DIREÇÃO E ROTEIRO: Isabel Coixet
ELENCO: Sarah Polley, Tim Robbins, Sverre Anker Ousdal
Espanha, 2005 (115 min)
Sensível e tocante, esse poder das palavras que o filme traz. Muitas produções – e muitas vezes a própria vida – valoriza sabiamente o silêncio como forma de reflexão e escuta, mas A Vida Secreta das Palavras faz o percursos inverso. Do silêncio que aprisiona, isola e entristece a alma, existe a palavra que dá vida. Aprisionada pelo medo e pavor trazidos por uma experiência extremamente traumática, Hanna (Sarah Polley) cala-se diante da vida, do futuro e fecha a sete chaves seu passado. Escuta o que quer, fala o mínimo necessário, para não ouvir sua própria voz, sua própria história.
São as palavras que a trazem de volta à possibilidade de vida. Funcionária exemplar de uma fábrica, não conversa com ninguém, não falta, não dá trabalho, não tira férias. É como se o tempo livre fosse doloroso demais. Obrigada a tirar férias por um mês, candidata-se a ser enfermeira de Josef (Tim Robbins), um funcionário de uma plataforma de petróleo, que sofreu sérias queimaduras. Isolada nela mesma e na imensidão do mar, Hanna encontra ali o refúgio perfeito, mas as palavras não a deixam calar e é só nesse momento que ficamos sabendo o que realmente aconteceu – um trauma vivido perto de nós, no tempo e no espaço, de dimensões absolutamente cruéis e desumanas. (Claro que não vou falar, porque esse é a revelação do filme.)
ROTEIRO: Pedro Almodóvar, Thierry Jonquet
ELENCO: Antonio Banderas, Elena Anaya, Jan Cornet, Marisa Paredes, Blanca Soárez, Bárbara Lennie, Fernando Cayo
Espanha, 2011 (117 min)
Assista duas vezes, pelo menos. Essa é a dica quando falamos de Pedro Almodóvar. Depois da exposição, depoimento e debate com o crítico de cinema Christian Petermann e a psicanalista Ana Lucilia organizado pela 2001 Video, não tive mais dúvida. Até porque Almodóvar se repete e é preciso entender o que está por trás disso. Não por estar em crise criativa, ou por faltar inspiração. Pelo contrário, é uma maneira de reafirmar seu estilo, de retomar temas com renovação, repetição, metalinguagem. Com inteligência. Claro, se você gostar do estilo do diretor – ou se quiser experimentar uma linguagem irreverente e diferente de tudo mais que há por aí.
Ainda mais quando o filme do momento é A Pele que Habito. “Nunca o diretor espanhol foi tão sombrio”, observa Christian. “Seus personagens estão acima do padrão comportamental. Transcendem na ousadia e na transgressão, são prazerosamente perversos”, completa. De fato, as situações propostas aqui são moralmente perturbadoras. Explico para quem ainda não viu: o personagem de Antonio Bandeiras é Roberto, um cirurgião plástico renomado, que quase perde a esposa em um acidente de carro. Ela sobrevive praticamente com o corpo todo queimado e ele, inspirado no acidente, desenvolve uma pele artificial que pode ser aplicada em pacientes graves e que acaba sendo usada mais tarde em outro projeto pessoal, visceral e absolutamente amoral.
Entrar em detalhes aqui seria como tirar a surpresa e o suspense da primeira sessão e o estranhamento instigante que causam seus personagens amorais, pervertidos e sombrios numa segunda visita mais detalhada ao filme. Inevitável o estranhamento que causa no espectador – o enredo beira o surrealismo, ao mesmo tempo em que esbarra a todo momento na nossa realidade nua e crua. Mas
Ana Lucilia joga um facho de luz sob esse ponto de tensão que o filme causa nas pessoas e explica que Almodóvar trabalha sempre com o conceito psicanalítico da repetição, porque gera aprendizado. “Os sentimentos e vivências se repetem no nosso cotidiano, assim como o diretor usa elementos repetitivos para criar identificação, como a presença sempre marcante da mãe, das mulheres, das cores, do gênero, da identidade sexual”, explica ela. “As experiências repetidas criam uma casca protetora em nós, que nos ajuda a elaborar um trauma, por exemplo.” A experiência é a pele que habitamos, essa casca protetora, uma espécie de máscara. Lembra alguma coisa?
ROTEIRO: Jonás Trueba, Antonio Skármeta
ELENCO: Ricardo Darín, Abel Ayala, Miranda Bodenhofer, Ariadna Gil
Espanha, 2009
Nos cinemas: 30 de março
Depois do sucesso de Um Conto Chinês, chega ao cinema este filme anterior de Ricardo Darín A Dançarina e o Ladrão. A expectativa é sempre grande quando se fala em Darín e confesso que fui com muita sede ao pote. A Dançaria e o Ladrão tem poesia – aliás, esse é o ponto perdido com o título em português. O original fala na “dança da Victoria”, que é o fator de transformação do filme. E se o filme tem algo a mais, são exatamente as imagens de Victoria dançando em condições bem adversas – que acabou ficando de fora do título…
Ainda mais porque estamos falando em dois ladrões, e não em um – vale dizer que copiamos o título em inglês – que saem da prisão com a anistia chilena no fim da ditadura. Um deles é Nicolás Vergara Grey (Darín, também em O Segredo dos seus Olhos, O Filho da Noiva, O Conto Chinês, Abutres), perito em arrobar cofres, o grande ladrão, conhecido e temido por todos, que pretende reencontrar a família; Angel Santiago é um garoto ambicioso, que sofre abusos na prisão quer se vingar. Victoria (Miranda Bodenhofer) aparece frágil, carente e por acaso na sua vida e muda sua perspectiva de futuro. É claro que aqui é preciso sair da linha narrativa prática e lógica e entrar no campo do improvável para que a história possa se apresentar.
A Dançarina e o Ladrão está no campo do imaginário, não dá para assistir com os pés no chão. Mas confesso que tenho a régua alta para tudo em que Darín se apresenta. Dos filmes citados acima – gosto muito de todos, cada um na sua proposta – este fica numa prateleira abaixo, por assim dizer, dando a impressão de que ainda falta alguma coisa para dar identidade ao filme e unidade ao roteiro. Tem alguma poesia, mas não brilha em todo o seu conjunto.
ROTEIRO: Daniel Sánchez Arévalo
ELENCO: Eduardo Noriega, Belén Rueda, Angie Cepeda, Cristina Plazas, Clara Lago, Marcel Borràs
Espanha, 2010 (107 min)
Há alguns dramas que têm até uma boa história, mas que os buracos no roteiro mais fazem parecer um novelão do que qualquer outra coisa. Este filme me atraiu pela participação de Belém Rueda (também em Mar Adentro). A história é até interessante, já que se trata de pessoas que têm um dom natural de curar pacientes desenganados, pelo simples contato das mãos. Embora pareça algo sobrenatural, pode render bons filmes. Mas em Mãos que Curam, algumas falhas no roteiro não explicam direito o que realmente acontece, nem deixam aquela “pulga atrás da orelha” tão bem-vinda em filmes que têm o cuidado de não serem totalmente óbvios.
Dr. Diego é um médico que aprendeu a ser frio e calculista no contato com seus pacientes, até pela experiência de anos em lidar com mortes, sequelas e tragédias familiares. Por força do destino, uma paciente tenta suicídio, entra em coma e seu marido não se conforma. Essa família tem dons especiais, cruzam o caminho de Diego, que passa a ter também uma capacidade sobre-humana. Mas a cura é física e parece não acontecer com as pessoas com quem o médico tem vínculo emocional, como seu pai e sua filha. Em linhas gerais é isso. O filme tem mais cara de seriado, deixando entreabertas algumas falhas importantes que eu gostaria de ver esclarecidas no próximo episódio. Mas não vai rolar. Entendi a intenção do diretor Oskar Santos, mas o roteiro peca, os dados ficam no ar e o filme sem um bom desfecho.
ROTEIRO: Pedro Almodóvar, Thierry Jonquet
ELENCO: Antonio Banderas, Elena Anaya, Jan Cornet, Marisa Paredes, Blanca Soárez, Bárbara Lennie, Fernando Cayo
Espanha, 2011 (117 min)
Sempre que assisto a um filme de Pedro Almodóvar, faço o esforço de espantar a expectativas, de me livrar dos conceitos, ideias fechadas e pré-concebidas. É um esforço que vale a pena. A possibilidade de você entrar na viagem e na trajetória da narrativa do diretor espanhol é bem maior e certamente você vai passear um universo nunca dantes visitado!
Da última vez, Almodóvar fez uma homenagem ao cinema com Abraços Partidos – com fortes semelhanças com os excelentes anteriores Tudo Sobre Minha Mãe, Fale com Ela e Volver. Todos femininos na essência. Desta vez, o lado masculino é preponderante, na figura de Antonio Banderas como Robert Ledgard. Renomado e genial cirurgião plástico, ele mantém um centro cirúrgico dentro de sua casa em Toledo, na Espanha, e faz pesquisas para desenvolver uma pele que possa ser transplantada em pacientes queimados ou gravemente acidentados. A pesquisa transcende o meio científico e acadêmico e entra na seara pessoal, na obsessão, na cura de um passado cheio de traumas e perdas. Como tudo em Almodóvar, os elementos e personagens se cruzam de uma maneira forte, instigante e desta vez, mórbida, visceral, vingativa.
Isso parece tudo muito vago. E é, também no filme. Ao mesmo tempo em que percebemos o olhar obcecado do Dr. Roberto, não sabemos qual a sua real intenção – além de criar a tal da pele artificial. Tem uma relação de dependência com o voyeurismo (observa, controla Vera como ninguém), deixando evidente a relação de posse do corpo, da vontade, do sexo. Como sempre disseca (aqui literalmente) o lado sexual, as relações viscerais, questionando quem realmente é a pessoa que habita cada um dos corpos que vemos por aí. É quem pretende ser, quem os outros esperam que seja, quem realmente é? Tudo ainda vago, eu sei. É preciso assistir a este Almodóvar para entender. Mesmo porque, como espectador, você só vai começar a ligar os pontos depois que muita coisa já aconteceu, muita violência já ficou implícita e explícita, muita crise de identidade já se instalou na telona.
Vejo muita gente dizendo que o diretor espanhol não se renova, que o formato é sempre o mesmo. Não concordo, acho que ele imprime seu estilo, mas sabe contar histórias como ninguém. Mas tenho que confessar que A Pele Que Habito tem algo novo, menos humorado e mais maquiavélico talvez, mas não menos espetacular. Não deixa ninguém sair ileso do cinema – o que senti é algo quase visceral mesmo, uma aflição que vem das entranhas. Além de Antonio Banderas, Marisa Paredes (também em Tudo Sobre Minha Mãe) e Elena Anaya (também em Fale com Ela) estão incríveis – mas é o olhar e a loucura de Roberto que dominam o filme e conduzem o destino de Marília, Vera e Vicente (Jan Cornet). Bem à sua maneira. Eu é que não queria estar na pele deles.
Entre vestidos de festas, clientes comuns e poderosas, Espanha, Portugal e Marrocos, a estilista Sira Quiroga vive um período interessante da história espanhola. A guerra civil, a ascensão de Franco, suas relações com os ditadores Hitler e Mussolini, sua postura no período da guerra. Achei interessante esse panorama do livro O tempo entre costuras (María Dueñas, 480 páginas). Acompanhando a vida de Sira, conhecemos um pouco do que foi o protetorado espanhol no Marrocos, época em que outra parte do país era de domínio francês, como mostra o filme Casablanca.
Claro que o livro tem romance, drama, questões familiares (às vezes até clichês), mas tem também política e espionagem e um pouco da dinâmica dos resistentes espalhados pela península, tentando desvendar as relações entre os poderosos empresários e políticos espanhóis e a máquina de guerra alemã. Para quem gosta do tema, o livro dá uma interessante pincelada nesse período histórico.
ROTEIRO:Yolanda García Serrano, Joaquín Oristrell
ELENCO: Olivia Molina, Paco León e Alfonso Bassave
Espanha, 2009 (100 min)
Aos amantes da gastronomia, Dieta Mediterrânea é uma comédia espanhola de sabores, experiências e busca por novas combinações culinárias que fazem a alegria de quem gosta de experimentar novos restaurantes, de acompanhar a trajetória dos chefes de cozinha que fazem a fama mundo afora. A talentosa na cozinha é Sofia e quem narra a sua história é sua filha caçula. Espanhola de um vilarejo às margens do Mediterrâneo, Sofia se divide entre dois amores, mas não entre dois talentos: a gastronomia é sua grande paixão na vida, em que ela deposita todo o seu talento, criatividade e dedicação. Com uma condição: que sua fonte de inspiração, o amor, seja sempre bem farta e não padeça de monotonia.
Dieta Mediterrânea é divertida e leve. Faz referência ao famoso restaurante espanhol El Bulli, numa analogia à gastronomia-arte, ao talento de poucos que alimentam o hobby daqueles que investem em roteiros gastronômicos mundo afora. Faz isso com graça - apesar dos exageros e preferências amorosas de Sofia, que não veem ao caso. A história é divertida e para quem coloca a mão na massa então… nem se fale.
ELENCO: Selton Mello, Pilar López de Ayala, Leonor Watling, Sônia Braga, Alberto Ammann (Lope)
Espanha, Brasil, 2010
Há pelo menos três brasileiros neste filme espanhol que concorreu à indicação de melhor filme estrangeiro no Oscar 2011: o diretor Andrucha Waddington (também em Casa de Areia), o sempre ótimo Selton Mello, no papel de um português e Sônia Braga, com uma maquiagem muito bem feita e um sotaque espanhol cuidadoso. Ojalá!
O filme volta para a Espanha do século 16 para contar a história verdadeira do dramaturgo Lope de Vega, que revoluciona o teatro da época. O que antes eram encenações engessadas e previsíveis transformam-se em versos mais leves e bem humorados. Segundo ele, seus textos e suas peças deveriam ser como a vida. Sua trajetória no amor e na literatura é mostrada no filme com toda a caracterização da Madri da época, portanto o destaque aqui é para o vestuário, constituição de época e tudo mais que inclui o visual.
Agradável aos olhos, é recheado de um romance sem muito sal e diálogos por vezes cheios de clichês. Mas Lope vale por ser um filme poético e muito bonito do ponto de vista da produção. Para quem gosta de filme de época, é uma boa pedida para ver bem acompanhado.
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