DIREÇÃO e ROTEIRO: Hirokazu Koreeda
ELENCO: Koki Maeda, Ohshirô Maeda, Ryôga Hayashi
Japão, 2011 (128 min)
Nos cinemas: 18 de maio
O que Koichi, o garoto do pôster, mais deseja é ver sua família morando junto novamente. Seus pais se separaram e seu irmão mais novo, Ryunosuke, ficou morando com o pai em outra cidade, enquanto ele e a mãe foram para a casa dos avós. Na cabeça de uma criança de 12 anos e de seus amigos, um milagre é algo possível – e principalmente factível. Nem que para isso seja preciso vender brinquedos para conseguir dinheiro, inventar uma mentira na escola e em casa, fazer as malas e pegar um trem para outra cidade sem ter onde dormir,
Além de leve e criativo, O Que Eu Mais Desejo toca nesse ponto importante do imaginário infantil, que faz tudo ser possível. No Japão, dizem que quando dois trens-balas se cruzam, a energia é tão grande que faz os desejos se realizarem. Acreditando nisso, as turmas dos dois irmãos, cada uma na sua cidade, montam o esquema para a aventura. Combinam de se encontrarem num ponto estratégico de uma determinada cidade, onde é possível ver os trens se cruzarem. Sem qualquer complicação ou empecilho, comuns aos adultos, é claro.
Com muita delicadeza, o filme mostra a alma da relação dos irmãos com o mundo, com os pais, com os amigos. Registra, sem interferir. Deposita a sensação de veracidade nas relações e nos sentimentos, de algo genuíno, ingênuo como deve ser nessa idade, verdadeiro nas intenções. Mais do que contar a aventura em si – que é muito bacana também - O Que Eu Mais Desejo é lindo pelo retrato que faz das crianças e da esperança que eles são capazes de nutrir na mais vaga possibilidade de sucesso. Sem falar na incrível atuação dos dois irmãos (são irmãos na realidade), que me envolveram na narrativa com todos os seus desejos e sorrisos.
Dê uma espiada no trailer abaixo – vale a pena!
ROTEIRO: Akira Kurosawa, Kiyoko Murata (livro)
ELENCO: Sachiko Murase, Richard Gere, Hisashi Igawa, NArumi Kayashima, Tomoko Ôtakara, Mitsunori Isaki, Toshie Negushi
Japão, 1991 (98 min)
Alguns falam, mas não dizem nada; outros preferem o silêncio, que é mais eficiente que um discurso inteiro. Com sábias palavras como essas, olhares, gestos e silêncio, a matriarca da família japonesa atravessa o tempo de dor pela perda do marido na explosão da bomba atômica de Nagasaki em 1945, da destruição da cidade, da necessidade de seguir viva, cuidando, educando e transmitindo sabedoria e paciência às novas gerações. Na cultura japonesa já ocidentalizada em muitos aspectos, Rapsódia em Agosto é um exercício de compreensão dos sentimentos e razões para se viver em cada uma das épocas. Filme de observação.
A senhora Kane é uma sobrevivente da guerra. Perdeu o marido ainda jovem, separou-se dos irmãos que foram se dispersando para outros cantos. O que foi para o Havaí, casa-se por lá, forma uma família ocidental, faz fortuna e perde o contato com os familiares e com a cultura japonesa. Quando os sobrinhos vão visitar o tio (pai de Richard Gere) que está morrendo nos Estados Unidos, os quatro netos adolescentes têm a chance de conviver com a avó e com o rico e antiquado, mas não menos importante, repertório e vivência desta senhora.
Rapsódia em Agosto traz questões muito interessantes sobre as heranças históricas e familiares que cada geração carrega. A geração pós-guerra japonesa carrega o trauma da bomba nuclear e a americana, a culpa por isso, da mesma forma que os alemães têm que conviver com o fantasma do nazismo dos tempos de Hitler (falamos disso em filmes alemães como Se Não Nós, Quem?). Como as gerações processam as atitudes passadas e elaboram o perdão e a culpa? Uma senhora, que viveu os horrores da bomba atômica e suas mais cruéis consequências, consegue perdoar e ensinar a perdoar, mas não a esquecer. O ritual de homenagensàs vítimas do ataque em agosto são singelos e de forte impacto, e se perpetuam no tempo.
Assim como em Marcha da Vida, em que judeus que viveram o Holocausto percorrem o caminho entre os campos de concentração com jovens, para que o passado não seja esquecido e que os ensine a olhar para frente e construir um mundo melhor, a senhora japonesa de Rapsódia em Agosto faz esse papel. Ensina seus netos a não guardar rancor, a lembrar para não repetir. O que deve apaziguar a alma, mas não diminuir a dor.
Rapsódia em Agosto é um singelo e bonito retrato da passagem do tempo. A dor é retratada pelo esforço (a última cena da chuva), pela sabedoria, pela lembrança. O importante diretor japonês Akira Kurosawa entrega aos jovens a carga da esperança, da construção de um mundo com menos mágoas. Deposita neles o futuro, mas enaltece a importância do passado, da história, das raízes e da família.
DIREÇÃO e ROTEIRO: Hayao Miyazaki
Japão , 2008 (101 min)
Coincidentemente, foi a recente tragédia natural no Japão que me fez lembrar de Ponyo – Uma Av
entura que Veio do Mar. Inclusive porque não assisti no cinema e fiquei com o filme pendente, esperando que ele caísse nas minhas mãos. Sabia que se tratava da amizade de um garoto de 5 anos com um peixinho-dourado, mas não sabia que o mar estaria retratado com tanta veemência e importância no filme, inclusive no que diz respeito aos tsunamis. Coincidentemente, o filme mostra que as ondas gigantes fazem parte do imaginário japonês (bastante real, diga-se de passagem) e que está presente nas lendas e histórias que são passadas de geração em geração. Apesar do meu atraso, acho que cheguei para ver Ponyo em boa hora.
Essencialmente a história fala da amizade, da possibilidade de entendimento entre pessoas tão diferentes, desde que haja pré-disposição e real vontade. Ponyo se torna uma menina livre das amarras do pai e abre mão de seus poderes mágicos em troca de uma amizade verdadeira. De forma bastante singela, com desenhos realmente lindos feitos pelo próprio diretor e sua equipe do estúdio de animação japonês Ghibli, Ponyo tem um apelo ecológico, quando fala da sujeira deixada pelo homem no fundo do mar, misterioso, quando fala da força existententes nos mares, mais poderosa do que os humanos podem imaginar, mas principalmente humano. É claro que o visual é bem diferente da animação americana, a que estamos mais acostumados. Mas achei que fosse ver um filme com ritmo mais lento. Ledo engano. Ponyo tem aventura, emoção e muita força. Acho inclusive que, se não der para ver em família, os adultos também vão gostar.
DIREÇÃO e ROTEIRO: Kiyoshi Kurosawa
ELENCO: Koji Yakusho, Tsuyoshi Ujiki, Anna Nakagawa, Masato Hagiwara
Japão, 1997 (115 min)
Cura abriu o Indie Festival 2010. Em uma breve explanação de abertura, a curadoria revelou que a garimpagem da obra de Kiyoshi Kurosawa trouxe gratas surpresas, entre elas o fato de seu olhar mostrar um Japão bastante diferente daquele pragmático, organizado e previsível de que temos notícia. De fato, Cura é o oposto disso. É uma amostra de uma sociedade confusa, sem memória ou identidade, procurando espaço para seus desejos e anseios na rigidez tradicional do sistema. É um enfoque interessante, sem dúvida.
De maneira prática, este filme de Kurosawa é um suspense incrível, que transcende a lógica e a normalidade do acontecimento das coisas. Não que um assassinato tenha lógica, mas presume-se que a pessoa assassinada seja morta pelo assassino. Aqui não - ela é morta por alguém absolutamente idôneo, comandado por forças que a lógica não explica. O detetive feito por Koji Yakusho (também em Babel) investiga os crimes. Através do rapaz que sofre de amnésia, são levantados os mais íntimos e secretos desejos humanos - ’devidamente’ distorcidos, se é que é possível dizer isso – para que venham à tona os anseios mais secretos, indesejáveis e inaceitáveis do ser humano.
Cada um sente à sua maneira, é verdade. Fato é que o filme é acompanhado com muita atenção e muita tensão, pelo crescente do suspense e do controle da mente humana. Tudo isso veio depois, pensando friamente sobre o filme. Mas no calor dos acontecimentos, o que se tem é uma trama muito bem montada, um surrealismo que prende a atenção e faz pensar no limite da mente humana, no controle que imprimimos em nossa própria vida. Ou no descontrole – seria mais apropriado.
Confira a programação no site: www.indiefestival.com.br.
ELENCO: Masahiro Motoki, Tsutomu Yamazaki, Ryoko Hirosue, Kimiko Yo
LOCAL, ANO: Japão, 2008
Oscar de Melhor Filme Estrangeiro 2009
Reza a tradição milenar japonesa que o morto deve ser arrumado, maquiado, penteado, para ser colocado caixão com uma aparência impecável, “como se estivesse vivo”. É um ritual, feito diante de toda a família. Só então o corpo é cremado. A Partida mostra bem como isso se dá e é interessante para nós, ocidentais, que temos uma cultura tão diferente.
Mas essa é a parte prática do filme. Ele vai além. Conta a história de Daigo, violoncelista de Tóquio que perde o emprego e se muda com a esposa para sua cidade natal. Consegue trabalho como assistente funerário: prepara os mortos para a “partida” definitiva, da maneira japonesa. É justamente esse o ponto da virada. Ao lidar com os mortos, com o sofrimento de seus familiares, com as histórias de vida que ouve enquanto está preparando os corpos, aguça seu lado sensível e reflete sobre suas perdas no decorrer da vida, sobre a falta que o pai lhe fez desde que o abandonou quando criança, sobre o rancor que sente e o sentido que precisa buscar para seguir em frente.
O fime tem uma plasticidade muito agradável, cenários bem cuidados (repare na casa de Daigo por dentro, que interessante!). Apesar do tema triste (afinal, fala de morte), eu diria que é um filme alto astral. Tem trilha sonora que coloca para cima, algumas vezes com ele próprio tocando violoncelo ao ar livre - o que dá a sensação de que a história caminha para um fim positivo, construtor. Intuição feminina, nada mais.
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