ROTEIRO: Gleen Close, John Banville
ELENCO: Gleen Close, Janet McTeer, Mia Wasikowska, Aaron Johnson, Pauline Collins, Mary Doyle Kennedy
Inglaterra, Irlanda, 2011 (113 min)
Que opção tem uma mulher pobre, sem recursos, família, herança, senão ser homem na Irlanda machista e católica do fim do século 19? Ficamos sem saber o nome dessa órfã, que vê na oferta de emprego como garçom em um hotel a oportunidade de sobreviver dignamente na cidade de Dublin. Assim surge Albert Nobbs, que assume o papel do sério, dedicado e austero funcionário de um badalado hotel, na pele da simplesmente fantástica Gleen Close. Não se trata de se vestir de homem, mas sim de incorporar a postura, gestos, expressões masculinas, ainda que tenha um toque assexuado. Quase não se percebe a linha que separa os dois mundos, mas a impressão que dá é de um homem ao mesmo tempo determinado e frágil, introspectivo e carente. Impecável maquiagem, impecável interpretação.
Albert Nobbs, no auge da sua elegância, conhece Hubert Page (Janet McTeer) e seus segredos se mesclam numa história só. Hubert também é uma mulher que se passa por homem, por motivos distintos porém semelhantes do que diz respeito à aceitação, oportunidade, trabalho. Concorrendo ao Oscar de melhor atriz e atriz coadjuvante respectivamente, Gleen Close e Janet McTeer dão um show, deixando Helen, vivida por Mia Wasikowska (também em Alice no País das Maravilhas, Minhas Mães e Meu Pai, Inquietos) bem para trás. Mas é por ela que Albert Nobbs se apaixona à sua maneira e é com ela que planeja mudar de vida, abrir seu próprio negócio e ter autonomia.
Não é filme para o grande público. Ainda mais em época em que grandes lançamentos ocupam muitas salas de cinema. Mais lento e o que eu chamaria de “filme de observação” (não perca um só gesto do gentil e minucioso Nobbs), Albert Nobbs tem uma beleza estética marcante, mas também humana. Mesmo na Dublin desumana, assolada pela tifo dos piolhos e pelo desemprego daquele fim de século.
ROTEIRO: Terry George, Jim Sheridan, Gerry Conlon (livro)
ELENCO: Daniel Day-Lewis, Emma Thompson, Pete Postlethwaite, Anthony Brophy, Frankie McCafferty, Mark Sheppard
Irlanda, Reino Unido, 1993 (133 min)
O “pai” do título não é Deus – muito embora o conflito entre Irlanda do Norte e Inglaterra também permeie a intolerância religiosa. Estamos nos anos 1970, quando unionistas protestantes queriam continuar respondendo para Londres, mas os nacionalistas católicos achavam que deveriam voltar a fazer parte da Irlanda. Por isso criam seu braço armado, o IRA (Exército Republicano Irlandês), para lutar contra a presença inglesa no país. Durante mais de 30 anos, os atos terroristas mataram inocentes e prejudicaram a Irlanda do Norte como um todo.
De fato “pai” poderia ser uma referência à luta armada em nome de Deus – assim como muitas outras cruzadas foram justificadas pela religião. Faria todo o sentido. Mas aqui é a luta em nome do pai biológico, condenado, junto com o filho, por um crime cometido justamente pelo IRA, e não por eles, em Londres. A família Conlon é julgada e presa injustamente. Daí a luta pela justiça e liberdade.
O filme é de 1993, mas a questão é bastante atual. Lembrei dele quando vi Nine, também com Daniel Day-Lewis. Lembrava da sua atuação brilhante e de que através de seu personagem conhecemos a ideologia do grupo terrorista IRA e sua brutalidade, além da atitude comum da juventude britânica dos anos 70, no culto das drogas, do sexo e do rock. Preste atenção nas roupas, na ambientação. O retrato é interessante. A cena em que mostra esses jovens inconsequentes, baderneiros e descompromissados no seu “apartamento” londrino caindo aos pedaços me fez lembrar a Londres de hoje. A cidade que mantém as fachadas vitorianas, tem o interior repaginado com o que há de mais moderno, fashion e badalado – vide as lojas e os hotéis charmosos que há por lá. Metafórico talvez de como a Inglaterra se comporta hoje e ontem, do seu conservadorismo, da quebra de protocolos e paradigmas.
Atualmente os dois braços políticos coexistem pacificamente e formam o governo de coalizão, embora ainda haja grupos dissidentes criando conflito. Hoje a província britânica da Irlanda do Norte já tem mais autonomia, com os poderes de polícia e justiça centrados em Belfast, e não mais Londres. Tanto melhor. Cada um que cuide do seu. Por essas e outras, vale rever para lembrar e entender melhor o nosso mundo. Vale rever – nem que seja para apreciar uma história realmente muito boa.
DIRETOR: John Carney
ELENCO: Glen Hansard, Marketa Irglova
LOCAL /ANO: Irlanda/2006

É como se eles já se conhecessem. Como se sempre tivessem cantado juntos. E como se nós, espectadores, estivéssemos ali só por acaso vendo uma pequena-grande história se desenrolar.
A cena inicial do filme cativa pela linda canção e pela câmera que tem um tomada, digamos, casual, praticamente caseira. A atriz tcheca Marketa Irglova interpreta um imigrante de mesma nacionalidade, que luta para viver em Dublin. Trabalha informalmente vendendo flores na rua, mas sonha em viver da música e do piano. Glen Hansard (irlandês) é quase ele próprio – músico que trabalha na loja de consertos do pai e que toca nas ruas de Dublin atrás de uns trocados. Sonha também em viver da música. Ao vê-lo tocar na rua, Marketa se encanta com a canção, provoca um encontro seguinte ao piano. A sintonia é imediata: ela aprende com rapidez a tocar uma de suas composições (a vencedora do Oscar de Melhor Canção Original em 2008, Falling Slowly) e nasce uma relação intensa e bem particular. Tendo a música como fio condutor e relações amorosas passadas ainda não resolvidas, a relação evolui de forma diferente da esperada. O ponto em comum é a música e ela é mandatória na hora de decidir que caminho tomar.
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