.

O que há atrás da porta de Emerenc que ninguém pode ver? Há uma áurea de mistério nesse ponto, que vai se desvendar e explicar parte da sua amargura e da sua dificuldade de lidar com as pessoas e com a doação de afeto. Atrás da Porta é um drama essencialmente humano, também interessante do ponto de vista da construção da época e da capital húngara com suas ruas arborizadas e sua vizinhança parecida com uma cidade de interior. Helen Mirren já tinha dado amostras de sua genialidade em A Rainha. Com Atrás da Porta não fica sombra de dúvida.

 

 

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INDIE FESTIVAL 2011 – O CAVALO DE TURIM – A Torinói Ló
CLASSIFICAÇÃO: Hungria, Brasil - 16/09/2011

Começa hoje o Indie Festival 2011, o 11º festival internacional de cinema independente – e vai até dia 29 de setembro. Este ano homenageia com retrospectivas os cineastas Claire Denis, de Minha Terra, África (França) e Bela Tarr, de O Cavalo de Turim (Hungria), que abriu o festival.

Fui conferir a este que parece ser o último filme do diretor Bela Tarr. Difícil demais. É preciso ir assistir sabendo bem o perfil do filme – senão você vai sair depois da primeira meia hora. Isso porque, depois de meia hora, já se percebe que a intenção do diretor é mostrar a rotina, a dificuldade de convívio consigo próprio e com o outro, a inclemência da natureza, do vento, da escassez de alimentos e de água, o clima implacável através da vida de um senhor e uma moça, em uma cabana localizadas num território montanhoso e gelado.

O narrador começa contando a história de Friedrich Nietzsche, sem qualquer imagem. Conta que em janeiro de 1889, ele sai de casa e presencia a cena de um cavalo sendo espancado pelo dono, por não sair do lugar. Interrompe a surra, abraça o cavalo e chora. Volta pra casa, fica em silêncio durante dois dias, diz algumas palavras e enlouquece de vez. Vive mais dez anos assim, alheio e louco. E o tal do cavalo? O narrador diz que não se tem notícias dele. Mas em seguida entram as imagens em preto e branco de um senhor puxando um cavalo. Ele entra em casa, uma moça ajuda-o a guardar o animal, a trocar sua roupa e prepara as batatas para comer. As cenas são longuíssimas, com uma trilha dura e grave por trás, ou simplesmsente silêncio e o barulho ensurdecedor do vento. E assim segue, com falas curtas, somente o necessário, raríssimas.

Vencedor do prêmio da crítica no Festival de Berlim, tenho que confessar que não é filme para qualquer um, nem para qualquer hora. Particularmente, não era para o dia de ontem, quando fui assistir na abertura do Indie Festival. Algumas pessoas foram embora, e fiquei tentada em fazer o mesmo. É extremamente monótono, extremamente exigente com o espectador. Tem uma beleza muito particular pela força das imagens preto e branco, justamente transmitindo essa dificuldade extrema de sobrevivência física e mental, de manutenção da sanidade, principalmente, diante de situações tão adversas. O folósofo Nietzsche enlouqueceu no fim da vida e também manteve-se em silêncio até a morte. Se esse é um retrato ou uma metáfora de como terminaram seus dias, quando teve que ficar aos cuidados da mãe e da irmã, não sei. Mas se você não for preparado, é capaz de perder a paciência – tive a mesma sensação quando assisti ao vencedor da Palma de Ouro em Cannes, o tailandês Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas – que realmente não curti.

Vale lembrar que O Cavalo de Turim é um filme longo – são 146 minutos! Isso agrava ainda mais a situação do espectador desavisado! Se foi esse o objetivo do diretor, fazer a gente se sentir como se estivéssemos morando naquela cabana, naquela situação insustentável, conseguiu. Metáfora às avessas dos tempos atuais, em que somos imediatistas? Bem pensado, pode ser. Mesmo porque, conseguiu esgotar a minha paciência. E olha que gosto de filmes contemplativos…

Indie Festival/SP – Cinesesc, Cine Olido – Entrada gratuita – veja programação completa no link do site do festival.

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