cinegarimpo

Afeganistão

A PEDRA DE PACIÊNCIA – Syngué Sabour, Pierre de Pacience
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Para Entender o Nosso Mundo, Garimpo na Locadora, Drama, Afeganistão - 17/09/2014

Quem quiser fugir do lugar comum e assistir a algo que realmente está fora do nosso alcance cultural, A Pedra de Paciência vai direto nesse ponto. No ponto do desconhecido, do inaceitável, do incompreensível. Muito se tem falado (mas não o suficiente) sobre a condição da mulher afegã nas sociedades fechadas, machistas, tradicionalistas e extremamente radicais. Em que os casamentos são arranjados, em que a mulher veste burca, em que maridos, irmãos e pais coordenam sua vida como mercadorias. É o que são. Mercadorias, manipuladas em meio à guerrilha que nunca termina.

Sobre o Afeganistão, vale ver também A Caminho de Kandahar, Às Cinco da Tarde e Wajma. Dão apenas uma ideia do que deve se a vida das mulheres neste lugar. A Pedra de Paciência tem um toque poético dramático, reúne todas as mazelas em uma só personagem e ninguém sai do filme ileso. A bela protagonista (Golshifteh Farahani, também de Procurando Elly) é uma dona de casa, que foi obrigada a casar com um homem bem mais velho ainda adolescente. Herói da guerra jihadista, é ferido no pescoço e fica em coma. Embora nunca tenha tido relação de amor e afeto com ele, opta por não abandoná-lo, embora a vila esteja em guerra.

Com o marido em coma, a esposa tem que ser reinventar para sustentar as filhas e seu contato com alguém que já não manda mais nela, permite que ela fale sobre ela, seu passado, suas decisões, medos e prazeres. Ficamos sabendo, ao mesmo tempo que o marido, de coisas jamais sonhadas nesse mundo muçulmano extremista. A Pedra de Paciência é uma metáfora ao exercício da fala e da escuta da palavra, do diálogo – ou monólogo. Feminino e humanista ao mesmo tempo, faz parar para pensar e emociona. Também porque é real e filmado com uma veracidade de sentimentos e linguagem impressionantes.

 

DIREÇÃO: Atiz Rahimi ROTEIRO: Jean-Claude Carrière, Atiq Rahimi ELENCO: Golshifteh Farahani, Hamid Djavadan, Hassina Burgan |2012 (102 min)

Sem Comentários » TAGS:  
WAJMA – Mostra SP
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Para Entender o Nosso Mundo, Drama, Afeganistão - 27/10/2013

Wajma é o próprio paradoxo entre a tradição religiosa e o comportamento da vida contemporânea. É o retrato da influência ocidental que chega sem pedir licença numa sociedade ultraconservadora e fechada como o Afeganistão. É um ponto de interrogação gigante na pergunta que não quer calar: como é que uma sociedade regida por leis religiosas extremas pode se adaptar à tecnologia, à liberdade da mulher de ir e vir, de estudar, de namorar, de escolher seu parceiro para casar? Como é que faz?

Wajma até que se fez a mesma pergunta. Não nesses termos, mas questionou o namorado Mustafa, quando ele forçou a barra para avançarem o sinal e transarem antes do casamento. Ela tem 18 anos, acaba de entrar na faculdade de Direito, mas mora com a mãe, o irmão e a avó em Cabul, capital afegã castigada pela guerra e pelas privações impostas à mulher pelo antigo regime do Talibã. Seu pai mora no interior do país, trabalhando para desativar minas terrestres armadas durante as contínuas guerras. Portanto, consegue mais flexibilidade para namorar Mustafa, um garoto que trabalha em um restaurante, tem mais contato com o mundo ocidental e quer, nitidamente, transgredir os costumes de comportamento. Quer namorar, mas não quer fazer o pedido de casamento formal à família. Wajma cede, engravida e planta na família a mais temida vergonha: a desonra perante a sociedade.

Filmado de uma maneira bastante realista e perturbadora, Wajma, indicado afegão ao Oscar de melhor filme estrangeiro, reflete a incompatibilidade entre os mandos do islamismo tradicional e o comportamento do jovem contemporâneo, que usa celular, se inspira nos hábitos dos parentes que conseguiram fugir para o exterior e se livrar de toda a censura, quer ter liberdade de ir e vir, mas não tem a contrapartida da geração criada sob o ferro e fogo do Islã. O próprio Mustafa é reflexo disso. Enquanto interessava, Wajma era bela; quando se viu ameaçado pelo pai da garota, agarra-se no discurso tradicional, respaldado nas leis islâmicas de que não se casaria com uma mulher que não fosse virgem. Só se esquece que ele é o responsável por tirar a sua virgindade e aqui só nos resta rir (e foi essa a reação da plateia). O que era para ser uma história de amor, vira tragédia. Velha e hostil hipocrisia.

 

DIREÇÃO e ROTEIRO: Barmak Akram ELENCO: Wajma Bahar, Hadji Gul, Mustafa Habibi | 2013 (85 min)

 

 

Sem Comentários »
ÀS CINCO DA TARDE – At Five in the Afternoon
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, Irã, Drama, Afeganistão - 27/12/2011

DIREÇÃO: Samira Makhmalbaf

ROTEIRO: Mohsen Makhmalbaf, Samira Makhmalbaf

ELENCO: Agheleh Rezaie, Abdolgani Yousefrazi, Razi Mohebi

Irã, Afeganistão, 2003 (105 min)

A jovem cineasta Samira Makhmalbaf só tem 31 anos e já faturou duas vezes o Prêmio Especial do Júri em Cannes. A primeira vez foi com apenas 20 anos, com o filme The Black Board (2000); a segunda com Às Cinco da Tarde, quando tinha 23. Aprendeu em casa, com o pai Mohsen Makhmalbaf, também cineasta, responsável pelo fantástico A Caminho de Kandahar, e com a irmã, diretora do filme Green Days. Família de artistas com olhar apuradíssimo. Ainda bem, porque é  através deles que temos a oportunidade de conhecer um pouco dessa cultura complexa e milenar, da situação social e política do Irã e da condição da mulher nos países muçulmanos.

Por causa da perseguições aos cineastas no Irã (ver comentário sobre Isto Não É um Filme), a família Makhmalbaf vive fora do país, inclusive no vizinho Afeganistão. Isso fez com que esta década de profundas mudanças no país fosse tema importante analisado em seus filmes, sempre trazendo à tona o ponto de vista feminino, a sensibilidade da maternidade e a agonia da falta de perspectiva. Noqreh (Agheleh Rezaie) quer ser presidente do Afeganistão. Inspira-se em mulheres que lideraram o poder no mundo, principalmente a paquistanesa Benazir Bhutto e a indiana Indira Gandhi, e quer desesperadamente saber o que esses dirigentes dizem ao povo para serem eleitos. Mas é claro que no Afeganistão tudo é diferente. Mesmo porque seu pai, um senhor conservador e autoritário, não quer que ela volte a estudar. Agora que o país já não está sob o comando do Taleban, as mulheres voltaram aos bancos da escola, onde discutem a situação política do país, suas ambições profissionais e pessoais e tentam achar um caminho para a sociedade esfacelada pela guerra e sofrida pelas perdas e mutilações.

Mas não há de ser a sua vontade a que prevalece – o pai a obriga a cobrir-se, estudar os ensinamentos do Alcorão, a jurar obediência e vê blasfêmia em tudo. Num país em que falta moradia, comida, água, a questão maior é a sobrevivência. Comandada pelo pai, segue com a cunhada pelo deserto, buscando um gole de água e um teto, lutando para salvar a vida do sobrinho e para entender como é possível viver num país totalmente destruído, material e emocionalmente.

Às Cinco da Tarde tem um tom desolador. Um provação do começo ao fim, com um olhar feminino sensível e apurado para as humilhações, como o uso da burca que esconde o rosto, a identidade e individualidade, assim como para as vaidades femininas, como o sapato branco de salto em meio ao deserto. Mostra uma sociedade sem rumo, perdida em seus conceitos autoritários, egoístas e machistas, perdida na aridez e na precariedade que o deserto já traz por si só, e que o homem tratou de piorar ainda mais.

 



Sem Comentários » TAGS:  

CATEGORIAS

INSCREVA-SE PARA RECEBER NOSSA NEWSLETTER

Você também pode assinar listas específicas: