DIREÇÃO e ROTEIRO: Michel Franco
ELENCO: Tessa Ia, Hernán Mendoza, Gonzalo Vega Sisto, Francisco Rueda, Paloma Cervantes
México, França, 2012 (103 min)
Nos cinemas: 22 de março
Adoro a categoria Un Certain Regard – uma amostra paralela que ocorre no Festival de Cannes (há outros filmes desta categoria Um Certo Olhar no blog). Prescinde de explicações: ela seleciona e premia filmes que abordem um tema sob um prisma diferente, inusitado, sob outra perspectiva. E mais, dá a chance de diretores desconhecidos virem à tona. Tudo isso pra dizer que Depois de Lúcia foi o vencedor da categoria em 2012 e é, de fato, arrebatador.
Toca no assunto polêmico e muito atual (não que não existisse antes, convenhamos) do bullying. É que agora, dado nome aos bois, rotula-se tudo de bullying. Maus tratos em casa e na escola, com intenção de diminuir, criticar, depreciar o outro é bullying. E a coisa está ficando muito séria, ainda mais com novas ferramentas eletrônicas de intimidação.
Há cenas em Depois de Lúcia que realmente dão vontade de fechar o olho. É o que muitas escolas e pais têm feito, inclusive. Mais fácil, assim não dá mais trabalho do que já é natural. Ou ainda, o que é pior: muitas vezes fica difícil perceber. O medo paralisa, afinal de contas. Alejandra (Tessa Ia) tem 15 anos, perde a mãe e tem que sair de uma pequena cidade litorânea e se mudar para a Cidade do México por causa do emprego do pai. Amoroso e preocupado, este pai precisa se adaptar à nova rotina sem a esposa e conta com uma relação boa com a filha – o que seria um grande trunfo e um porto seguro para os dois diante das ameaças da nova vida.
Mas a realidade escolar de Alejandra não é bem o que ela imaginava e a comunicação com o pai fica truncada, superficial. As armadilhas são constantes, deliberadamente aramadas pelos colegas dissimulados, egoístas e egocêntricos. Assédio, intimidação, humilhação constantes. Física, emocional, verbal. O retrato é cruel, mas o olhar do diretor é preciso, sofrido e muito real. Pais, educadores, adolescentes: assistam! É perturbador, mas necessário.
DIREÇÃO: Samira Makhmalbaf, Claude Lelouch, Youssef Chahine, Danis Tanovic, Idrissa Ouedraogo, Ken Loach, Alejandro González Iñárritu, Amos Gitai, Mira Nair, Sean Penn, Shohei Imamura
Estados Unidos, França, Inglaterra, Japão, México, Irã, 2002 (134 min)
Um mesmo tema, sob diferentes perspectivas. Assim como na série de filmes sobre cidades do mundo, chamado Cities of Love (que já tem Paris, Eu Te Amo e New York, Eu Te Amo e ainda promete Rio, Jerusalém e Xangai), diretores de diversas partes do mundo foram convidados a fazer um curta sobre um assunto: o atentado terrorista às Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001. Cada um teria 11 minutos e 9 segundos para imprimir sua emoção sobre o assunto e o que se vê são 11 filmes diferentes, com linguagens, culturas, pontos de vista e emoção distintos. Gosto desse tipo de trabalho, ainda mais num tema tão perturbador como a intolerância religiosa, a violência a qualquer custo, a luta pelo poder transformada na sua forma mais perturbada de expressão que é o terrorismo.
Assim como a torre de babel que é Nova York – e eram as torres que desabaram no coração de Manhattan – 11 de Setembro introduz cada um dos curtas localizando no mapa mundi a nacionalidade do diretor. Globaliza o fato, suas consequências, sua dimensão. Do Irã, Samira Makhmalbaf (também de Às Cinco da Tarde, Green Days) mostra lindamente uma professora tentando mostrar a crianças afegãs refugiadas no Irã a dimensão do atentado para o mundo; da França, Claude Lelouch (também de Um Homem, Uma Mulher, Esses Amores) mostra o silêncio e isolamento do mundo da uma surda-muda em contraste com o caos do atentado; do Egito, Youssef Chahine conta como um diretor de cinema sente compaixão pelas vítimas de qualquer forma de violência (não me tocou muito, é verdade). Da Bósnia-Herzegovina, Danis Tanovic remete à Guerra da Bósnia, ao massacre de Srebrenica, também intolerância religiosa; de Burkina Faso, Idrissa Oudraogo mostra garotos deste paupérrimo país africano tentando prender Bin Laden, quase uma aventura; da Inglaterra, Ken Loach (também de À Procura de Eric) faz um paralelo com o 11 de setembro de 73, quando Allende é deposto no Chile, através de um chileno refugiado em Londres – muito interessante.
Do México, Alejandro Gonzalez Iñarritu (também de Biutiful, Babel, 21 Gramas, Amores Brutos) causa estranheza com a ausência de imagens, cenas de pessoas se jogando das torres – para chocar e fazer refletir, como de costume; de Israel, Amos Gitai (também de Aproximação, Free Zone, O Dia do Perdão), mostra o atentado a bomba em Jerusalém, que aconteceu ao mesmo tempo do que o ataque às Torres Gêmeas – confusão de sentimentos, nacionalidades, morteos, tragédias humanas entrelaçadas; da Índia, Mira Nair enfatiza o sentimento contra os muçulmanos em todo o mundo depois atentado; Sean Penn (também de Na Natureza Selvagem) dirige um curta poético, sobre a sombra do WTC nos prédios vizinhos; e do Japão, o filme menos envolvente e mais abstrato, Shohei Imamura não faz referência ao atentado em si, mas às guerras santas – ou ausência delas.
Como disse, gosto desse tipo de trabalho que propõe uma exposição sem restrições e sem censura, algo realmente autoral.
DIREÇÃO e ROTEIRO: Alvaro Curiel de Icaza
ELENCO: Silverio Palacios, Enrique Molina, Laura de la Uz, Luis Alberto García, Norma Angélica, Salvador Sánchez
México, 2011 (97 min)
Curiosa essa leitura da procura mexicana pelo além mar – entenda-se Estados Unidos. Aqui, o diretor estreante Alvaro Curiel de Icaza usa justamente (e literalmente) a imigração para o vizinho americano como tábua de salvação para fugir da estagnação e falta de perspectiva mexicanas.

A idealização de que a realidade americana é realmente a solução para todos os males é mostrada aqui em forma de sátira. O próprio título Acorazado é um exemplo – significa em português “couraçado”, numa alusão às embarcações de guerra, paramentadas e protegidas – o que não é absolutamente o caso da balsa-fusca de Silverio.
Aconselhado por um amigo também ex-sindicalista, Silverio Palacios (ele mesmo) decide deixar a família. Mas o conselho vai além: é preciso ir via mar, de balsa, e fingir ser um refugiado político cubano, em plena fuga do comunismo. Se fosse assim tão fácil, todos fariam o mesmo. Fato é que a precariedade de Silverio na travessia – e de todos aqueles que tentam fazer o mesmo – não termina como ele esperava. Em vez das praias da Flórida, desembarca no litoral de Cuba. Agora precisa inverter o discurso e dizer que está fugindo do capitalismo. Tudo para não ser deportado. Há situações curiosas, inclusive no que diz respeito ao colapso da moeda, da economia, do sistema de saúde, da qualidade de vida dos cubanos, da ética. E, logicamente, de toda a enganação decorrente do sistema comunista na ilha.
Com humor, situações exageradas, música e novos amigos cubanos – claro, trata-se de uma sátira – Acorazado ironiza essa idealização que se faz da vida nos Estados Unidos – muito embora seja realmente a tábua de salvação para milhares que aí chegam, e outros tantos que recebem em seu país de origem as remessas de dinheiro vindas de quem arriscou a vida. O personagem é bom, o filme tem humor e não foca no drama – o que é bom de vez em quando.
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PROGRAME-SE:
Ingressos online: Ingresso.com
21 out / 19h00 - CINUSP
Rua do Anfriteatro, 181, Colmeia Favo 4 / CEP: 05508-900 / Tel: 3091-3540.
22 out / 22h10 - ESPAÇO UNIBANCO POMPÉIA – Bourbon Shopping
Rua Turiassu, 2100, 3° Piso, Pompéia / CEP: 05005-900 / TEL: 3673-3949.
26 out / 15h50 - CINE LIVRARIA CULTURA – Conjunto Nacional
Av. Paulista, 2073, Cerqueira César / CEP: 01411-000 / TEL: 3285-3696.
30 out / 17h00 - CINE OLIDO
Avenida São João, 473, Centro / CEP: 01035-000 / TEL: 3397-0158.
DIREÇÃO: Alejandro González Iñárritu
ROTEIRO: Guillermo Arriaga
ELENCO: Emilio Echevarría, Gael García Bernal, Goya Toledo, Álvaro Guerrero, Vanessa Bauche, Jorge Salinas, Marco Pérez
México, 2000 (154 min)
Fiz o caminho inverso, mas acho que no fim foi bom. Amores Brutos é o primeiro filme da trilogia de Iñárritu com o roteirista Guillermo Arriaga, seguido de 21 Gramas e do premiado Babel. Os três filmes são ligados não só pela sintonia diretor-roteirista, tão importante para a identidade e qualidade de uma produção, mas também - e eu diria, principalmente – pelo tema e formato. Através de histórias de vida fragmentadas e aparentemente desconexas, eles constroem um todo, um contexto de vidas confusas, desmanteladas, destruídas pelo acaso e que precisam urgentemente ser revistas.
Sendo o primeiro dos três, Amores Brutos é o mais sombrio de todos e tive a impressão de ser o menos lapidado, o mais bruto mesmo. Ironicamente é o que mais me lembra o recente Biutiful (em cartaz, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro), por esse aspecto escuro, pelo submundo que retrata. Esteticamente é o mais parecido, embora a história de Biutiful trate de um só personagem e sua trajetória. Amores Perros (título original) faz alusão a um dos núcleos do filme – personagens da periferia que ganham a vida com briga de cães, intrigas, revanche, traição e violência. Outro personagem é um mendigo, que nem sempre foi pedinte e que colhe o resultado de suas escolhas na vida. Por fim, o lado rico da história, de gente famosa e bonita, da modelo e do publicitário, que também traçam seu caminho e a vida lhes impõe um duro e cruel desafio. Assim como em 21 Gramas, o gatilho para as histórias se cruzarem é um acidente de carro. A partir daí, nada mais será igual e a gente passa o filme querendo saber como tudo termina.
A ironia dos filmes de Iñárritu é que nada termina. Ele faz questão de deixar claro que o seu retrato na tela é uma fração da vida dessas pessoas, um resultado de suas ações e escolhas ou mero acaso. Acaso esse que pode ser muito cruel. O filme prende, embora seja bem mais longo (são 2h30), e vale a pena. Melhor ainda se você puder assitir à trilogia. Mas prepare-se, porque no universo do diretor mexicano parece não ter vida fácil.
DIREÇÃO: Alejandro González Iñárritu
ROTEIRO: Alejandro González Iñárritu, Armando Bo, Nicolás Giacobone
LENCO: Javier Bardem, Maricel Álvarez, Eduard Fernández, Cheikh Ndiaye, Diaryatou Daff, Cheng Tai Shen
México, 2010 (147 min)
A filha pergunta ao pai como se escreve beautiful, para que a palavra complete seu desenho. Ele soletra b-i-u-t-i-f-u-l e assim ela registra e adjetiva aquele momento simp
les, cotidiano e bonito de um pai que cuida dos filhos, apesar de todos os pesares. E os pesares são muitos. Uxbal (Javier Bardem, também em Mar Adentro, Vicky Cristina Barcelona, Comer, Rezar, Amar) é esse pai amoroso, que tem de lidar com a ex-mulher bipolar, com as dificuldades do submundo de Barcelona, com as lembranças do pai que não conheceu. Mas só faz esse balanço quando sabe que vai morrer.
Esse emaranhado de escolhas e conjunturas da vida vem na forma do câncer que o aproxima da morte e na forma dos mortos que Uxbal é capaz de ver. Vem impresso na economia informal da cidade, na sua condição de sobrevivente urbano, no imigrante clandestino e no produto pirata, no trabalho forçado e escravo, na perda da legalidade, na consciência pesada por participar de tudo isso, na culpa por não conseguir ser diferente. O forte do filme não é só essa condição desumana de vida, mas a linha tênue entre a dignidade e o desumano das relações, entre a compaixão e a cruel realidade.
Diferente de Babel, o diretor Alejandro González Iñárritu constrói aqui um só personagem e uma narrativa linear. Mas em ambos ressalta a dualidade do ser humano que quer acertar, mas erra o caminho; que quer se reconciliar com o bem, mas escolhe as ferramentas erradas. Uxbal é assim. Um sujeito intenso, sensitivo, conturbado, desiludido. Por isso Biutiful tem uma atmosfera atormentada – e talvez por esse motivo não tenha levado o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro (que premiou o dinamarquês Em Um Mundo Melhor), embora Bardem tenha sido o melhor ator em Cannes. O filme é forte e perturbador e por isso a escolha do título me pareceu tão importante e significativa. Há momentos bonitos na vida perturbada de Uxbal; há boas intenções nas escolhas mal feitas do personagem e há beleza na dureza do registro do diretor mexicano. É preciso ler nas entrelinhas e estará escrito assim mesmo: biutiful.
DIRETOR: Simon Brós
ELENCO: Ximena Ayala, Elena de Haro, Marco Trevino, Elisa Vicedo, Aurora Cano
LOCAL /ANO: México /2007

“Uma pessoa só para de comer quando está muito cheia… ou muito vazia.”
Maus Hábitos é uma reflexão realmente sensível sobre a comida: ora preenche o corpo e a alma; ora causa o efeito contrário, sendo associada à culpa e ao sofrimento.
O eixo do filme são as mulheres – do mesmo núcleo familiar, ligadas não pela afetividade, mas pela intimidade com questões e distúrbios alimentares. São três. Primeiramente temos Matilde, uma jovem freira que acredita que o sacrifício está diretamente ligado ao milagre, seja o sacrifício de comer algo estragado, seja o do jejum. Temos Elena, tia de Matilde, cuja vida é dirigida pela anorexia, obcecada pela magreza, pelo exercício físico até a exaustão, mesmo que isso lhe custe o casamento e a saúde. As cenas em que aparece sozinha são praticamente assépticas - como se privadas de tudo, principalmente de sentimentos, sem personalidade ou humanidade. Por fim, há Linda, filha de Elena, que é gordinha e tem a vida transformada em um inferno pela mãe, que precisa ver a filha magra para sua primeira comunhão. Sente-se hostilizada, injustiçada e extremamente infeliz com o ambiente doentil em que vive.
Para a primeira eucaristia, quem prepara a menina é Matilde, que trata da questão alimentar de uma maneira peculiar. Ensina a garota que “ter fome não é pecado”, mas ela própria não consegue se render aos prazeres da mesa, nem mesmo alimentar-se, tomada sempre pela culpa. Culpa essa que permeia toda as questões levantadas dentro do convento, o pecado da gula e os prazeres – tudo isso enfatizado pelos cenários escuros, sombrios, chuvosos das tomadas de cenas religiosas, e por frequentes visões e pesadelos.
Em oposição ao trio está Gustavo, marido de Elena. Come com gosto e prazer e traça uma pizza depois do trabalho sem sentir-se culpado – e deveria? E é por causa da comida que se encanta com uma estudante bem gorducha, que também não tem problema nenhum em assumir suas curvas e desejos – inclusive sexuais, em que a comida também está sempre presente.
Esse é o panorama – de tão atual, cada vez mais presente; de tão delicado, cada vez mais perigoso. Vale realmente a reflexão.
VEJA EM DICAS AFINS : Igreja e comida andam realmente lado a lado. O Mosteiro de São Bento, em São Paulo, vende pães e doces feitos pelos monges beneditinos.
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