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Para Pensar

SILÊNCIO – Silence
CLASSIFICAÇÃO: Vale seu Ingresso de Cinema, Para se Emocionar, Para Pensar, Estados Unidos, Drama - 12/03/2017

Martin Scorsese quase virou padre. Eu não sabia. Mas fazer Silêncio, como ele fez, só tendo, realmente, uma visão e uma vivência diferenciadas da fé católica. É intenso demais pra ser feito por alguém que só passe raspando pelos dogmas e mistérios da religião e que se ancore, simplesmente, nos lugares comuns. Scorsese vai lá nas profundezas, questiona, escancara as dúvidas e as crenças da religião. Deixa nas telas um recorte maravilhosamente realizado e tocante da obra do japonês Shusaku Endo.

Silêncio é a história de um homem que aprende – tão dolorosamente – que o amor divino é mais misterioso do que imagina; que Ele deixa muito mais aos caminhos humanos do que percebemos; e que Ele está sempre presente, mesmo em seu silêncio”, diz o diretor no prefácio do livro que deu origem ao filme, que ele levou 20 anos para executar, desde a primeira leitura. Conta história dos missionários jesuítas portugueses do século 17 que, enviados ao Japão, tiveram que enfrentar a inquisição, a perseguição e foram obrigados a apostasia, ou seja, renúncia da fé católica.

Com uma crueldade atroz, Silêncio traz a figura daqueles que preferiram renunciar a morrer, assumindo o papel de traidores, assim como o apóstolo Judas. Lembrei o livro do escritor israelense Amos Oz Judas, em que ele provoca esse reflexão, trazida também por Endo: qual a função de Judas na perpetuação da fé católica? Como diz Scorsese “o escritor entendeu que, para que o cristianismo viva, se adapte a outras culturas e outros momentos históricos, é necessária não apenas a figura de Cristo, mas também a figura de Judas”. Verdade. Remete também a outra obra, Homens e Deuses, de Xavier Beauvois, em que o exercício da fé os leva até as últimas consequências. Filme belíssimo, profundo e único, esse Silêncio.

DIREÇÃO: Martin Scorsese ROTEIRO: Jay Cocks, Martin Scorsese, Shusaku Endo ELENCO: Andrew Garfield, Adam Driver, Liam Neeson | 2016 (161 min)

 

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PERSONAL SHOPPER
CLASSIFICAÇÃO: Vale seu Ingresso de Cinema, Para Pensar, França, Drama - 09/03/2017

Já disse aqui que Kristen Stewart conseguiu o que parecia o improvável: afastar-se da imagem vampiresca da saga Crepúsculo e construir uma carreira com personalidade. Seu parceiro Robert Pattinson não conseguiu – olho pra ele e vejo sempre um sujeito morto-vivo. Kristen não. Já quando embarca no road movie Na Estrada dá o ar da graça, vai solidificando sua presença, embora como coadjuvante, no outro filme do diretor francês Olivier Assayas, Acima das Nuvens, brilha do lado de Julianne Moore em Para Sempre Alice, pra realmente dizer a que veio sob direção de Woody Allen em Café Society. Agora, Personal Shopper é ele mesma – e praticamente sozinha.

Kristen faz um filme sobre consumo. Seu trabalho como personal shopper – alguém que escolhe roupas e acessórios para outro alguém, famoso ou não, que não tem tempo, paciência ou, teoricamente, bom gosto pra escolher para si próprio. Coisa esquisita, não saber o que gosta de vestir. Tem a história da construção do visual, pra quem é famoso e vive de vender sua imagem. Mesmo assim é um tanto quanto estranho. Enfim, Kristen é Maureen, uma moça que mora em Paris, garante uma grana cuidando comprando roupas, joias, acessórios para uma famosa enjoada e cheia de vontades, está passando pelo luto pela morte do irmão gêmeo e tem que lidar com seu fantasma rondando sua vida. É médium e percebe a presença do irmão na casa da família e em outros ambientes onde vai. Além disso, tem que lidar com outro fantasma que a assombra pelo whatsapp, que segue seus passos, sabe tudo sobre ela, a desafia a transitar pelo proibido (como provar as roupas da sua chefe enjoada e cheia de vontades) e transgredir. O filme é Maureen do começo ao fim, com suas angústias e dúvidas, transitando nos universos que não lhe pertencem: a fama, as roupas caras, o apartamento transado, as joias Cartier, o mundo virtual atual, a morte do irmão que já não existe mais.

A reflexão que nasce de Personal Shopper é genial. É como se não tivesse em solo firme. Tudo é transitório, tudo depende do olhar seletivo. Daquilo que você escolhe consumir. E se tem alguém que escolhe pra você, então fica ainda mais complicado lidar com as questões da vida. Tudo é simbólico. Maureen precisa acreditar para tocar a vida: na presença do irmão, na grana do emprego, no homem misterioso que manda mensagens e a seduz de alguma forma para um mundo inacessível. A gente também. Selecionamos a realidade que convém. Está cheio de fantasma rondando nossas vidas, fantasiados de passado e de futuro. A gente acredita, agarra com todas as forças e não solta a corda de jeito nenhum. Experimentar confiar no presente pode trazer uma experiência libertadora. Carregar o essencial, deixar pra trás o supérfluo. Um exercício. De novo, libertador.

 

DIREÇÃO e ROTEIRO: Olivier Assayas ELENCO: Kristen Stewart, Lars Eidinger, Singrid Bouaziz | 2016 (105 min)

 

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UM LIMITE ENTRE NÓS – Fences
CLASSIFICAÇÃO: Vale seu Ingresso de Cinema, Para se Emocionar, Para Pensar, Estados Unidos, Drama - 25/02/2017

O cenário é praticamente um só: o quintal que dá para a entrada da casa de Troy e Rose – um sobrado de tijolo atrás de um pequeno beco, em um bairro de uma grande cidade, em 1957. Baseado na peça de teatro Fences, Um Limite Entre Nós é sobre isso mesmo. Limites. Cercas. Muros internos que subimos, mesmo quando não são a primeira opção, para que o limite seja bem marcado.

Emocionante do começo ao fim. Troy e Rose são casados, juntos têm um filho adolescente, mas ele traz outro filho mais velho do primeiro casamento. Lidam com humor com as questões da vida, com garra diante das dificuldades de juntar dinheiro, com afeto diante do casamento, com amizade diante do amigo de 30 anos.

Mas as frustrações se acumulam no foro da intimidade e é preciso levantar a tal da cerca. “Há pessoas que constróem cercas para afastar as pessoas; outras constróem para manter as pessoas dentro”, diz o texto. De que são feitas as cercas? De raiva? De compaixão? Melhor assim –  a cerca se transforma em decisão, não em repúdio. Denzel Washington e Viola Davis dão um espetáculo de honestidade e vigor. Profundo, tocante e verdadeiro, Um Limite Entre Nós é um filme doído, mas necessário e corajoso.

 

DIREÇÃO: Denzel Washington ROTEIRO: August Wilson ELENCO: Viola Davis, Denzel Washington, Stephen Henderson | 2016 (139 min)

 

 

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A GAROTA DESCONHECIDA
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, França, Em cartaz, Drama, Bélgica - 24/02/2017

Demorei pra digerir o último filme dos irmãos Dardenne. Fui com muita sede ao pote – sou fã desse cinema realista, nu e cru, social e político, humano no retrato mais seco que se pode ter das facetas humanas. É assim em A Criança; suaviza e emite uma réstia de otimismo na raça humana em O Garoto da Bicicleta, volta pro viés individualista e cruel da sociedade mercantilista em Dois Dias, Uma Noite; e vai ladeira abaixo naquilo que o ser humano ainda tem de esperança nele mesmo em A Garota Desconhecida.

No meu breve comentário no post sobre o filme no Instagram (@cinegarimpo), logo depois que saí da cabine de imprensa, digo que faltou realismo, aquele retrato da realidade que tanto me emociona nos seus filmes. Algo não me caiu bem – como se a falta de verossimilhança tivesse me incomodado demais. Depois que li a crítica do jornalista Luiz Zanin no Estadão, entendi o que eu realmente havia sentido. Jean-Pierre e Luc Dardenne preferem a fábula à realidade como a conhecemos. Constroem um personagem quase fictício: uma médica jovem, altruísta na essência, um dia não recebe uma paciente em seu consultório porque o horário de atendimento já havia encerrado. Ao descobrir que aquela mulher morreu logo depois, sente-se responsável e não sossega, genuinamente, até reparar o dano.

Não que as pessoas não possam ser tão boas assim. Pelo contrário, sou otimista. Acredito sempre. Mas ficou morno. Esforçar-se para encontrar a emoção na obra dos irmãos belgas, não combina. Sua obra é latente, pulsante, perturbadora porque toca fundo na alma. No que há de mais puro – e escuro. Normalmente não exige esforço. Ser inverossímil rompe esse mecanismo. E cansa. 

DIRECÃO e ROTEIRO: Jean-Pierre e Luc Dardenne ELENCO: Adèle Haenel, Olivier Bonnaud, Jérémie Renier | 2016 (113 min)

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MOONLIGHT – SOB A LUZ DO LUAR – Moonlight
CLASSIFICAÇÃO: Vale seu Ingresso de Cinema, Para se Emocionar, Para Pensar, Estados Unidos, Drama - 24/02/2017

 

A divisão de Moonlight em três partes ajuda a envelopar a história do menino negro que pena com o bullying na escola e sofre com a mãe viciada em drogas, que vira adolescente retraído e pouco afetivo, que se torna um adulto seco e frio, mas que, lá no fundo, nutre uma ternura perdida pela vida.

Com a dureza própria do mundo em que a lei da rua prevalece, Moonlight, vencedor do Globo de Ouro na categoria melhor filme drama e de três Oscars – melhor filme, roteiro adaptado e ator coadjuvante para Mahershala Ali –, reserva algumas pérolas de solidariedade e compaixão que dão ao ele um equilíbrio quase que agridoce. Ao mesmo tempo que mostra a realidade nua e crua da infância abandonada pela figura materna, das amizades perdidas e não conquistadas, da ausência do pai, da devastação que causa o mundo ilusório das drogas, dos estragos que produz o bullying bem conduzido, o filme tem um bonito resgate do carinho que se dá sem pedir nada em troca, da amizade verdadeira que não tem tempo ou espaço, do poder do perdão sincero. Para se emocionar e pensar na diferença que faz a tomada de atitude.

Moonlight é econômico ao contar a história de Chiron. Não diz mais do que precisa, mostra a realidade hostil dessa periferia de Miami que judia, castiga e reserva poucas opções para a criança criada no mundo das drogas. Mesmo sendo seco, o que o diretor Barry Jenkins consegue é fazer transbordar afeto e amizade – mesmo onde não havia solo fértil. Sublime!

DIREÇÃO: Barry Jenkins ROTEIRO: Barry Jenkins, Tarell Alvin McCraney ELENCO: Mahershala Ali, Shariff Earp, Duan Sanderson, Janelle Monáe, Naomie Harris | 2016 (111 min)

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O APARTAMENTO – The Salesman
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Para Entender o Nosso Mundo, Irã, Garimpo na Locadora, Drama - 21/02/2017

O cinema iraniano não dá ponto sem nó. Justificar o conflito do filme em um prédio que corre o risco de desabar é como dizer que os alicerces da sociedade iraniana, da cultura censurada estão abalados. Asghar Farhadi faz filmes de gente comum, em que as situações estão no limite, em que é preciso resolver conflitos. Procurando Elly, por exemplo, vai além da moça que desaparece; é pano de fundo para discutir a condição da mulher muçulmana, a influência do ocidente, a relação homem-mulher no Irã, que se repente em O Passado, em A Separação. De novo, não tem ponto sem nó. Filmes densos, bem localizados na sociedade rígida e machista, mas que se aplicam, sim, aos contextos dos relacionamentos humanos em qualquer canto do mundo.

O Apartamento não foge à regra.  Entra mais a fundo na questão da honra masculina, numa sociedade em que a mulher é, explicitamente, propriedade do marido. Rana e Emad são atores, vão morar em um apartamento de um colega de trabalho e, enquanto se adaptam, Rana é violentada por um homem que invade sua casa. Louco de raiva – mas sem demonstrar afeto, nem acolhimento – o marido passa o investigar a identidade do agressor, em busca de vingança. Clima tenso: enquanto o marido escolhe o caminho da honra ferida, a mulher escolhe o perdão. Um Farhadi constrói um abismo entre o casal que, até então, parecia ter, na profissão e no teatro, a sinergia necessária para romper as barreiras da sociedade. Cenas marcantes, de um casal que se abandonou para mergulhar nas suas dúvidas e na sua solidão individual.

Aliás, o que fica é um abismo mesmo. Dá a impressão de que tudo será engolido pela distância que se cria ao construir um muro separando o afeto da tradição religiosa, o amor da expectativa da sociedade, o sentimento da honra. Metáfora das relações humanas, essa coisa do desabamento do prédio. Basta um abalo e vai tudo pro chão.

 

DIREÇÃO e ROTEIRO: Asghar Farhadi ELENCO: Taraneh Alidoosti, Shahab Hosseini, Babak KarimI | 2016 (125 min)

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AMANHÃ – Demain
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Para Entender o Nosso Mundo, França, Documentário - 28/01/2017

Em vez da gente ficar reclamando que o mundo está poluído demais, aquecido demais, destruído demais, ruim demais, que tal ir atrás de soluções? Por menores que sejam, as mudanças transformam, são capazes de fazer as pessoas replicarem as ideais e causam efeitos multiplicadores. Se gentileza causa gentileza, uma melhor qualidade de vida acaba, naturalmente, atraindo quem se identifica com ela. Aí, é só continuar no caminho.

Com isso em mente, a atriz e diretora francesa Mélaine Laurent (também em Bastardos Inglórios, O Concerto) e o marido, Cyril Dion, saíram pelo mundo em busca de cidades e comunidades que já adoram um estilo diferente de vida. A gente acha que, para que isso aconteça é preciso mudanças muito bruscas, abandonar tudo e mudar de cidade. Saiba você que não. Mesmo porque, o ótimo é inimigo do bom. Não dá pra começar pelo ideal.

Comece pelo possível e você verá que mudanças no dia a dia já fazem a diferença e elas vão, aos poucos criando outras possibilidades. Economia criativa, bairro autossustentáveis, hortas comunitárias e urbanas são algumas das soluções que já estão mudando o mundo por aí e este documentário mostra realidades que a gente nunca imaginou existirem. Gente que está realmente fazendo a diferente. Faz uma hortinha em casa, em vaso mesmo, e você já vai ver que algo de diferente brotou bem perto de você.

 

DIREÇÃO: Cyril Dion, Mélaine Laurent | 2015 (118 min)

 

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EU, DANIEL BLAKE – I, Daniel Blake
CLASSIFICAÇÃO: Vale seu Ingresso de Cinema, Para se Emocionar, Para Pensar, Inglaterra, Drama - 07/01/2017

Se fosse pra resumir em uma palavra, ela seria solidariedade. Se pudesse colocar mais uma, seria dignidade. Mais uma? Crueldade. Pois é, aí é que está a riqueza do filme de Ken Loach: traz opostos na sua mais genuína forma. A solidariedade bem nua, crua, genuína, sem moeda de troca; simplesmente acontece, com tem que ser com as pessoas de bem. A dignidade é mantida, mesmo que o universo conspire contra. E a crueldade… ahh, a crueldade vem arquitetada, montada de forma a dificultar, judiar, humilhar e nutrir uma sociedade mais injusta. Em uma semana em que a Finlândia anunciou que vai pagar um salário mínimo de 560 euros a desempregados, sem que eles tenham que provar que estão procurando emprego, este filme, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, cai como uma luva.

Daniel Blake é um marcineiro, que tem um problema no coração, ainda não pode voltar a trabalhar e recorre ao sistema de previdência social para receber seu seguro desemprego. Poderia ser no Brasil – dá até vontade de rir (aliás, este é um dos bônus do filme, que coloca como protagonista um ator de standup comedy – capaz de rir da própria trajédia). Rir pra não chorar: ele fica plantado no telefone tentando ser atendido, preencher os pré-requisitos, conseguir o benefício, ter o mínimo de atenção e ser tratado com o mínimo de respeito. Até que descobre que tem que fazer tudo isso online. Como, se não sabe com o esse mundo virtual funciona? Soa familiar?

As dificuldades são inúmeras e Daniel não desiste. Segue digno. Lutando. Conhece uma moça em situação crítica, com dois filhos pra cuidar, sem dinheiro, sem trabalho, sem esperança. Aqui entra a solidariedade. Genuinamente, porque assim é que deveria ser sempre.

Ken Loach, também diretor de Rota Irlandesa, A Parte dos Anjos, À Procura de Eric, consegue ser preciso: mostra o desvio de conduta da nossa sociedade que deveria acolher, ajudar o cidadão a viver e não a passar a vida correndo atrás do rabo. Ao mesmo tempo, consegue construir um Daniel e uma Katie íntegros, esperançosos, dignos e orgulhosos de quem são. Apesar dos pesares. Triste, claro, mas fica uma mensagem de esperança. Os finlandeses que o digam.

 

DIREÇÃO: Ken Loach ROTEIRO: Paul Laverty ELENCO: Dave Johns, Hayley Squires, Sharon Percy, Briana Shann | 2016 (100 min)

 

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O QUE ESTÁ POR VIR – L’Avenir
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Para Pensar, Garimpo na Locadora, França, Drama - 07/01/2017

De novo, ela. Quando comentei sobre Mais Forte Que Bombas, também deste ano, já falei que ela produz incansavelmente. A Religiosa, Dois Lados do Amor, A Bela que Dorme, Amor, Em Nome de Deus, Copacabana, Minha Terra, África, Elle – este, um dos melhores filmes de 2016. Mas diferente da mulher independente e poderosa executiva do filme de Paul Verhoeven, a mulher de O Que Está por Vir é mais doce, maternal, afetiva, familiar. E mais real – recorte da história universal e inspiração pra mulheres que precisam se reinventar com o que a vida apresenta.

Nathalie Chazeaux é um professora de filosofia conceituada, assim como seu marido de longa data. Juntos, criaram os filhos, cuidam de suas carreiras, têm uma vida em comum, interesses que se cruzam, uma terceira idade programada pra ser vivida juntos. Até que ela descobre que são três. Existe uma amante, Nathalie se vê sozinha, suas publicações não vão bem e é hora de sair da zona de conforto. Linda cena em que ela vê o ex-marido com a namorada na rua – não lhe pertence, essa opção. Segue a vida, se reinventa, sofre, mas descobre um lugar dentro dela que a faz renascer.

O Que Está Por Vir, que levou Urso de Prata pela direção em Berlim, é poesia da vida. Descoberta de o que fazer com o que a vida apresenta, viver a vida que nos cabe da melhor forma, dar as cartas do jogo. Nathalie experimenta essa liberdade. Sem drama extra, sem felicidade irreal, sem lustrar a pílula. Simplesmente ser feliz com o que se tem e poder tomar as rédeas do que se apresenta.

 

DIRECÃO e ROTEIRO: Mia Hansen-Love ELENCO: Isabelle Huppert, André Marcon, Roman Kolinka, Edith Scob | 2016 (102 min)

 

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ANIMAIS NOTURNOS – Nocturnal Animals
CLASSIFICAÇÃO: Vale seu Ingresso de Cinema, Suspense, Para se Emocionar, Para Pensar, Estados Unidos, Drama - 06/01/2017

Vale lembrar quem é Tom Ford: antes de cineasta, é estilista e responsável pela revitalização da Gucci. Portanto, olho bem aberto para a estética impecável de tudo que Ford faz – inclusive seu filme anterior, Direito de AmarAnimais Noturnos é de uma intensidade absurda – chega a rasgar o coração. Despeja, sem dó, o espectador dentro da tela, usando a estratégia de trazer uma história pra dentro da própria narrativa – tão bem amarrado que a gente até se esquece do que é a realidade da personagem, o que é ficção.

Vale dizer também que a Ford constrói dois mundos, bem distintos. Complementares, talvez. O claro, a sombra; o frio e impessoal, o confuso e caótico; o racional, o visceral. Susan, personagem da maravilhosa Amy Adams (também em A Chegada) – quanto talento em tanta frieza e insegurança! – e Tony, Jake Gyllenhaal (também em Evereste, O Abutre), vivem dois dramas. Na vida real, Susan e Tony foram casados, algo acontece e eles se separam. Susan se casa com um sujeito lindo e rico, que já a engana com outra. Vidas à parte. Susan lida com arte, é galerista – convive entre a perfeição da estética minimalista e contemporânea da arte, e o grotesco da vida real na pele das modelos que pousam na exposição da cena inicial. Sozinha e solitária, Susan recebe de Tony um livro escrito por ele, dedicado a ela. A história é de barbárie: a mãe e as duas filhas são violentadas e assassinadas por marginais na estrada, enquanto o pai fica refém dos assassinos. Chocante – e Susan devora o livro, assim como a gente devora a sua história pessoal.

Curioso Tom Ford, que é estilista da elite da moda, entrar a fundo nesse panorama do poder da imagem, da futilidade, da vaidade, da burguesia, do consumo. Faz uma reflexão importante. O que é, afinal, ficção e realidade? O terror de Susan era virar um espelho da sua mãe – conservadora e preconceituosa – e acaba repetindo o padrão, assim como previsto. Quantos de nós não repetimos e perdemos a essência, aquilo que somos. Animais Noturnos traz tudo isso, além da tensão de acompanhar relações humanas tão complexas na tela. E traz uma história de desamor – o que sempre é carregado de uma pitada de realidade.

 

DIREÇÃO: Tom Ford ROTEIRO: Tom Ford, Austin Wright ELENCO: Amy Adams, Jake Gyllenhall,  Michael Shannon, Aaron Taylor-Johson, Isla Fischer | 2016 (116  min)

 

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