ROTEIRO: Amos Gitai, Marie-Jose Sanselme
ELENCO: Hanna Laslo, Hiam Abbass, Natalie Portman, Carmem Maura
Israel, 2005 (96 min)
Filme feminino, em pleno conflito árabe-israelense – um assunto que automaticamente associamos a temas masculinos, como guerra, poder, violência. Assim como outros filmes como A Noiva Síria e Lemon Tree, as diferenças religiosas, desavenças territoriais e rixas históricas são mostradas através da alma feminina. Em Free Zone, elas são uma palestina, americana filha de israelense e uma judia que se encontram quase que por acaso: Rebecca briga com o namorado em Israel, entra no táxi de Hanna que não pode levá-la a lugar nenhum porque está indo para a Jordânia cobrar uma dívida. Cada uma com sua história, mas todas mulheres e mães. Como se isso bastasse quando se trata de solidariedade e identidade.
Na pele de três grandes atrizes, Free Zone é uma bonita história sobre a dificuldade de lidar com as diferenças e a facilidade de encontrar, até mesmo nas situações mais improváveis e mais controversas, pontos em comum, interesses parecidos, vontades semelhantes quando há boa vontade. Mesmo quando se trata do barril de pólvora que é o Oriente Médio. A cena das três cantando felizes no carro é emblemática – e emocionante.
Na pele de grandes atrizes como Natalie Portman (também em Cisne Negro, Nova York, Eu Te Amo, Closer – Perto Demais, Sexo sem Compromisso, As Coisas Impossíveis do Amor), Hiam Abbass (também em A Noiva Síria, Lemon Tree, O Visitante, Miral, Munique, Conversa com meu Jardineiro) e Hanna Laslo (melhor atriz em Cannes), o diretor israelense Amos Gitai (também em Aproximação, O Dia do Perdão) acerta no tom feminino, no que ele tem de mais humano e característico: a emoção, no choro de Rebecca; a teimosia, na insistência de Hanna; a maternidade, no pedido final de Leila. Assim como Caramelo e A Fonte das Mulheres, que também ajudam a construir quem são as mulheres do Oriente Médio.
ROTEIRO: Segio Bianchi, Beatriz Bracher
ELENCO: Marat Descartes, Caio Blat, Cassia Kiss, Leona Cavalli, Umberto Magnani, Ana Carbatti, Ailton Graça, Lennon Campos
Brasil, 2009 (103 min)
De novo o dia em que São Paulo parou, como disse Sergio Resende em seu filme Salve Geral, é inspiração para filme. Mas em Os Inquilinos, a trama é mais profunda, mais íntima e por isso ainda mais intimidante. Fala do interior das pessoas, do medo que se instala dentro da própria casa, do temor de que algo aconteça, do perigo iminente, da família que corre risco. É no personagem Valter (Marat Descartes, também em Trabalhar Cansa, Estamos Juntos, 2 Coelhos) que nos sentimos acuados dentro da nossa própria casa. Um retrato realista, sem romantismo nem vitimização, da periferia e da desigualdade social.
Durante o ataque do PCC à cidade de São Paulo em 2006, a família de Valter tem que conviver com a chegada de inquilinos novos, 3 rapazes que tumultuam o ambiente, trocam o dia pela noite, intimidam e ameaçam a tranquilidade do bairro com sua simples presença. A mulher e os filhos sentem a mudança na rotina, mas não o medo que Valter sente. Esse medo é só seu, incrementado pela instabilidade no trabalho por não ser registrado, pela dificuldade de ascensão social por não ter concluído os estudos, pela insegurança dentro da sua própria casa.
Os Inquilinos faz um retrato interessante da vida do trabalhador comum, que vive um suspense. É como se dissesse que o medo não existe só nas camadas mais altas, ameaçadas e cercadas de muros e alarmes. Ele existe dentro das pessoas como um todo. E Marat Descartes, esse ator competente em tudo que faz, é sempre um personagem complexo, inserido num contexto social perverso e cruel. Dá pra perceber o temor que Valter sente. Pura tortura psicológica. E a sua indignação – coisa que não notamos em Iara, sua esposa, e filhos, para quem a violência faz parte do contexto, da televisão, da vida em geral. Em que ponto chegamos… Nos acostumamos e nos cercamos.
ROTEIRO: Kim Fupz Aakeson
ELENCO: Ewan McGregor, Eva Green, Connie Nielsen,
Stephen Dillane
Inglaterra, 2011 (92 min)
Perfect Sense foi traduzido como Sentidos do Amor. Ora, francamente. Por que não dizer Sentido Perfeito? Se é isso mesmo que o filme quer transmitir? Veja se concorda comigo: misteriosamente, e de forma epidêmica, as pessoas perdem o olfato, depois o paladar, depois a audição e assim sucessivamente. Cada uma dessas perdas, aparentemente essenciais para nossas vidas e sobrevida, vão se tornando secundárias quando ainda resta o amor.
Aqui entra e se encaixa perfeitamente o título escolhido. Apesar da tragédia e da perda dos sentidos que nos fazem sentir o cheiro e o gosto das coisas, que nos permitem comunicar e interagir com outras pessoas, que nos permitem ver o mundo, o sentido perfeito, que prescinde dos outros, permanece, resiste. O amor. Simples assim.
E simples também é a visão do diretor David Mackenzie, que coloca no centro de tudo o casal Susan e Michel, ela cientista, ciente da epidemia misteriosa e do pânico que se alastra; ele , chefe de cozinha que vive dos sabores e dos cheiros perdidos no caos. Simples, mas também sofisticada e bela, inclusive a trilha sonora. Impossível não se lembrar de Ensaio sobre a Cegueira, de Ferrnando Meirelles, baseado no livro homônimo de Saramago, quando todos os habitantes ficam cegos e caem na barbárie, perdendo inclusive sua dignidade. Aqui não, Susan e Michael sobrevivem enquanto casal, enquanto esperança, essência. E ainda lhes restou o tato, a que se dá tão pouco valor.
Perfect Sense – perfiro assim, pode ser? – soa como um insight sobre o essencial, numa estranha e aflitiva epidemia, que de uma forma ou de outra pode ser também uma metáfora da pouca atenção que damos aos nossos poderosos sentidos nessa vida tão cheia de superficialidades. Se fui muito longe? Pode ser, mas confesso que esse belo filme me pareeceu um soco com luva de pelica. Com um afago de esperança no final.
Veja o trailer, vale a pena.
ROTEIRO: Stephen King (livro), Frank Darabont
ELENCO: Tim Robbins, Morgan Freeman, Bob Gunton, William Sadler, Clancy Brown, Gil Bellows, Mark Rolston
Estados Unidos, 1994 (142 min)
Shawshank é o nome da prisão onde o banqueiro Andy (Tim Robbins, também em A Vida Secreta das Palavras) vai parar, acusado de matar sua mulher e o amante dela. Condenado a prisão perpétua, apesar de alegar inocência, passa 20 anos sonhando com a liberdade, embora a experiência já o tenha transformado um bocado. Imagino que seja desse ponto que surge o título em português. Mas, é claro, cai no clichê desnecessário, ainda mais se tem elenco forte, história boa e uma direção e roteiro muito alinhados. Portanto, fica registrado, mais uma vez, minha insatisfação com essas adaptações novelescas dos títulos.
Na prisão, Andy conhece Red (Morgan Freeman, também em Conduzindo Miss Daisy, Invictus, Winter, O Golfinho, Antes de Partir), preso 20 anos antes, acostumado com o esquema todo de contrabando, mandos e desmandos da prisão – inclusive, é parte dele. Daí nasce uma grande amizade. Aproveitando suas habilidades profissionais, Andy beneficia os presos com consultorias financeiras, enriquece o diretor com a evasão de divisas e lavagem de dinheiro e cria uma biblioteca. Todo esse panorama é inserido dentro das regras rígidas e implacáveis de uma prisão de segurança máxima nos anos 40 e 50, acompanhados cronologicamente pelos pôsteres de musas das época, passando por Rita Hayworth e Marilyn Monroe.
Dizer mais é revelar a chave do roteiro antes da hora e suas revelações. Bem amarrado e muito bem elaborado, ele constrói, ao mesmo tempo, relações de amizade e desconfiança, cumplicidade e hipocrisia, sob a narração sábia do personagem Red. E humaniza cada um dos presos, criminosos ou inocentes. Seja na sua fraqueza, na impossibilidade de se adequar a uma realidade diferente da prisão, no exercício de uma habilidade para que a justiça, de uma forma ou de outra, fosse feita. Um Sonho de Liberdade é, sobretudo, um filme sobre a amizade e da confiança – apesar do ambiente corrompido e de todos os outros pesares que vêm junto com ele.
ROTEIRO: Bridget O’Connor, Peter Straughan, John Le Carré (livro)
ELENCO: Gary Oldman, Mark Strong, Colin Firth, Tom Hardy, John Hurt, Stephen Graham, Roger Lloyd-Pack, David Dencik, Kathy Burke, Toby Jones, Benedict Cumberbatch, Ciarán Hinds
Inglaterra, França, Alemanha, 2011 (127 min)
Ainda bem que não assisti a O Espião que Sabia Demais no cinema. Quem foi achou confuso, rápido demais, cheio de personagens, flashbacks, tomadas cortadas. E claro, diálogos cifrados próprios da espionagem. Baseado no livro de John Le Carré, o filme é tudo isso propositalmente – uma maneira de retratar o ambiente já pouco glorioso do Serviço de Inteligência do Reino Unido no início dos anos 1970, quando está à margem da disputa entre a Cia e a KGB, mas ainda tem espiões que de fato sabem coisas demais. Em um ambiente que está à deriva da disputa internacional pelo poder, nada mais natural do que lavar a roupa suja.
Em DVD fica mais fácil entender a trama e rever alguma cena, caso algo importante tenha escapado. De fato as histórias dos personagens (conta com Colin Firth, também em O Discurso do Rei, Direito de Amar) vão se intercruzando e são apresentadas de uma maneira não-linear, o que confunde um pouco o espectador. Portanto, já digo de antemão que não é um filme para toda hora.
A trama toda é deflagrada por causa de uma fracassada operação em Budapeste. Um tiroteio não esperado deixa claro que há, entre o Circus, a elite do Serviço Secreto, um espião que é um agente russo infiltrado. Na investigação, liderada por George Smiley (Gary Oldman), o diretor sueco Tomas Alfredson (também do ótimo Deixa Ela Entrar) dá o tom de suspense perfeito com a trilha sonora e o roteiro picotado, em uma trama complexa que exige muita atenção.
Para quem gosta de espionagem, morte a sangue frio, gente dissimulada que faz de tudo para livrar a pele, é uma boa pedida. Mas esteja atento, senão você fica pelo caminho.
ROTEIRO: Jullie Bertuccelli, Bernard Renucci
ELENCO: Esther Gorintin, Nino Khomasuridze, Dinara Drukarova
França, Bélgica, Georgia, 2003 (103 min)
Na Geórgia independente, ex-república soviética, falta luz e água com frequência, além de emprego, oportunidades, prosperidade. Nada mais natural do que migrar, como fez Otar, para a Europa ocidental. Mesmo sendo médico, sujeita-se a trabalhar como pedreiro para ganhar a vida em Paris. E desde que Otar partiu, quem ficou na Geórgia faz disso um mito. Sua mãe Eka, uma senhora que viveu os tempos gloriosos de Stalin e ainda se gaba dessa época de “estabilidade”, acredita piamente que o filho é um herói. Ele parte, ela nutre seus dias com suas cartas, lembranças e um dinheirinho que ele manda.
É Eka quem comanda e dá o tom da narrativa da diretora francesa Julie Bertuccelli, também de A Árvore, publicada recentemente aqui no blog. Ao seu lado ficou o ramo feminino da família: sua filha Marina, ressentida e enciumada, faz parte da geração frustrada que teve a profissão e a possibilidade de uma vida melhor tolhidas pelo regime e sua queda; sua neta, Ada, uma moça inteligente e viva, que não vê perspectiva na Geórgia, mas que tem ainda acesa a chama do sonho de fazer uma carreira e viver em um lugar melhor. Elas coordenam a vida de Eka, sem perceber que Eka tem vida própria. Elas escondem um grande segredo, sem perceber que Eka também faz isso muito bem. O jogo de sabedoria e sensibilidade do filme nas questões humanas e familiares é muito interessante, fazendo, é claro, lembrar Adeus, Lênin! – em que também uma mentira tem como objetivo poupar alguém da dor, subestimando, assim, o olhar sagaz da maturidade.
Desde que Otar Partiu tem elementos opostos carregados de significado como a escuridão do apartamento e as luzes de Paris, o que torna o filme ainda mais sutil. E sensível, humano. A cena final do aeroporto, o entendimento de Eka do presente, passado e futuro é o que poderia se chamar de sabedoria.
ROTEIRO: Eric Eason, Roger L. Simon
ELENCO: Demián Bichir, José Julián, Eddie Piolin Sotelo, Isabella Rae Thomas
Estados Unidos, 2011 (98 min)
De uma maneira simples, sem grandes análises ou reflexões – isso fica por conta do espectador – Uma Vida Melhor faz um retrato de uma típica família mexicana, ilegal em Los Angeles. Sem pretensão, mas com profundidade, se a ideia for parar para pensar no assunto, o filme traz o olhar humano, e não vitimizado, sobre as pessoas que arriscam a vida para cruzar o deserto e buscar melhores oportunidades de vida nos Estados Unidos.
Carlos Galindo (Démian Bichir, também em Che, O Argentino, Che – A Guerrilha) é um mexicano, que cruza a fronteira como milhares de outros com suas famílias, filho pequeno, instalam-se em solo americano e aceitam qualquer emprego para começar a vida. Trabalha como jardineiro cuidando dos imensos jardins das mansões de Los Angeles e cuida sozinho de um filho adolescente, que ainda não se decidiu se vai à escola ou se entra na vida fácil e perigosa das gangues da cidade. Lutando para sobreviver todos os dias, não deixa de sonhar em ter sua própria caminhonete, conseguir seus próprios clientes e assim melhorar de vida. Pelo papel, Bichir foi indicado ao Oscar de melhor ator este ano. Dificilmente ganharia, ainda mais com a famosa concorrência, mas teve seu trabalho reconhecido.
É justamente pelo propósito do filme que Carlos Galindo não assume o papel de vítima sofredora e perseguida. Sofre um sério revés e a permanência nos Estados Unidos fica por um fio. É claro que, do lado de cá, ficamos pensando na injustiça, na falta de oportunidades, na dificuldade que é lidar com o problema do imigrante ilegal em qualquer lugar do mundo. Mas não me pareceu o foco do diretor Chris Weisz. Aqui ele não discute, não julga. Apenas mostra o panorama humanístico, a força da relação pai e filho e principalmente a força que tem o exemplo da atitude correta na formação do caráter.
ROTEIRO: Christopher Hampton, John Kerr
Elenco: Viggo Mortensen, Michael Fessberger, Keira Knightley, Vincent Cassel, Sarah Gadon
Inglaterra, Canadá, 2011 (99 min)
Nos cinemas: 30 de março
Do racional e pragmático, dos sonhos ao místico. Permeando por universos distintos a ponto de serem opostos, a mente humana é as duas coisas ao mesmo tempo. É o prático e o teórico; a atitude e o imaginário. Na tentativa e no fascínio de desvendar a psique humana, as duas mentes espetaculares de Freud e Jung pesquisam, sugerem, normatizam tratamentos na linha oposta dos tratamentos psiquiátricos até então praticados na Europa – e no mundo – e são os mentores da psicanálise como conhecemos hoje.
Um Método Perigoso, de David Cronenberg, fala desse momento, no início do século 19, em que Carl Jung (Michael Fassbender, também em Shame, X-Men – Primeira Classe, Bastardos Inglórios) trata uma paciente histérica e descontrolada com a terapia da fala, em que paciente conta suas emoções e sentimentos, de costas para o terapeuta. Faz isso inspirado no mestre Sigmund Freud (Viggo Mortensen, também em Um Homem Bom), que acredita serem as experiências sexuais a origem dos traumas humanos. A paciente é Sabina Spielrein (Keira Knightley, também em Apenas uma Noite, Não me Abandone Jamais, Desejo e Reparação, A Duquesa), que se apaixona por Jung, envolve-se com ele apesar de ser casado e acaba ela mesma se tornando uma importante psicanalista mais tarde.
Mas o filme vai além da relação mestre-pupilo e achei isso bastante interessante. Explica um pouco para nós, leigos, os conflitos entre os saberes dos dois pesquisadores e como a vida pessoal de cada um deles influencia na maneira de pensar e tratar o paciente. Em se tratando de mente humana e de seus mistérios, com o passar do tempo Jung questiona a eficácia do método de Freud de fazer o paciente elaborar o trauma através do seu próprio discurso, e envereda pelos sinais embutidos nos sonhos e da mística, acreditando ser este o trunfo para o paciente encontrar um novo caminho.
Depois de tanta psicanálise, vale dizer que o filme retrata lindamente os cenários da Áustria e Suíça da época, com uma reconstituição muito cuidadosa. Claro que é preciso interessar-se pelo assunto. Mas mesmo assim, eu diria que Um Método Perigoso tem um caso clássico de casamento, traição, atração, sexo e ciúme. É uma boa história, afinal. E rende muito assunto para o divã.
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