DIREÇÃO: Juan Antonio Bayona
ROTEIRO: Sergio G. Sánchez
ELENCO: Naomi Watts, Ewan McGregos, Tom Holland, Samuel Joslin, Oaklee Pendergast, Geraldine Chaplin
Espanha, 2012 (114 min)
Nos cinemas: 21 de dezembro
Adivinhem para onde tenho férias programadas em janeiro? Tailândia. Será que foi por isso que o filme me impressionou tanto? Pode ser. Deve ser. Espero que fenômenos assim não se repitam em um curto espaço de tempo, afinal são só nove anos desde que o tsunami varreu a costa da Tailândia naquele verão de 2004. Mas não é só isso. O que aconteceu por lá foi mais impressionante ainda porque assistimos e acompanhamos tudo ao vivo, sem acreditar que pudesse ser verdade. Devastador, por si só.
No cinema, a gente até acredita. Clint Eastwood já falou do assunto em Além da Vida, com Matt Damon e Cecile de France, em 2010. De novo a cena da onda que invade o tranquilo paraíso impressiona, massacra, afoga e desespera quem vive para ver o que sobrou. E quem sobreviveu. O roteiro é real, aconteceu com uma família espanhola que passava as férias de Natal no litoral tailandês. Em meio a 230 mil mortos, considerar que uma família inteira (pais e três filhos de 5, 7 e 10 anos) sobreviveram e se reencontraram no meio do caos, é praticamente impossível.
Interpretados por Naomi Watts (também em 21 Gramas, Destinos Ligados, Você Vai Conhecer o Homem dos seus Sonhos, Jogo de Poder, J. Edgar) e Ewan McGregor (também em Amor Impossível, Sentidos do Amor, O Escritor Fantasma), O Impossível ganha uma carga dramática grande. Por isso, está avisado: quem não estiver afim de ver tragédia, drama familiar, morte, perda, crianças desesperadas, garimpe outras opções no blog. O filme é forte e real. Toca no medo mais profundo que é a perda de um filho, ou no temor de um filho de ficar órfão. O medo de se ver sozinho no mundo. O medo de enfrentar a vida de outra maneira.
Alguns trunfos para que o filme fosse realmente impactante e não somente um melodrama. Os protagonistas, Naomi Watts, McGregor são muito convincentes, inclusive na premissa de que eram sim uma família feliz. Isso aumentou minha agonia de ver a família dilacerada. As três crianças, e principalmente Lucas, o mais velho, também consegue segurar o rojão que é interpretar o tempo todo no limite da dor e do desespero.
Prepare-se: passamos o filme todo, com exceção da primeira parte em que a família está curtindo as férias, em cenas de fim de mundo: a onda gigante arrasta tudo que vê pela frente, Maria se afoga (e nós junto) em meio aos destroços, vemos gente morta e gente morrendo, feridos, perdidos, desesperados, órfãos. Falta de medicamento, comida, água, recursos, socorro. O tempo todo é a busca pela ajuda, pelo remédio, pelo pai, mãe, irmãos, solidaridade. Há poucos minutos de alento, e mesmo assim, ainda são instantes de dão a entender que o trauma é grande demais para terminar por ali.
Quem já foi para aqueles mares diz que não dá para acreditar que um oceano tão calmo pode se transformar em tamanha anomalia da natureza. Raiva ferroz. Vou checar de perto e espero estar de volta no tempo planejado. Enquanto isso, se tiver fôlego, vá ver. Ou comece pelo trailer, talvez seja mais fácil de sobreviver.
DIREÇÃO: Pablo Trapero, Laurent Cantet, Benicio Del Toro, Julio Medem, Elia Suleiman, Juan Carlos Tabío, Gaspar Noé
ELENCO: Josh Hutcherson, Daniel Brürl, Emir Kusturica, Elia Suleiman, Melissa Rivera
Cuba, França, Espanha, 2012 (129 min)
Sete dias em Havana, sete histórias, sete diretores com olhares diferentes. Já disse que gosto muito de filmes assim. Um mesmo objeto, visões distintas. É o caso do projeto Cities of Love (Paris, Eu Te Amo, New York, Eu Te Amo – que terá também Rio, Jerusalém e Xangai), 11 de Setembro, Cada Um Com Seu Cinema. 7 Dias em Havana tem um toque diferente, que me agradou bastante. Cada diretor teve carta branca para brincar com esse objeto tão rico que são Cuba, cubanos, migração, situação econômica, cultura, música. Mas alguns personagens são em comum, o que faz um elo entre esses olhares e dá uma unicidade bonita ao filme.
Claro que também, num caso destes, fica fácil eleger o episódio mais ou menos agradável, já que cada diretor tem uma maneira de ver a realidade cubana. Gosto da visão do argentino Pablo Trapero (Abutres, Leonera, Familia Rodante), que faz um lindo e divertido episódio sobre música, solidão, celebridade às avessas; já o cubano Juan Carlos Tabío ressalta a dificuldade de sobrevivência dos cubanos diante de todas as restrições da ilha, através de um casal que precisa fazer doces para reforçar o orçamento. O espanhol Julio Medem vem a história de Cecília, que canta e tem oportunidade de fazer carreira fora do país (lembra a animação Chico e Rita); e o ator e diretor Benicio del Toro conta uma divertida história sobre diferenças culturais entre americanos e cubanos. São episódios que valem a pena você se deixar levar pelo clima da ilha.
Recentemente um decreto do governo mudou as regras para emissão de vistos para cubanos que pretendem sair da ilha. Tudo teoria. Na prática a proibição absurda continua e nada muda. 7 Dias em Havana dá uma pincelada ora divertida, ora irônica sobre a realidade na ilha, e é uma maneira de entrarmos um pouco nesse universo tão particular.
DIREÇÃO: Fernando Trueba, Tono Errando, Javier Mariscal
ROTEIRO: Ignacio Martinez de Pisón, Fernando Trueba
ELENCO: Eman Xor Oña, Limara Meneses, Mario Guerra
Espanha, Inglaterra, 2010 (94 min)
Animação para adultos. Chico e Rita concorreu ao Oscar de melhor animação em 2012 e perdeu para Rango… que realmente não me convenceu. O filme de Fernando Trueba (também diretor de A Dançarina e o Ladrão), por outro lado, é um lindo passeio por Cuba antes da revolução, uma homenagem aos ritmos dos anos 1948, ao bolero, ao jazz, à batida caribenha. Às lindas canções entoadas por Rita.
Sempre falo que adoro animação. Esse traço usado em produções para adultos é suave, mas tem uma personalidade quase real. Chico é pianista de jazz; Rita, cantora. Se conhecem em Havana, se apaixonam, mas a Rita tem a oportunidade de ganhar dinheiro e cantar nos Estados Unidos. Nem tudo é perfeito e o casal vai precisar de muito tempo para colocar a vida em ordem. Nesse trajeto, conhecemos também um pouco da Cuba atual, sempre retratada com esmero, critério e cuidado pelos criadores da animação.
Lembro de ter lido sobre o filme na programação do Anima Mundi deste ano, mas na ocasião não tive a sorte de assistir. Ainda não temos por aqui em DVD, mas quem tiver acesso ao iTunes, da Apple, é possível alugar ou comprar. Para ter uma palinha, o trailer!
DIREÇÃO E ROTEIRO: Isabel Coixet
ELENCO: Sarah Polley, Tim Robbins, Sverre Anker Ousdal
Espanha, 2005 (115 min)
Sensível e tocante, esse poder das palavras que o filme traz. Muitas produções – e muitas vezes a própria vida – valoriza sabiamente o silêncio como forma de reflexão e escuta, mas A Vida Secreta das Palavras faz o percursos inverso. Do silêncio que aprisiona, isola e entristece a alma, existe a palavra que dá vida. Aprisionada pelo medo e pavor trazidos por uma experiência extremamente traumática, Hanna (Sarah Polley) cala-se diante da vida, do futuro e fecha a sete chaves seu passado. Escuta o que quer, fala o mínimo necessário, para não ouvir sua própria voz, sua própria história.
São as palavras que a trazem de volta à possibilidade de vida. Funcionária exemplar de uma fábrica, não conversa com ninguém, não falta, não dá trabalho, não tira férias. É como se o tempo livre fosse doloroso demais. Obrigada a tirar férias por um mês, candidata-se a ser enfermeira de Josef (Tim Robbins), um funcionário de uma plataforma de petróleo, que sofreu sérias queimaduras. Isolada nela mesma e na imensidão do mar, Hanna encontra ali o refúgio perfeito, mas as palavras não a deixam calar e é só nesse momento que ficamos sabendo o que realmente aconteceu – um trauma vivido perto de nós, no tempo e no espaço, de dimensões absolutamente cruéis e desumanas. (Claro que não vou falar, porque esse é a revelação do filme.)
ROTEIRO: Pedro Almodóvar, Thierry Jonquet
ELENCO: Antonio Banderas, Elena Anaya, Jan Cornet, Marisa Paredes, Blanca Soárez, Bárbara Lennie, Fernando Cayo
Espanha, 2011 (117 min)
Assista duas vezes, pelo menos. Essa é a dica quando falamos de Pedro Almodóvar. Depois da exposição, depoimento e debate com o crítico de cinema Christian Petermann e a psicanalista Ana Lucilia organizado pela 2001 Video, não tive mais dúvida. Até porque Almodóvar se repete e é preciso entender o que está por trás disso. Não por estar em crise criativa, ou por faltar inspiração. Pelo contrário, é uma maneira de reafirmar seu estilo, de retomar temas com renovação, repetição, metalinguagem. Com inteligência. Claro, se você gostar do estilo do diretor – ou se quiser experimentar uma linguagem irreverente e diferente de tudo mais que há por aí.
Ainda mais quando o filme do momento é A Pele que Habito. “Nunca o diretor espanhol foi tão sombrio”, observa Christian. “Seus personagens estão acima do padrão comportamental. Transcendem na ousadia e na transgressão, são prazerosamente perversos”, completa. De fato, as situações propostas aqui são moralmente perturbadoras. Explico para quem ainda não viu: o personagem de Antonio Bandeiras é Roberto, um cirurgião plástico renomado, que quase perde a esposa em um acidente de carro. Ela sobrevive praticamente com o corpo todo queimado e ele, inspirado no acidente, desenvolve uma pele artificial que pode ser aplicada em pacientes graves e que acaba sendo usada mais tarde em outro projeto pessoal, visceral e absolutamente amoral.
Entrar em detalhes aqui seria como tirar a surpresa e o suspense da primeira sessão e o estranhamento instigante que causam seus personagens amorais, pervertidos e sombrios numa segunda visita mais detalhada ao filme. Inevitável o estranhamento que causa no espectador – o enredo beira o surrealismo, ao mesmo tempo em que esbarra a todo momento na nossa realidade nua e crua. Mas
Ana Lucilia joga um facho de luz sob esse ponto de tensão que o filme causa nas pessoas e explica que Almodóvar trabalha sempre com o conceito psicanalítico da repetição, porque gera aprendizado. “Os sentimentos e vivências se repetem no nosso cotidiano, assim como o diretor usa elementos repetitivos para criar identificação, como a presença sempre marcante da mãe, das mulheres, das cores, do gênero, da identidade sexual”, explica ela. “As experiências repetidas criam uma casca protetora em nós, que nos ajuda a elaborar um trauma, por exemplo.” A experiência é a pele que habitamos, essa casca protetora, uma espécie de máscara. Lembra alguma coisa?
ROTEIRO: Jonás Trueba, Antonio Skármeta
ELENCO: Ricardo Darín, Abel Ayala, Miranda Bodenhofer, Ariadna Gil
Espanha, 2009
Depois do sucesso de Um Conto Chinês, chega ao cinema este filme anterior de Ricardo Darín A Dançarina e o Ladrão. A expectativa é sempre grande quando se fala em Darín e confesso que fui com muita sede ao pote. A Dançaria e o Ladrão tem poesia – aliás, esse é o ponto perdido com o título em português. O original fala na “dança da Victoria”, que é o fator de transformação do filme. E se o filme tem algo a mais, são exatamente as imagens de Victoria dançando em condições bem adversas – que acabou ficando de fora do título…
Ainda mais porque estamos falando em dois ladrões, e não em um – vale dizer que copiamos o título em inglês – que saem da prisão com a anistia chilena no fim da ditadura. Um deles é Nicolás Vergara Grey (Darín, também em O Segredo dos seus Olhos, O Filho da Noiva, O Conto Chinês, Abutres), perito em arrobar cofres, o grande ladrão, conhecido e temido por todos, que pretende reencontrar a família; Angel Santiago é um garoto ambicioso, que sofre abusos na prisão quer se vingar. Victoria (Miranda Bodenhofer) aparece frágil, carente e por acaso na sua vida e muda sua perspectiva de futuro. É claro que aqui é preciso sair da linha narrativa prática e lógica e entrar no campo do improvável para que a história possa se apresentar.
A Dançarina e o Ladrão está no campo do imaginário, não dá para assistir com os pés no chão. Mas confesso que tenho a régua alta para tudo em que Darín se apresenta. Dos filmes citados acima – gosto muito de todos, cada um na sua proposta – este fica numa prateleira abaixo, por assim dizer, dando a impressão de que ainda falta alguma coisa para dar identidade ao filme e unidade ao roteiro. Tem alguma poesia, mas não brilha em todo o seu conjunto.
ROTEIRO: Daniel Sánchez Arévalo
ELENCO: Eduardo Noriega, Belén Rueda, Angie Cepeda, Cristina Plazas, Clara Lago, Marcel Borràs
Espanha, 2010 (107 min)
Há alguns dramas que têm até uma boa história, mas que os buracos no roteiro mais fazem parecer um novelão do que qualquer outra coisa. Este filme me atraiu pela participação de Belém Rueda (também em Mar Adentro). A história é até interessante, já que se trata de pessoas que têm um dom natural de curar pacientes desenganados, pelo simples contato das mãos. Embora pareça algo sobrenatural, pode render bons filmes. Mas em Mãos que Curam, algumas falhas no roteiro não explicam direito o que realmente acontece, nem deixam aquela “pulga atrás da orelha” tão bem-vinda em filmes que têm o cuidado de não serem totalmente óbvios.
Dr. Diego é um médico que aprendeu a ser frio e calculista no contato com seus pacientes, até pela experiência de anos em lidar com mortes, sequelas e tragédias familiares. Por força do destino, uma paciente tenta suicídio, entra em coma e seu marido não se conforma. Essa família tem dons especiais, cruzam o caminho de Diego, que passa a ter também uma capacidade sobre-humana. Mas a cura é física e parece não acontecer com as pessoas com quem o médico tem vínculo emocional, como seu pai e sua filha. Em linhas gerais é isso. O filme tem mais cara de seriado, deixando entreabertas algumas falhas importantes que eu gostaria de ver esclarecidas no próximo episódio. Mas não vai rolar. Entendi a intenção do diretor Oskar Santos, mas o roteiro peca, os dados ficam no ar e o filme sem um bom desfecho.
ROTEIRO: Pedro Almodóvar, Thierry Jonquet
ELENCO: Antonio Banderas, Elena Anaya, Jan Cornet, Marisa Paredes, Blanca Soárez, Bárbara Lennie, Fernando Cayo
Espanha, 2011 (117 min)
Sempre que assisto a um filme de Pedro Almodóvar, faço o esforço de espantar a expectativas, de me livrar dos conceitos, ideias fechadas e pré-concebidas. É um esforço que vale a pena. A possibilidade de você entrar na viagem e na trajetória da narrativa do diretor espanhol é bem maior e certamente você vai passear um universo nunca dantes visitado!
Da última vez, Almodóvar fez uma homenagem ao cinema com Abraços Partidos – com fortes semelhanças com os excelentes anteriores Tudo Sobre Minha Mãe, Fale com Ela e Volver. Todos femininos na essência. Desta vez, o lado masculino é preponderante, na figura de Antonio Banderas como Robert Ledgard. Renomado e genial cirurgião plástico, ele mantém um centro cirúrgico dentro de sua casa em Toledo, na Espanha, e faz pesquisas para desenvolver uma pele que possa ser transplantada em pacientes queimados ou gravemente acidentados. A pesquisa transcende o meio científico e acadêmico e entra na seara pessoal, na obsessão, na cura de um passado cheio de traumas e perdas. Como tudo em Almodóvar, os elementos e personagens se cruzam de uma maneira forte, instigante e desta vez, mórbida, visceral, vingativa.
Isso parece tudo muito vago. E é, também no filme. Ao mesmo tempo em que percebemos o olhar obcecado do Dr. Roberto, não sabemos qual a sua real intenção – além de criar a tal da pele artificial. Tem uma relação de dependência com o voyeurismo (observa, controla Vera como ninguém), deixando evidente a relação de posse do corpo, da vontade, do sexo. Como sempre disseca (aqui literalmente) o lado sexual, as relações viscerais, questionando quem realmente é a pessoa que habita cada um dos corpos que vemos por aí. É quem pretende ser, quem os outros esperam que seja, quem realmente é? Tudo ainda vago, eu sei. É preciso assistir a este Almodóvar para entender. Mesmo porque, como espectador, você só vai começar a ligar os pontos depois que muita coisa já aconteceu, muita violência já ficou implícita e explícita, muita crise de identidade já se instalou na telona.
Vejo muita gente dizendo que o diretor espanhol não se renova, que o formato é sempre o mesmo. Não concordo, acho que ele imprime seu estilo, mas sabe contar histórias como ninguém. Mas tenho que confessar que A Pele Que Habito tem algo novo, menos humorado e mais maquiavélico talvez, mas não menos espetacular. Não deixa ninguém sair ileso do cinema – o que senti é algo quase visceral mesmo, uma aflição que vem das entranhas. Além de Antonio Banderas, Marisa Paredes (também em Tudo Sobre Minha Mãe) e Elena Anaya (também em Fale com Ela) estão incríveis – mas é o olhar e a loucura de Roberto que dominam o filme e conduzem o destino de Marília, Vera e Vicente (Jan Cornet). Bem à sua maneira. Eu é que não queria estar na pele deles.
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DIREÇÃO: Juan Antonio Bayona









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