publicidade
CONTRACORRENTE – Contracorriente
CLASSIFICAÇÃO: Romance, Peru, Para Ver Bem Acompanhado - 12/06/2012

DIREÇÃO e ROTEIRO: Javier Fuentes-Léon

ELENCO: Cristian Mercado, Tatiana Astengo, Manolo Cardona, José Chacaltana, Cindy Díaz

Peru, 2009 (100 min)

Acho sempre ousado – e perigoso – abordar a homossexualidade no cinema. Ousado, porque sempre foi tabu, embora seja cada vez menos; perigoso, porque nem sempre é o enredo é o centro, mas sim o tema homossexualismo – e cair no clichê ou errar no tom acaba ficando mais fácil. Em Contracorrente, embora o diretor peruano Javier Fuentes-Léon explore o triângulo amoroso entre dois gays e uma mulher, consegue manter um tom suave, sem levantar bandeira nenhuma. Sua câmera é quase uma observadora – sem falar que registra imagens lindas do litoral peruano, além de bonitos enquadramentos.

Quando comentei sobre o filme Do Começo ao Fim, disse que algo me incomodava na maneira com que o tema “homossexualidade” foi tratado. Aqui não. Acho que é por causa da construção do protagonista Miguel (Cristian Mercado), um pescador que se apaixona pelo fotógrafo Santiago (Manolo Cardona), mas também se mostra genuinamente feliz com sua mulher Mariela (Tatiana Astengo, que por sinal está muito bem), grávida do primeiro filho do casa. Assisti sem saber nada sobre o tom surrealista que tem o filme – o que muitas resenhas estão revelando. E acho que esse é o grande charme do roteiro – por isso, da minha parte, fica a surpresa.

Vencedor do prêmio de público no Festival de Sundance, foi a opção peruana para concorrer ao Oscar de filme estrangeiro, mas não passou na primeira seleção, diferente do também interessante A Teta Assustada, da também peruana Claudia Llosa, que foi indicado na mesma categoria. Tem algo semelhante nos filmes, algo próprio da cultura e da fisionomia do povo peruano, que traz mais para perto a realidade dos países andinos. Contracorrente mostra-se simples na produção, porém maduro no enfoque humano.

 

 Outros filmes sobre o tema homossexualidade: Do Começo ao FimComo Esquecer e Teus Olhos Meus (brasileiros), Direito de Amar Milk – A Voz da Igualdade (americano), Pecado da Carne (israelense), Tomboy (francês),

A TETA ASSUSTADA – La Teta Asustada
CLASSIFICAÇÃO: Peru, Para Pensar - 12/12/2009

teta assutada,aDIREÇÃO: Claudia Llosa1 icone_DVD

ELENCO: Magaly Solier, Susi Sánchez, Efraín Solís, Marino Ballón, Antolín Prieto

LOCAL, ANO: Peru, 2009

Urso de Ouro, Festival de Berlim 2009

“A teta assutada é como chamamos a quem nasce como ela, sem alma, porque está escondida sob a terra por medo.”

Não se assuste – de assustada já basta a protagonista, Fausta. O título do filme não é nada do que sugere. Pelo contrário. Passa longe de qualquer conotação sexual ou sensual. Inclusive, isso é o que Fausta mais teme. De origem indígena, ela acredita que é assim apavorada porque foi contaminada pelo medo através do leite de sua mãe, que foi violentada por guerrilheiros na época do terrorismo peruano. Daí a doença, teta assustada.

Resolvi contar essa historinha já na entrada porque esse é o grande trunfo do filme. O eixo é a crendice popular das camadas mais simples do Peru, aquelas que têm suas raízes nos vilarejos andinos, longínquos e simples, muito simples. Portanto, espere um filme que retrate esse universo em primeiro plano: através da trajetória de Fausta, que não tem dinheiro para enterrar a mãe e não consegue se livrar dessa áurea assutada, vemos o Peru dos casamentos populares, dos mercados, do idioma quechua, das fisionomias esteriotipadas peruanas, da aridez das montanhas, do precário sistema de saúde. E também o poder das crenças no imaginário coletivo das pessoas: com medo de também ser estuprada, Fausta usa um artifício no mínimo perigoso para evitá-lo. Vocês verão – fiquei imaginando em como esse bloqueio físico representa o bloqueio emocional e a dificuldade de lidar com o trauma vivido pela mãe e incorporado pela filha. Literalmente incorporado. Gostei da metáfora usada pela diretora. 

Em segundo plano, mas não menos importante, está a relação de Fausta com uma pianista renomada de Lima, em cuja casa vai trabalhar para conseguir dinheiro. Não tive dificuldade em transportar esse fato para a nossa realidade brasileira. O contraste social é enorme, e o abismo e o preconceito, estarrecedores. Vesti a carapuça. Quem já esteve no Peru, nas montanhas, sabe de que contraste estou falando.

© Copyright 2009-2013, Cine Garimpo

Navegue pela nossa versão mobile