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Bélgica

A GAROTA DESCONHECIDA
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, França, Em cartaz, Drama, Bélgica - 24/02/2017

Demorei pra digerir o último filme dos irmãos Dardenne. Fui com muita sede ao pote – sou fã desse cinema realista, nu e cru, social e político, humano no retrato mais seco que se pode ter das facetas humanas. É assim em A Criança; suaviza e emite uma réstia de otimismo na raça humana em O Garoto da Bicicleta, volta pro viés individualista e cruel da sociedade mercantilista em Dois Dias, Uma Noite; e vai ladeira abaixo naquilo que o ser humano ainda tem de esperança nele mesmo em A Garota Desconhecida.

No meu breve comentário no post sobre o filme no Instagram (@cinegarimpo), logo depois que saí da cabine de imprensa, digo que faltou realismo, aquele retrato da realidade que tanto me emociona nos seus filmes. Algo não me caiu bem – como se a falta de verossimilhança tivesse me incomodado demais. Depois que li a crítica do jornalista Luiz Zanin no Estadão, entendi o que eu realmente havia sentido. Jean-Pierre e Luc Dardenne preferem a fábula à realidade como a conhecemos. Constroem um personagem quase fictício: uma médica jovem, altruísta na essência, um dia não recebe uma paciente em seu consultório porque o horário de atendimento já havia encerrado. Ao descobrir que aquela mulher morreu logo depois, sente-se responsável e não sossega, genuinamente, até reparar o dano.

Não que as pessoas não possam ser tão boas assim. Pelo contrário, sou otimista. Acredito sempre. Mas ficou morno. Esforçar-se para encontrar a emoção na obra dos irmãos belgas, não combina. Sua obra é latente, pulsante, perturbadora porque toca fundo na alma. No que há de mais puro – e escuro. Normalmente não exige esforço. Ser inverossímil rompe esse mecanismo. E cansa. 

DIRECÃO e ROTEIRO: Jean-Pierre e Luc Dardenne ELENCO: Adèle Haenel, Olivier Bonnaud, Jérémie Renier | 2016 (113 min)

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DOIS DIAS, UMA NOITE – Deux Jours, Une Nuit
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Garimpo na Locadora, França, Drama, Bélgica - 03/02/2015

Dois dias e uma noite é o tempo que Sandra tem para convencer seus colegas de trabalho de que vale a pena abrir mão do bônus de $1000 euros. Assim, a empresa usa este dinheiro para pagar seu salário e evita que ela fique desempregada. Nessa fábula do cotidiano capitalista, os geniais irmãos Dardenne conseguem escrever, de forma simples, linear e extremamente sensível, uma parábola sobre a fraternidade: independente de ela render os frutos materiais, a fraternidade é gratuita, é recompensadora e fortalecedora. Isso, ninguém pode negar.

Estou torcendo por Marion Cottillard (clique aqui para a lista de filmes com a atriz). Por seu papel como Sandra, ela concorre à sua segunda estatueta (venceu com Piaf, em 2008). E o prêmio coloca os irmãos diretores Jean-Pierre e Luc Dardenne no radar do Oscar, já que nunca (isso mesmo, nunca) foram indicados. Coisas da Academia. Seu olhar é algo único no cinema, um equilíbrio perfeito entre realismo e profundidade humana – parece documentário de tão realistas que são os conflitos de relacionamento e comportamento retratados por eles. É só dar uma espiada em filmes como O Garoto da Bicicleta, O Silêncio de Lorna, O Filho, A Criança. Entendeu a intensidade?

Dois Dias, Uma Noite conta a história da mulher trabalhadora comum de classe média francesa, que já se viu desempregada, entrou em depressão e conseguiu sair do limbo graças à ajuda médica e ao suporte incondicional e amoroso da família. Mulher como qualquer uma de nós. De novo na corda bamba no trabalho, precisa resgatar a auto-estima, acreditar que é possível vencer a luta contra o dinheiro e que sua gratidão pode valer mais do que $1000 euros – valor que cada colega de trabalho deixaria de ganhar caso ela fosse mantida no trabalho. Disse acima que a história dos Dardenne tem jeito de parábola: cada um dos gestos de Sandra e de seu marido são carregados de significados como amor, humildade, perseverança, assim como os de seus colegas. Entre as reações de compaixão e egoísmo, inerentes ao ser humano, o que chama mais atenção é o poder que tem uma boa ação. Ser altruísta contagia, estimula e encoraja as pessoas a saírem da zona de conforto. Sem ser moralista (aliás, seus filmes não têm jamais esse tom), Dois Dias, Uma Noite é uma lição belíssima de que deveríamos exercitar esse dom cada vez mais.

 

 

 

 

DIREÇÃO e ROTEIRO: Jean-Pierre e Luc Dardenne ELENCO: Marion Cotillard, Fabrizio Rongione, Catherine Salée | 2014 (95 min)

 

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BISTRÔ ROMANTIQUE – Brasserie Romantiek
CLASSIFICAÇÃO: Para Ver Bem Acompanhado, Garimpo na Locadora, Comédia Romântica, Bélgica - 22/08/2014

Um casal de irmãos Pascaline e Angelo tocam um sofisticado bistrô, que está lotado no dia dos namorados. Tem gente jovem aguardando o grande amor; tem gente sozinha sofrendo pelo grande amor; tem gente esperando encontrar um amor através de um encontro às escuras; tem casal casado há décadas, que já se estranha e se sente desconectado; tem funcionários da cozinha tentando se conectar. E tem antigos amores que são pegos de surpresa nesta noite tão especial. Em meio aos preparativos para que tudo transcorra bem e os clientes saiam satisfeitos, Pascaline recebe a visita de Frank, seu grande e único amor. E o caldo entorna de vez.

Dinâmico e delicioso – não só pela gastronomia em si, pelo preparo dos alimentos e dos prato, pelo clima da cozinha gourmet – mas também pelos diálogos típicos das complexas relações a dois. Bistrô Romantique vai para a lista dos filmes gastronômicos, que mistura a arte da culinária com a arte de se relacionar. Bem ou mal, a conexão é inevitável. Não há gastronomia feita sem carinho, não há relacionamento que dure sem um olhar cuidadoso. Senão, vira tudo farinha do mesmo saco e aí deixa de ter o toque especial que o restaurante se propõe e um relacionamento pressupõe.

Nessa comédia da vida cotidiana, você vai se identificar com algum dos personagens. Tem cara de filme europeu, de produção independente, de diálogos construídos com cuidado e esmero. E conhecimento de causa. Porque falar de relacionamento com tanta sutileza não é tarefa fácil. O título daquele famoso filme francês Medos Privados em Lugares Públicos cai como uma luva nesse charmoso bistrô belga.

DIREÇÃO: Joël Vanhoebrouck ROTEIRO: Jean-Claude Van Rijckeghem, Pat van Beirs ELENCO: Filip Peeters, Koen De Bouw, Barbara Sarafian | 2012 (102 min)

 

 

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ALABAMA MONROE – The Broken Cicle Breakdown
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Holanda, Garimpo na Locadora, Drama, Bélgica - 15/07/2014

Alabama Monroe concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2014 e tinha força para isso. Quem assistiu a Blue Valentine vai entender quando eu disser que o clima é parecido. Filme onde os sentimentos não cabem dentro da tela. Filme onde o amor é intenso, mas a dor insustentável é maior ainda. Permeando tudo isso está a música, que dá um ritmo especial do bluegrass, um som típico do sul dos Estados Unidos, com instrumentos acústicos como banjo, guitarra, violão, violino, em plena Bélgica. Uma mistura do caubói com a garota descolada-tatuada européia. Amarrado com o ingrediente universal: o drama humano da dor e da perda.

Assim como Blue Valentine, os personagens são apaixonantes – e apaixonados. Elise e Didier, ela tatuadora, ele, cantor de bluegrass, apaixonam-se, passam a cantar juntos, formam uma família, até que a pequena Maybelle fica doente. Mas o roteiro não é tão óbvio assim, linear. Nem confuso. É montado com idas e vindas, de modo que presente, passado e futuro se explicam – e se misturam. Era tudo uma coisa só. Um grande amor, que não cabia dentro daquela realidade.

Dizer mais que isso é contar o filme – e eu seria incapaz de chegar aos pés do que ele é realmente na tela. Desperta a beleza da doação, a ordem de prioridades da vida, a riqueza das relações humanas e a nossa ínfima capacidade de lidar com tantas emoções. De uma sensibilidade ímpar.

 

DIREÇÃO: Felix Van Groeningen ROTEIRO: Johan Heldenbergh, Mieke Dobbels ELENCO: Veerle Baetens, Johan Heldenbergh, Nell Cattrysse | 2012 (111 min)

 

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QUAL O NOME DO BEBÊ? – Le Prénom
CLASSIFICAÇÃO: Para se Divertir, Garimpo na Locadora, França, Comédia, Bélgica - 13/03/2013

Divertidíssima! E com uma parcela interessante de realidade. Claro, amigos de uma vida inteira sempre deixam alguma roupa suja sem lavar com o passar dos anos. Muita intimidade é sinônimo de alguns segredinhos importantes. E é tudo isso que faz o filme ser uma delícia de assistir. Pelas risadas desenfreadas e pelo tributo que se faz à amizade. Mesmo com o barraco armado (mais do que humano), a amizade segue em frente.

Lembrei-me de dois filmes recentes e muito bons, já recomendados aqui no Cine Garimpo. O primeiro é Até a Eternidade, de Guillaume Canet, em que amigos antigos se reúnem, algumas mentiras veem à tona e têm que ser repassadas para que a vida continue; o segundo, Deus da Carnificina, de Roman Polansky, em que dois casais se encontram num apartamento e daí saem confissões, brigas, revelações incríveis, vindo do mais fundo da alma humana. Os dois engraçados, inteligentes e superbem estruturados.

Qual o Nome do Bebê é uma mistura desses dois. Também num apartamento, amigos antigos se reúnem: o casal anfitrião é Elizabeth e Pierre recebem o irmão Vincent, a cunhada Anna e um amigo solteiro, Claude. Regado a vinho e acompanhado de um bom jantar, rola a discussão sobre o nome do bebê de Vincent. O que era para ser um jantar descontraído e divertido entre amigos que têm toda a intimidade, assunto de sobra e bom humor, torna-se um caos, uma lavagem de roupa suja. Além de superengraçado e divertido, graças aos ótimos atores e à integração espetacular entre eles, toca no ponto delicado e comum a todos nós da importância da bagagem acumulada com as relações muito longas. Tanta intimidade gera conflito, claro. Mas para mim o que ficou é justamente o contrário. A amizade fala mais alto e toca-se o barco em frente, apesar de tudo. Ou seria, graças a tudo?

 

 

DIREÇÃO: Alexandre de La Patellière, Matthieu Delaporte ROTEIRO: Matthieu Delaporte ELENCO: Valérie Benguigui, Charles Berling, Guillaume De Tonquedec, Judith El Zein, Patrick Bruel | 2012 (109 min)

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PERDER A RAZÃO – À Perdre la Raison (Mostra de Cinema SP)
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Drama, Bélgica - 24/10/2012

DIREÇÃO: Joachim Lafosse

ROTEIRO: Joachim Lafosse, Matthieu Reynaert, Thomas Bidegain

ELENCO: Niels Arestrup, Tahar Rahim, Emilie Dequenne

Bélgica, 2012 (114 min)

Esta Mostra está cheia de filmes que competem com O Palhaço, de Selton Melo, pela vaga na seleta lista da Academia de Hollywood para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2013. Perder a Razão é o concorrente da Bélgica, No, do Chile, Barbara, da Alemanha, Além das Montanhas, da Romênia. E durante a semana publicarei outros mais. Bom esse movimento, assim chegamos na premiação com mais conhecimento de causa e menos curiosidade – é sempre uma categoria que me fascina, pela diversidade de olhares.

Outro comentário um pouco deslocado do filme, mas que vem bastante a calhar. Por que é que as distribuidoras e assessorias de imprensa (ou quem quer que seja responsável pelas sinopses) teimam em contar o que acontece no final? Ao ver a sinopse do filme no site da Mostra, ficamos sabendo do tom do final do filme. Não leiam. Aliás, nem precisa. Para um bom espectador, meia palavra basta. Ou melhor, três. O título do filme já denuncia a perda da razão em algum momento, absolutamente em comunhão com o andar do roteiro, com a construção (e destruição) da personagem de Murielle (Emilie Dequenne). Certo, entendo. Mas fica chato ler uma sinopse que conta, como se não fôssemos capazes de entender e sentir as matizes, as sutilezas, o silêncio, o diálogo proposto no filme. Pronto, falei!

Agora sim, o filme. Murielle e Mounir (Tahar Rahim, também em O Príncipe do DesertoO Profeta) se apaixonam e se casam sob a aprovação de Pinget (Niels Arestrup, também em O Profeta, Cavalo de Guerra, A Chave de Sarah), pai adotivo de Mounir. Além de acolher o casal, é Pinget quem banca a vida confortável, a criação dos filhos e os trâmites da família muçulmana de Mounir no Marrocos, que enfrenta problemas típicos de imigração. Com o tempo, o que era conveniência e parceria, torna-se privação e perda da individualidade. Mais que isso: transcendo o incômodo físico e se mistura ao emocional, à diferença cultural, à falta de diálogo, à interferência, à dificuldade de criação dos filhos.

Perder a Razão é sutil, não é óbvio. Muito embora o potencial dramático vá crescendo, à medida que desaparecem a satisfação. Claro que isso não se aplica ao momento do nascimento do filho homem. Não que seja um filme arrebatador, mas é um forte  drama pessoal, em que a maternidade e o tratamento dado à mulher nas diferentes culturas vem à tona de uma maneira singular. Foi selecionado para a categoria Um Certo Olhar (Un Certain Regard) de Cannes. Faz todo o sentido.

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PROGRAME-SE: para mais informações sobre horários e salas, clique aqui

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O DUBLÊ DO DIABO – The Devil’s Double
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, Bélgica, Ação - 15/06/2012

DIREÇÃO: Lee Tomahori

ROTEIRO: Michael Thomas, Latif Yahia

ELENCO: Dominic Cooper, Ludivine Sagnier, Mimoun Oaïssa, Philip Quast, Mem Ferda, Dar Salim, Raad Raw

Bélgica, Holanda, 2011 (109 min)

De que diabo estamos falando? Que ainda por cima tem dublê? Todo mundo conhece ou já ouviu falar das famosas – e lendárias –  histórias sobre o clã violento e perigoso de Saddam Hussein. Quem ousa contestar? O que a gente ouviu durante os anos em que foi ditador, em que circulava pelo bem bom do mundo árabe e europeu, em que manda soltar e mandava prender quem quer que fosse, que fazia guerra quando bem intendesse não foi pouca coisa. Não importava contra quem, mas era do contra – curdos, iraquianos, americanos, kwaitianos e quem mais aparecesse pela frente.

Tal pai, tal filho, literalmente. É do “diabo-filho” que estamos falando, de Uday Hussein, filho sádico, maldoso, alcóolatra, drogado, promíscuo e assassino de Saddam Hussein, que esbaldou-se com mulheres, drogas, carros, excessos de todos os lados durante o tempo em que seu pai reinou solto pelo Iraque. Isso tudo é contato pelo ponto de vista de Latif Yahia, um rapaz que estudou com Uday e, pela semelhança física, foi selecionado por ele para ser seu dublê, seu sósia. Ou seja, para correr perigo em nome de Uday, obviamente sem ter tido a opção de dizer não. Latif é quem conta essa experiência em livro quando consegue fugir da vista da autoridades iraquianas e dá a sua versão dos fatos.

Eu ressalto dois pontos: o primeiro, e fundamental, é a atuação de Dominic Cooper (também em A Duquesa, Educação, Sete Dias com Marilyn) como Latif e Uday. Ora bom moço, inconformado com tanta maldade; ora um assassino sádico e extremamente perigoso. Tem alguns excessos, mas não saberia dizer que ficou por conta das lentes do diretor e da liberdade do ator, ou se realmente retratam a verdade. Acho que jamais saberemos – ainda mais agora, que o reinado virou pó. Mas convence dos dois lados e se mostra competente. Outro ponto é a história em si – que embora possa ter algumas distorções, é inacreditável. Algumas cenas, como as emboscadas e os enfrentamentos entre os sósias, são boas; outras me soaram desnecessárias, como a violência sexual – que já está absolutamente explícita na sua atitude. No fim das contas, acho que essa violência exarcebada – não só física, mas também moral – me cansaram um pouco. Menos teria sido mais. No entanto, é interessante – e no mínimo curioso, para quem tiver estômago para aguentar tanta maldade – entrar nos palácios iraquianos, espiar pelo buraco da fechadura e ver quantos “Saddams” havia por lá, rindo à toa.

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HASTA LA VISTA: VENHA COMO VOCÊ É – Hasta la Vista
CLASSIFICAÇÃO: Para se Divertir, Comédia, Bélgica - 25/05/2012

DIREÇÃO: Geoffrey Enthoven

ROTEIRO: Pierre de Clercq, Mariano Vanhoof

ELENCO: Robrecht Vanden Thoren, Tom Audenaert, Isabelle De Hertogh, Gilles De Schrijver

Bélgica, 2011 (115 min)

 

Se eu pudesse resumir Hasta la Vista em uma palavra, não diria diversão, muito embora seja divertido; nem deficiência, muito embora os três protagonistas sejam deficientes; nem mesmo sexualidade, embora esse seja o mote do filme. Eu diria que honestidade resume a proposta do filme e é justamente a maneira honesta, sem dramas ou vitimização, que permitiu com que eu me divertisse e me emocionasse no filme. Sem culpa.

Aliás, aproveitando, culpa é algo que não existe na linguagem escolhida pelo diretor belga Geoffrey Enthoven. Ninguém tem culpa de nada, nem os rapazes, nem os pais. Já começa por aí: são rapazes normais, que levam uma vida limitada e cheia de cuidados por causa de sua deficiência física: Lars tem câncer, é paraplégico e o tumor paralisa seus órgãos aos poucos; Philip é tetraplégico e Josef é praticamente cego. Todos jovens, perfeitamente capazes intelectualmente, mas dependentes e acostumados com a superproteção dos pais. Adoram vinhos, cultivam os amigos, saem de férias – sempre com os pais, sempre sem emoção. Até que um dia Philip descobre que há um bordel na Espanha especializado em receber rapazes com deficiência física e é pra lá que eles querem ir para finalmente experimentar o sexo! Independência, por que não?

Claro que convencer os pais não é tarefa fácil, nem encontrar alguém que se encarregue do trio, que pretende sair da Bélgica, passar por Paris e seguir até a Espanha em uma van, e de suas dificuldades. Mas Claude (Isabelle De Hertogh) cai como uma luva (ou nem tanto!) e faz um contraponto interessante, completando o panorama de situações engraçadas, tiradas inteligentes e humor sincero (inclusive piadas sobre suas próprias condições), ressaltando a amizade como a força geradora de movimento e capaz de superar qualquer situação. Curioso só ter sentido o lado duro, penoso e triste da deficiência nas cenas com os pais, embora o amor pelos filhos seja o sentimento mais forte e mais evidente, muito mais do que a dor ou a dificuldade. E digo mais: em nenhum momento vem à tona a o sentimento de pena, ou é ressaltado o preconceito (há situações inclusive ao revés), o que é uma maravilha e uma delicadeza por parte da direção!

O road movie Hasta la Vista: Venha Como Você É pode ser visto para se divertir, para pensar sobre a percepção que os próprios deficientes têm da vida, para se emocionar. Comigo serviu bem nas três categorias. Esse é um daqueles filmes para sair do lugar comum, sentir algo diferente, elaborar e pensar sobre outras perspectivas de vida. Dê uma espiada no trailer abaixo.

 

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DESDE QUE OTAR PARTIU – Depuis qu’Otar est Parti
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, França, Drama, Bélgica - 04/04/2012

 

DIREÇÃO: Julie Bertuccelli

ROTEIRO: Jullie Bertuccelli, Bernard Renucci

ELENCO: Esther Gorintin, Nino Khomasuridze, Dinara Drukarova

França, Bélgica, Georgia, 2003 (103 min)

Na Geórgia independente, ex-república soviética, falta luz e água com frequência, além de emprego, oportunidades, prosperidade. Nada mais natural do que migrar, como fez Otar, para a Europa ocidental. Mesmo sendo médico, sujeita-se a trabalhar como pedreiro para ganhar a vida em Paris. E desde que Otar partiu, quem ficou na Geórgia faz disso um mito. Sua mãe Eka, uma senhora que viveu os tempos gloriosos de Stalin e ainda se gaba dessa época de “estabilidade”, acredita piamente que o filho é um herói. Ele parte, ela nutre seus dias com suas cartas, lembranças e um dinheirinho que ele manda.

É Eka quem comanda e dá o tom da narrativa da diretora francesa Julie Bertuccelli, também de A Árvore, publicada recentemente aqui no blog. Ao seu lado ficou o ramo feminino da família: sua filha Marina, ressentida e enciumada, faz parte da geração frustrada que teve a profissão e a possibilidade de uma vida melhor tolhidas pelo regime e sua queda; sua neta, Ada, uma moça inteligente e viva, que não vê perspectiva na Geórgia, mas que tem ainda acesa a chama do sonho de fazer uma carreira e viver em um lugar melhor. Elas coordenam a vida de Eka, sem perceber que Eka tem vida própria. Elas escondem um grande segredo, sem perceber que Eka também faz isso muito bem. O jogo de sabedoria e sensibilidade do filme nas questões humanas e familiares é muito interessante, fazendo, é claro, lembrar Adeus, Lênin! – em que também uma mentira tem como objetivo poupar alguém da dor, subestimando, assim, o olhar sagaz da maturidade.

Desde que Otar Partiu tem elementos opostos carregados de significado como a escuridão do apartamento e as luzes de Paris, o que torna o filme ainda mais sutil. E sensível, humano. A cena final do aeroporto, o entendimento de Eka do presente, passado e futuro é o que poderia se chamar de sabedoria.

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O FILHO – Le Fils
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, França, Drama, Bélgica - 17/03/2012

DIREÇÃO e ROTEIRO: Jean-Pierre e Luc Dardenne

ELENCO: Olivier Gourmet, Morgan Marinne, Isabella Soupart,

Bélgica, França, 2002 (103 min)

Você precisa realmente gostar do estilo dos diretores belgas, os irmãos Dardenne, para apreciar sua obra. Duas escolhas dificultam muito este processo: o tema e a linguagem. O tema porque invariavelmente eles tratam de questões humanas e sociais profundas e cruéis, como o abandono de crianças pelos pais, o crime adolescente, a falta de perspectiva do jovem, o excluído, o ilegal, a desconstrução familiar, portanto assuntos difíceis, que incomodam, criam um profundo mal estar no espectador; a linguagem, a forma, porque há pouquíssimos diálogos, só o essencial é dito, o ritmo é lento, sendo um exercício de observação e acompanhamento do personagem, bem perto de suas angústias.

Tendo isso em vista, O Filho não difere de suas outras produções também premiadas como O Silêncio de Lorna, A Criança e O Garoto da Bicicleta – muito embora este último tenha um toque de esperança que os outros não possuem. É seco, duro. Chega a ser árduo, é só reparar nos sentimentos, na figura do protagonista Olivier (Olivier Gourmet), que venceu o prêmio de melhor ator em Cannes pelo papel. Como chefe de uma marcenaria que acolhe e ensina o ofício a meninos que saem de um reformatório, ele vive o drama pessoal da perda do filho. Metódico, gentil mas apagado, revive essa dor quando Francis, o garoto que o matou, é um dos meninos que são enviados para sua inserção na sociedade através do aprendizado de uma profissão em sua marcenaria.

Passamos o filme todo seguindo – perseguindo, melhor dizendo – os passos de Olivier; e Olivier, por sua vez, passa o filme todo espionando os passos de Francis. A câmera os segue bem de perto, nos mostra movimentos repetitivos e detalhados da rotina, seus gestos, sua respiração, sua ansiedade. Apresenta a questão desse relacionamento inesperado e improvável e tem um final absolutamente inacabado – se é que isso é possível. Marca dos irmãos diretores, não apresentam desfecho, não concluem nada, pelo contrário. Transferem a responsabilidade do final para o espectador, que fica se perguntando qual a probabilidade de tal e tal situações continuarem. Por essa e outras que disse no começo deste comentário que é preciso gostar do estilo para apreciar a profundidade da proposta e conseguir chegar no final do filme para “comprar” a reflexão proposta. Dos Dardenne, não espere pacote fechado. Eles passam adiante a batata quente sobre o mistério das relações.

 

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