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Áustria

MAIS QUE MEL – More Than Honey
CLASSIFICAÇÃO: Suiça, Para Entender o Nosso Mundo, Garimpo na Locadora, Documentário, Áustria, Alemanha - 04/10/2013

Não sei você, mas eu sempre fiquei intrigada com a vida coletiva das abelhas e formigas. Inúmeras vezes me deparei com formigas em fila indiana cruzando a estrada de terra da fazenda no interior de São Paulo. Parávamos para observar. Era organizado demais da conta. Também me impressionava a proporção das folhas que elas carregavam nas costas, quase do tamanho do corpo. Enormes ou miúdas, mas sempre poderosas. E passíveis de observação – dava para ficar o olhando sem que significassem uma ameaça – acho que é por isso que as formigas me chamavam mais atenção no quisito “trabalho em equipe” do que as abelhas.

Sim, porque observar abelhas trabalhando é um pouco mais perigoso. Tem que achar a colmeia, aproximar-se sem perturbar e sem correr risco de levar uma ou milhares de picadas. Claro que dava para observar o trabalho de polinização nas flores, mas a fila indiana das formigas sempre me pareceu mais sistemática, processual, estilo linha de produção. Com começo, meio e fim, propósito e objetivo. Um exemplo a seguir.

Falo das formigas, mas este filme é sobre abelhas e realmente vai muito além do mel que elas sabiamente produzem. Mais Que Mel é uma viagem pelo universo desses animais, não somente na sua trajetória natural de polinização, produção de mel, acasalamento, construção da colmeia e hierarquização das funções, mas também na interferência do homem no processo para benefício da agricultura. Filmado na Suiça, Califórnia, China e Austrália, o documentário satisfez parte da minha curiosidade: me colocou dentro de uma colmeia, como espectadora. As imagens são fascinantes e merecem ser apreciadas.

Por outro lado, é montado de forma didática, já que muita gente não deve ter conhecimento sobre tudo aquilo que gira em torno desses animais. Fiquei sabendo, por exemplo, que a colheita de amêndoas na Califórnia depende em grande parte da polinização das abelhas durante a primavera. Para tanto, milhares de colmeias são levadas de caminhão para a região para que trabalhem sem parar. Assim as flores darão frutos, que serão colhidos e exportados mundo afora. Quem está acostumado com a manipulação de animais de grande porte para cruzamento de raças, melhorias, formação de rebanhos, pode transportar tudo isso para a produção de novas colmeias, com suas rainhas e seu exército.Tudo comercializado pelos apicultores no mundo todo, numa rentável atividade que, em alguns lugares como os vilarejos suíços, passam de pai para filho.

Também fiquei sabendo que a população de abelhas diminuiu drasticamente, o que prejudica muito a agricultura. Consequências das mudanças climáticas e de todas as interferências irresponsáveis dos homens. Na China, por exemplo, as abelhas sumiram. Quem tem que polinizar é o homem, que está longe de ser eficiente como elas.

Ainda quero me ver dentro do formigueiro, para entender o que aqueles seres fazem com as folhas enormes que carregam nas costas quando atravessam as estradas de terra. Mais Que Mel aguçou a minha curiosidade e me deixou encantada com a beleza da fotografia, com a proposta de interesse ambiental e com o cunho didático da profissão dos apicultores. Nunca vou me esquecer a maravilha que é deixar escorrer o mel do favo, comer e se lambuzar. Agora ele tem um sabor ainda mais especial.

 

DIREÇÃO: Markus Imhoof ROTEIRO: Markus Imhoof, Kerstin Hopperhaus ELENCO: Fred Jaggi, Randol Menzel, John Miller | 2012 (95 min)

 

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AMOR – AMOUR
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, França, Drama, Áustria - 31/01/2013

DIREÇÃO e ROTEIRO: Michael Henekeamor

ELENCO: Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva, Isabelle Huppert

Áustria, França, 2012 (127 min)

Fui assistir a uma sessão de Amor em que a maioria das pessoas era da terceira idade. Acabou o filme, eu custei a me levantar. Quando acenderam as luzes do cinema, que notei o perfil da plateia, fiquei ainda mais emocionada. Se eu, que ainda não estou nessa faixa etária fiquei extremamente tocada com o depoimento amoroso do casal e cruel da vida como ela é, imagine aquelas pessoas.

Sei de gente que não aguentou – e é árduo mesmo. Amor vem conquistando prêmios mundo afora (ganhou Palma de Ouro em Cannes, Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro e concorre ao Oscar em cinco categorias) e isso já atrai bastante gente ao cinema. Além do título que o diretor e roteirista Michael Heneke (também de A Fita Branca) escolheu para o filme, que é singelo e preciso, também não explicitar a dor – muito embora não haja amor sem sofrimento. Mas quem vai assistir esperando ver uma linda história de amor, descobre que estamos falando aqui de uma linda história de AMOR, com maiúscula, no sentido completo da palavra, com todas as suas implicações mais profundas e dolorosas. O tapa é forte demais. Se não me falha a memória, a palavra “amor” não é usada no filme, no entanto esse é o sentimento que existe no olhar de Anne (Emmanuelle Riva) e Georges (Jean-Louis Trintignant). Puro. Aliás, só amando muito mesmo. Mas mesmo com ele, o realismo da tragédia que vem com a doença e com a idade chega a cortar esses corações repletos do mais nobre sentimento.

Aguentar é duro e cada um sente o filme dependendo da idade em que está. Mesmo projetando para o futuro essa dor, sorte de quem pode projetar para o futuro um relacionamento duradouro como o de Anne e George. No meu caso, fica mais fácil me colocar no papel de Eva (Isabelle Huppert, também em Minha Terra, África, Copacabana, A Bela que Dorme, Em Nome de Deus), uma filha que pouco contato tem com os pais, mas que se vê no direito de ditar as regras quando a situação vive seu maior drama. Tocante a cena em que George impede que qualquer decisão egoísta da filha possa interferir na cumplicidade do casal. Vão cuidar um do outro até morrer. Isso é inegociável e uma prova de amor.

Anne e George estão casados há decadas, talvez uns 50, 60 anos. Pelos detalhes escolhidos pelo diretor e roteirista do apartamento, da rotina, da maneira de falar um com o outro, construíram uma vida juntos. Sempre juntos, no sentido real da expressão. Ser um casal é condição primeira de seguir vivendo. Para poucos. Ninguém sai ileso de Amor.

 

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A FITA BRANCA – Das Weisse Band
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, Garimpo na Locadora, Áustria, Alemanha - 23/02/2010

 

Palma de Ouro em Cannes, 2009

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“Gostaria que as pessoas vissem A Fita Branca como um filme sobre a perversão dos ideais. Uma educação muito rígida leva à deformação e ao fanatismo. Temos aí a origem não só do nazismo, mas do terrorismo, que tanto aflige o mundo moderno.” – Michael Haneke, em entrevista ao O Estado de São Paulo

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2010

Nesse curto trecho da entrevista que deu ao jornal O Estado de São Paulo, o diretor Michael Haneke resumiu A Fita Branca de uma maneira bastante objetiva e categórica. E ele tem razão. Até o fato de ter sido produzido em preto e branco reforça a ideia sinistra do desvio de caráter, da dissimulação, da crueldade nua e crua de alguns. E deixa no ar a questão da importância do exemplo. Seja para o bem, ou para o mal.

Estamos nas vésperas da Primeira Guerra, num vilarejo alemão regido pela fé protestante, pelo autoritarismo e pela submissão. A fita branca do título se refere à fita que o pastor amarra no braço de seus filhos para que se conscientizem da sua desobediência, sintam-se envergonhados e peçam perdão após severas punições físicas. Atrelado ao argumento do branco enquanto símbolo da inocência e da purificação, o ato do pastor remete à estrela de Davi que os judeus viriam a exibir anos depois na Segunda Guerra, como símbolo da vergonha. Pura hipocrisia. Não há como não pensar nisso.

Esse é só o começo das relações entre a formação de uma geração dura, corrompida pelo castigo, pela rigidez e pela mentira e a ascensão do nazismo. Não há como aceitar o diferente, se não há quem ensine a aceitá-lo. No microcosmo da aldeia em que o pastor, o médico e o barão, portanto líderes espiritual, econômico e político, usam da punição com seus filhos, esposas e empregados para se perpetuar no poder, percebe-se o que é possível fazer com a mente humana. É só mudar passar da aldeia para uma nação. Lembrei do filme, também alemão, A Onda. Fala da mesma coisa.

Somente o professor, o líder intelectual, questiona o status quo da aldeia, os ataques sofridos por alguns habitantes, a política do não-vi-nada-não-sei-de-nada. É o praticamente o único que demonstra afeto. Não é por acaso. O conhecimento traz a dúvida, a investigação, a contestação. Sempre foi o agente transformador. Aqui, é quem duvida da inocência das diversas crianças arianas, dissimuladas e mentirosas; é quem desconfia dos ataques gratuitos por ódio, impaciência ou simples prazer.  É ele que tem coragem de enfrentar o poder instituído – embora ganhe em inteligência, sabe que perde em força e influência.

Ainda bem que, na vida real, podemos contar com outros tantos “questionadores” para mudar as coisas. Pena que muitas vezes tenhamos que pagar um preço muito alto pela ignorância, intolerância e arrogância de alguns.

Não percam, faz jus à indicação ao Oscar. Vale a pena ver também o trailer abaixo.

DIREÇÃO E ROTEIROMichael Haneke ELENCOChristian Friedel, Leonie Benesch, Ulrich Tukur, Ursina Lardi, Burghart Klaussner | 2009 (145 min)

 

 

 

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