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TESS – UMA LIÇÃO DE VIDA – Tess
CLASSIFICAÇÃO: Para Rever, Inglaterra, França, Drama - 06/05/2012

DIREÇÃO: Roman Polanski

ROTEIRO: Gérard Brach, Roman Polanski

ELENCO: Nastassja Kinski, Peter Firth, Leigh Lawson, John Collin, Tony Church

França, Inglaterra, 1979 (186 min)

Logo mais teremos mais um filme de Roman Polanski nos cinemas, Deus da Carnificina. Algo teatral, completamente diferente de sua filmografia, como por exemplo os ótimos O Escritor Fantasma e O Pianista. Diferente em tudo também do belo Tess, filme de 1979. Com suas 3 horas de duração, Tess faz o retrato da sociedade hipócrita e preconceituosa da Inglaterra do final do século 19.

Baseado no romance de Thomas Hardy, Tess é uma linda e cuidadosa produção de uma época em que ser nobre era a solução para todos os problemas de ordem prática –  mas não moral. Tess é filha de um pobre agricultor, que se anima com a notícia de que sua família descende dos nobre d’Uberville e que portanto teria direito à algum bem ou pelo menos regalias. Para checar, envia sua filha mais velha Tess (Nastassja Kinski) até a mansão dos nobres e ela acaba se envolvendo com seu “primo”, que não é de uma linhagem tão notável assim. Claro que os afagos vêm sem amor, que Tess se desilude e que quando realmente se apaixona esse antigo relacionamento acaba sendo um empecilho para sua felicidade.

Tess é um filme de época, com figurino impecável e uma ambientação bem cuidada – venceu o Oscar de melhor direção de arte, fotografia e figurino. Apesar de longo, vale insistir para gosta do gênero. O desfecho foge do que se espera – o que acho sempre um alento e uma boa surpresa. Esperem pra ver Deus da Carnificina (nos cinemas dia 11 de maio). Eclético, o Polanski.

 

AMERICANO
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, França, Drama - 20/04/2012

DIREÇÃO e ROTEIRO: Mathieu Demy

ELENCO: Mathieu Demy, Salma Hayek, Geraldine Chaplin, Chiara Mastroianni, Carlos Bardem

França, 2011 (90 min)

 

Nos cinemas: 20 de abril

 

Este parece filme de um homem só. Mathieu Demy (também em Tomboy), é diretor, roteirista e protagonista. Talvez o erro tenha sido justamente esse. A ideia do roteiro é boa: Martin (Mathieu Demy) mantém uma relação estável com sua companheira, muito embora não esteja entusiasmado, nem seja amoroso. Numa madrugada, recebe a notícia de que sua mãe morreu nos Estados Unidos. Precisa viajar para acertar a papelada e trazer o corpo para a França, onde será enterrada. Na viagem, faz tudo menos o que é burocrático. Acaba recordando sua infância adormecida e mais emoções do que poderia imaginar.

Interessante, não? Sim, mas Mathieu Demy se perde na construção da personagem Lola (Salma Hayek, também em Frida). Ela aparece desconexa, ganha importância sem que isso faça sentido, fazendo com que a busca de Martin pelo passado, pelas lembranças e por sua real identidade fique cansativa e até um pouco tola. Insisto que a ideia é bacana e o filme tem momentos bons, sobretudo quando Demy contracena com Claire (Chiara Mastroianni). E, claro, todo o debate sobre a busca pela identidade, sobre a resolução de  questões em aberto para poder viver o futuro é sempre interessante e válido. Mas caiu no lugar comum e fiquei com a impressão de que faltou trocar opiniões sobre roteiro e personagens nesse filme de um homem só.

O PRÍNCIPE DO DESERTO – Black Gold
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, França, Épico, Aventura - 12/04/2012

DIREÇÃO: Jean-Jacques Annaud

ROTEIRO: Menno Meyhes, Jean-JAcques Annaud

ELENCO: Tahar Rahim, Mark Strong, Antonio Banderas, Frieda Pinto, Riz Ahmed, Jamal Awar, Lotfi Dziri

França, 2011 (130 min)

 

Nos cinemas: 13 de abril

 

Ouro Negro. Teria sido muito melhor manter a tradução literal do título original, que carrega muito mais significado. Ouro Negro é conciso e não cai na mesmice da escolha de palavras como amor, felicidade, príncipe, princesa e principalmente toca no cerne da questão: o choque cultural entre os árabes e o Ocidente, a disputa pelo poder e pela riqueza por causa da descoberta do petróleo no deserto e, é claro, a disputa por território nesse areial sem fim. Não estou dizendo que não há príncipe, nem que ele não seja central. É sim, mas a escolha me deu a sensação de ter tornado o filme propositalmente mais raso e novelesco do que poderia ser um retrato aprofundado e épico das arábias dos anos 1930. História para contar é o que não falta.

O príncipe em questão é Auda (Tahar Rahim, também no ótimo O Profeta). É o filho mais moço do sultão Amar (Mark Strong, também em O Espião que Sabia Demais, Caminho da Liberdade, Robin Hood, Sherlock Holmes, A Jovem Rainha Vitória), que é entregue ainda criança ao vizinho Emir Nassib (Antonio Banderas, também em Vicky Cristina BarcelonaA Pele que Habito). Junto com ele vai seu irmão mais velho e preferido do pai, como garantia de paz na região. Muitos anos se passam, até que uma empresa de exploração de petróleo americana descobre o ouro negro na região antes considerada neutra pelo acordo de paz entre os reinos, gerando disputa financeira, territorial e familiar. Auda casa-se com a filha de Nassib, Leyla (Frieda Pinto, também em Quem Quer Ser um Milionário, Planeta dos Macacos – A Origem, Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos, Miral), mas isso não impede um novo conflito entre os reinos.

Claro, tudo por causa do petróleo. Minha expectativa era um foco um pouco mais elaborado nessa questão financeira, territorial, de exploração propriamente dita e suas consequências. Mas tudo isso vira o pano de fundo para a disputa entre as famílias e para o romance entre Leyla e Auda. Ao fazer essa escolha consciente, o diretor Jean-Jacques Annaud, também do fantástico O Nome da Rosa, onde situa, ilustra e constrói um panorama interessantíssimo e profundo sobre a Idade Média e a antítese conhecimento/Igreja, faz voo raso. Poderia continuar com o toque épico, claro, afinal a produção é muito boa, a locação na Tunísia e Catar incríveis e o elenco afinado. Mas poderia sim ter entrado mais no fato histórico da exploração do petróleo, que alterou completamente a dimensão, a importância e o modo de vida de muitos povos da região. De qualquer maneira, é entretenimento de qualidade. Guardadas as devidas proporções – mas uma coisa conversa com a outra – deu vontade de rever com outros olhos o clássico Lawrence das Arábias. Esse sim, das Arábias.

 

 

DESDE QUE OTAR PARTIU – Depuis qu’Otar est Parti
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, França, Drama, Bélgica - 04/04/2012

 

DIREÇÃO: Julie Bertuccelli

ROTEIRO: Jullie Bertuccelli, Bernard Renucci

ELENCO: Esther Gorintin, Nino Khomasuridze, Dinara Drukarova

França, Bélgica, Georgia, 2003 (103 min)

Na Geórgia independente, ex-república soviética, falta luz e água com frequência, além de emprego, oportunidades, prosperidade. Nada mais natural do que migrar, como fez Otar, para a Europa ocidental. Mesmo sendo médico, sujeita-se a trabalhar como pedreiro para ganhar a vida em Paris. E desde que Otar partiu, quem ficou na Geórgia faz disso um mito. Sua mãe Eka, uma senhora que viveu os tempos gloriosos de Stalin e ainda se gaba dessa época de “estabilidade”, acredita piamente que o filho é um herói. Ele parte, ela nutre seus dias com suas cartas, lembranças e um dinheirinho que ele manda.

É Eka quem comanda e dá o tom da narrativa da diretora francesa Julie Bertuccelli, também de A Árvore, publicada recentemente aqui no blog. Ao seu lado ficou o ramo feminino da família: sua filha Marina, ressentida e enciumada, faz parte da geração frustrada que teve a profissão e a possibilidade de uma vida melhor tolhidas pelo regime e sua queda; sua neta, Ada, uma moça inteligente e viva, que não vê perspectiva na Geórgia, mas que tem ainda acesa a chama do sonho de fazer uma carreira e viver em um lugar melhor. Elas coordenam a vida de Eka, sem perceber que Eka tem vida própria. Elas escondem um grande segredo, sem perceber que Eka também faz isso muito bem. O jogo de sabedoria e sensibilidade do filme nas questões humanas e familiares é muito interessante, fazendo, é claro, lembrar Adeus, Lênin! – em que também uma mentira tem como objetivo poupar alguém da dor, subestimando, assim, o olhar sagaz da maturidade.

Desde que Otar Partiu tem elementos opostos carregados de significado como a escuridão do apartamento e as luzes de Paris, o que torna o filme ainda mais sutil. E sensível, humano. A cena final do aeroporto, o entendimento de Eka do presente, passado e futuro é o que poderia se chamar de sabedoria.

UM LUGAR NA PLATEIA – Fauteuils d’orchestre
CLASSIFICAÇÃO: Para se Divertir, França, Comédia Romântica - 01/04/2012

DIREÇÃO: Danièle Thompson

ROTEIRO: Danièle Thompson, Christopher Thompson

ELENCO: Cécile De France, Valérie Lemecier, Albert Dupontel, Laura Morante, Claude Brasseur, Christopher Thompson, Suzanne Flon, Sydney Pollack

França, 2006 (105 min)

Todos buscam um lugar na plateia – não pode ser nem tão longe, nem tão perto. Seria a mesma coisa que dizer que todos procuram um lugar ao sol, ser alguém para alguém na vida, fazer o que gosta, etc e tal. Só que aqui, a imagem criada pela diretora Danièle Thompson para falar dessa busca acontece através de um concertista, uma atriz e um leiloeiro, que sentem necessidade de mudar algo na vida, de fechar um ciclo e começar outro. E esse é o momento da virada. Em Paris.

Três histórias diferentes, com personagens que teoricamente não têm qualquer relação, mas se cruzam por causa e graças à Jessica (Cécile De France, também em O Garoto da Bicicleta, Além da Vida, Bonecas Russas, Albergue Espanhol), uma garota que foi criada pela avó e que finalmente consegue um emprego na num café badalado na Avenue Montaigne ao lado do Ritz, coincidentemente em frente a um teatro, uma casa de leilões e uma sala de concertos. É ela quem vai juntar o concertista cansado da rigidez e da formalidade dos concertos mundo afora, do colecionador de arte que precisa se livrar do passado para continuar vivendo e da atriz de novela que sonha em fazer um filme importante, passeando por Paris, por suas pérolas, sua cultura, sua forma de vida.

Um Lugar na Plateia tem um humor sutil e agradável, um roteiro despretensioso e muito gostoso de assistir. Para quem gosta da cidade e de filme francês, vai aproveitar.


 

A RAINHA MARGOT – La Reine Margot
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, França, Épico, Drama - 25/03/2012

DIREÇÃO: Patrice Chéreau

ROTEIRO: Danièle Thompson, Alexandre Dumas (livro)

ELENCO: Isabelle Adjani, Daniel Auteuil, Virna Lisi, Jean-Hungues Anglade, Vincent Perez, Dominique Blanc, Pascal Greggory

França, 1994 (154 min)

Noite de São Bartolomeu. Os católicos comemoravam na ruas de Paris a festa do santo, em 23 de agosto de 1572. O que era para ser festivo, terminou em massacre. Foram executados por baixo 30 mil franceses protestantes, os huguenotes, a mando dos reis católicos. É justamente este episódio descrito em A Rainha Margot, filme que venceu o prêmio do júri em Cannes e que conta, em detalhes, a podridão, as intrigas, as traições, os assassinatos em nome do poder e da realeza.

Isabelle Adjani (também em Camille Claudel, Mamute) é Margot, católica, irmã do rei que não manda nada, que é manipulado pela mãe Catherine de Médicis, invejado pelos irmãos mais novos. Na tentativa de por um ponto final no conflito entre católicos e protestantes na França, Catherine obriga a filha a casar-se com Henrique de Navarra, que era justamente protestante. Dias após o casamento, com todos os amigos do noivo em Paris, o massacre estrategicamente programado pelos católicos mata e degola milhares dentro do palácio do Louvre e em toda a cidade.

Figurino, cenário, produção impecáveis. Além da história ser muito boa – e de ser realmente parte da história – A Rainha Margot é um daqueles filmes sangrentos, épicos, com situações inimagináveis de envenenamento dentro da família, matança, fugas e uma Margot insaciável, percorrendo as ruas de Paris atrás de alguém para amar. Bem quando o circo está pegando fogo. Apesar de um pouco longo, é um retrato interessante e muito bem cuidado do que era fazer parte da corte naqueles tempos. Cabeças rolavam, literalmente, todos os dias.

 

A AGENDA – L’Emploi du Temps
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, França, Drama - 19/03/2012

DIREÇÃO: Laurent Cantet

ROTEIRO: Robin Campillo, Laurent Cantet

ELENCO: Aurélien Recoing, Karin Viard, Serge Livrozet, Jean-Pierra Mangeot, Monique Mangeot, Nicolas Kalsch

França, 2001 (134 min)

Do mesmo diretor do ótimo Entre os Muros da Escola, A Agenda tem uma nome bem mais interessante no original francês. L’Emploi du Temps remete não só ao agendamento dos compromissos, mas também à maneira com que empregamos nosso tempo, o que fazemos com o nosso dia a dia e o quanto de energia colocados na maior parte da nossa vida que são as tarefas diárias.

Achei bastante interessante a maneira com que o diretor Laurent Cantet (também em Em Direção ao Sul) discute a questão. O filme é bastante simples na sua forma, mas a atuação do protagonista Vincent e sua esposa Muriel é marcante, e o tema, atual e importante – ainda mais considerando a quantidade de pessoas que estão envolvidas com trabalhos e rotinas pouco interessantes e com as quais têm pouca identidade.

Este é o perfil do personagem Vincent, que não tem interesse e envolvimento no trabalho, fica desempregado, teria condição e curriculum para conseguir outra oportunidade, mas tem medo de contar a verdade à família. Acaba inventando mentiras, viagens e empregos fictícios, que logicamente vão criando uma bola de neve de dívidas, envolvimentos duvidosos, desconfiança por parte de familiares e amigos e angústia dentre dele mesmo. Vincent é o exemplo de baixa auto-estima, de desinteresse e do perigo que é deixar que o anos se encarreguem da rotina sem que tomemos rédea da situação. A discussão aqui vai ainda mais além, esbarrando na questão da influência das relações de trabalho e das obrigações na personalidade das pessoas e nas suas relações.

De uma maneira lenta e reflexiva, A Agenda reflete bem o que a pressão pelo sucesso, pela carreira e pela necessidade de prover financeiramente a família ocasiona naqueles que não têm coragem ou condição de dar uma virada, ou partir para um processo de autoconhecimento que possa fazê-los buscar uma profissão e ocupação que seja ao menos prazerosa. Sem falar do poder que tem a mentira… também para quem a inventa.

EM DIREÇÃO AO SUL – Vers le Sud
CLASSIFICAÇÃO: Para Ver Bem Acompanhado, França, Drama - 19/03/2012

DIREÇÃO: Laurent Cantet

ROTEIRO: Laurent Cantet, Robin Campillo

ELENCO: Charlotte Rampling, Karen Young, Louise Portal, Ménothy Cesar

França, 2005 (108 min)
Se o que atraiu você neste filme foi o fato de ele tratar da história de três mulheres que vão ao Haiti passar férias em busca do turismo sexual, pode até ser interessante – muito embora também tenha achado esse viés um pouco arrastado e deprimente. Mas se você pretendia, como eu, assistir a algo mais voltado para a questão social do Haiti, em contraste com os resorts e luxos que atraem os europeus e americanos à ilha, vai se decepcionar. Confesso que assisti ao filme um tanto quanto impaciente.

Em Direção ao Sul conta a história de três mulheres, entre outras tantas, com seus 40, 50 anos, que vão ao Haiti buscando satisfazer seus desejos sexuais, manter relações provisórias, porém prazerosas, como nunca antes em suas vidas rotineiras, com seus parceiros e maridos. Em contrapartida, o país vive uma ditadura ferrenha naquela década de 1980 e todo o luxo dos resorts contrasta com a pobreza e intimidação policial na capital Porto Príncipe. A ideia é interessante e poderia render um bom filme, ainda mais pelo olhar habilidoso do diretor Laurent Cantet, também responsável pelo ótimo documentário Entre os Muros da Escolavencedor da Palma de Ouro em Cannes. Mas aqui as personagens se arrastam entre suas crises de ciúme, entre a luta pela posse dos amantes da ilha, frustrações e lamúrias de vida, o que me deixou realmente desinteressada. Voilá, drama por drama, melhor partir para A Agenda, também do mesmo diretor – esse sim, profundo e interessante.

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