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Cuba

NUMA ESCOLA DE HAVANA – Conducta
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Para Pensar, Garimpo na Locadora, Drama, Cuba - 03/09/2015

O que é que tem mais voz ativa dentro de uma escola: as regras, processos e normas ou o afeto e a solidariedade? O que conta mais: seguir o protocolo, mesmo percebendo que ele prejudica o aluno, as relações entre as pessoas envolvidas no processo educacional, e não resolve o problema,  ou pensar fora da caixa, abraçar a causa e criar uma oportunidade de revisão dos conceitos pré-estabelecidos? Em que lugar a flexibilidade se encontra com a rigidez, quando o objeto de decisão é a vida de uma criança? Faz sentido existir esse lugar, ou o pensamento deveria eliminar os extremos e seguir o caminho do meio?

Juro que não sei e essas são só algumas das perguntas que me vieram à mente quando assisti a Numa Escola de Havana. Em espanhol, o título original é Conducta. Superpertinente. O termo está ligada não só ao comportamento propriamente dito, mas à atitude que uma pessoa é capaz de ter diante de uma situação de conflito. E daí, para quem gosta de brincar com palavras, fiz o exercício de elencar várias delas relacionadas: comprometimento, ética, determinação, liderança, ousadia, valores. E o assunto daria muito pano pra manga, muita reflexão sobre educação, miopia social, preconceito, fraternidade.

Basicamente, como o título brasileiro diz, o cenário é uma escola em Havana, em quem os professores têm que lidar com uma série de adversidades: imigrantes ilegais sem documentação, alunos que faltam demais, famílias desestruturadas, falta de verba e tudo mais que também temos por aqui. Quem brilha no meio de tanta dificuldade é a professora Carmela (Aline Rodriguez), que acredita no seu papel como educadora, na sua capacidade não só de ensinar, mas de transformar e transmitir afeto. Do outro lado está seu querido aluno Chala, de 11 anos, que tem que lidar com a falta de dinheiro e com a mãe drogada, com o trabalho violento para ajudar a pagar as contas, com a ausência da figura paterna, mas que ainda encontra alegria para apaixonar-se. Entre Carmela e Chala há um abismo, assim como há um abismo entre as autoridades e a sociedade.

Numa Escola de Havana remete ao francês Entre os Muros da Escola: fala da sala de aula como microcosmos, mas é muito mais amplo, muito mais abrangente e muito mais profundo. Depois de escrever, confesso que aumentou ainda mais minha lista de perguntas e indagações. Conducta, superpremiado mundo afora, é uma ferramenta valiosa para qualquer um: pais, adolescentes, educadores, autoridades. Afinal, está todo mundo no mesmo barco.

 

DIREÇÃO e ROTEIRO: Ernesto Daranas ELENCO: Silvia Aguila, Alina Rodríguez, Armando Valdés Freire | 2014 (108 min)

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7 DIAS EM HAVANA – 7 Días en La Habana
CLASSIFICAÇÃO: Para se Divertir, Para Entender o Nosso Mundo, França, Espanha, Cuba - 02/11/2012

DIREÇÃO: Pablo Trapero, Laurent Cantet, Benicio Del Toro, Julio Medem, Elia Suleiman, Juan Carlos Tabío, Gaspar Noé

ELENCO: Josh Hutcherson, Daniel Brürl, Emir Kusturica, Elia Suleiman, Melissa Rivera

Cuba, França, Espanha, 2012 (129 min)

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Sete dias em Havana, sete histórias, sete diretores com olhares diferentes. Já disse que gosto muito de filmes assim. Um mesmo objeto, visões distintas. É o caso do projeto Cities of Love (Paris, Eu Te Amo, New York, Eu Te Amo – que terá também Rio, Jerusalém e Xangai), 11 de Setembro, Cada Um Com Seu Cinema. 7 Dias em Havana tem um toque diferente, que me agradou bastante. Cada diretor teve carta branca para brincar com esse objeto tão rico que são Cuba, cubanos, migração, situação econômica, cultura, música. Mas alguns personagens são em comum, o que faz um elo entre esses olhares e dá uma unicidade bonita ao filme.

Claro que também, num caso destes, fica fácil eleger o episódio mais ou menos agradável, já que cada diretor tem uma maneira de ver a realidade cubana. Gosto da visão do argentino Pablo Trapero (Abutres, Leonera, Familia Rodante), que faz um lindo e divertido episódio sobre música, solidão, celebridade às avessas; já o cubano Juan Carlos Tabío ressalta a dificuldade de sobrevivência dos cubanos diante de todas as restrições da ilha, através de um casal que precisa fazer doces para reforçar o orçamento. O espanhol Julio Medem vem a história de Cecília, que canta e tem oportunidade de fazer carreira fora do país (lembra a animação Chico e Rita); e o ator e diretor Benicio del Toro conta uma divertida história sobre diferenças culturais entre americanos e cubanos. São episódios que valem a pena você se deixar levar pelo clima da ilha.

Recentemente um decreto do governo mudou as regras para emissão de vistos para cubanos que pretendem sair da ilha. Tudo teoria. Na prática a proibição absurda continua e nada muda. 7 Dias em Havana dá uma pincelada ora divertida, ora irônica sobre a realidade na ilha, e é uma maneira de entrarmos um pouco nesse universo tão particular.

 

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LIVRO – DE CUBA, COM CARINHO – De Cuba, con Cariño
CLASSIFICAÇÃO: Dicas Afins, Cuba - 16/11/2009

 

de cuba com carinho

“Batizei meu novo espaço de exorcismo Generación Y, um blog inspirado em gente como eu, cujo nome começa por um ‘ípsilon’. Pessoas nascidas na Cuba dos anos 1970 e 1980, marcadas pelas escolas rurais, pelos bonequinhos russos, pelas saídas ilegais e pela frustração. Pois naquelas décadas tão controladas, ao menos uma parcela de liberdade ficou sem supervisão: o simples fato de dar nome aos filhos. Daí que nossos pais – padronizados até o excesso, todos vestindo o mesmo modelo de calça ou de blusa que o racionamento lhes concedia – se esbaldavam colocando esses nomezinhos exóticos.” – Yoani Sánchez

 

Extraído do livro De Cuba, Com Carinho (Editora Contexto, 208 páginas), o trecho acima explica não só o nome do blog de uma das 100 pessoas mais influentes do planeta, segundo a Time, como também joga luz sobre as trevas em que vivem os cubanos. Yoani Sánchez é cubana, blogueira e personalidade mundial – nessa ordem. É fruto da geração que cresceu sob o sistema implantado por Che (juventude retratada em Diários de Motocicleta) e Fidel Castro em 1959, mantido até hoje a ferro e fogo.

Intencionando justamente revelar aquilo que não se menciona por medo ou comodismo, Yoani Sánchez fez uma compilação de alguns de seus melhores textos do blog e publicou um livro. Não pôde sair de Cuba para lançá-lo – assim como não pôde ir a lugar algum para receber os inúmeros prêmios a que tem direito. Mas usa a internet para contar ao mundo que passam fome, que não têm educação nem saúde decentes, que lhes falta tudo, ainda mais depois da derrocada da União Soviética, a começar pela liberdade de ir e vir.

Em 6 de novembro, por ocasião das manifestações pelo aniversário da queda do Muro de Berlim, Yaoni foi espancada e ameaçada de morte por aqueles que vigiam seus passos dia e noite. Estampou, no Generación Y, o desenho abaixo com os dizeres: “Não me bata, sou só uma blogueira”. Atitudes como essa mostram como anda a intolerância e a ditadura dos irmãos Castro e seu efeito avassalador na economia da ilha, nas pessoas e em suas perspectivas de futuro.

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O livro tem uma linguagem simples, cotidiana – reflexo mesmo de alguém que busca compartilhar opiniões e mostrar a necessidade de mudança. Não deixe de acessar também o blog Generación Y, que já pode ser lido em diversas línguas, inclusive português. 

www.desdecuba.com/generaciony/

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