DIREÇÃO: Samira Makhmalbaf, Claude Lelouch, Youssef Chahine, Danis Tanovic, Idrissa Ouedraogo, Ken Loach, Alejandro González Iñárritu, Amos Gitai, Mira Nair, Sean Penn, Shohei Imamura
Estados Unidos, França, Inglaterra, Japão, México, Irã, 2002 (134 min)
Um mesmo tema, sob diferentes perspectivas. Assim como na série de filmes sobre cidades do mundo, chamado Cities of Love (que já tem Paris, Eu Te Amo e New York, Eu Te Amo e ainda promete Rio, Jerusalém e Xangai), diretores de diversas partes do mundo foram convidados a fazer um curta sobre um assunto: o atentado terrorista às Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001. Cada um teria 11 minutos e 9 segundos para imprimir sua emoção sobre o assunto e o que se vê são 11 filmes diferentes, com linguagens, culturas, pontos de vista e emoção distintos. Gosto desse tipo de trabalho, ainda mais num tema tão perturbador como a intolerância religiosa, a violência a qualquer custo, a luta pelo poder transformada na sua forma mais perturbada de expressão que é o terrorismo.
Assim como a torre de babel que é Nova York – e eram as torres que desabaram no coração de Manhattan – 11 de Setembro introduz cada um dos curtas localizando no mapa mundi a nacionalidade do diretor. Globaliza o fato, suas consequências, sua dimensão. Do Irã, Samira Makhmalbaf (também de Às Cinco da Tarde, Green Days) mostra lindamente uma professora tentando mostrar a crianças afegãs refugiadas no Irã a dimensão do atentado para o mundo; da França, Claude Lelouch (também de Um Homem, Uma Mulher, Esses Amores) mostra o silêncio e isolamento do mundo da uma surda-muda em contraste com o caos do atentado; do Egito, Youssef Chahine conta como um diretor de cinema sente compaixão pelas vítimas de qualquer forma de violência (não me tocou muito, é verdade). Da Bósnia-Herzegovina, Danis Tanovic remete à Guerra da Bósnia, ao massacre de Srebrenica, também intolerância religiosa; de Burkina Faso, Idrissa Oudraogo mostra garotos deste paupérrimo país africano tentando prender Bin Laden, quase uma aventura; da Inglaterra, Ken Loach (também de À Procura de Eric) faz um paralelo com o 11 de setembro de 73, quando Allende é deposto no Chile, através de um chileno refugiado em Londres – muito interessante.
Do México, Alejandro Gonzalez Iñarritu (também de Biutiful, Babel, 21 Gramas, Amores Brutos) causa estranheza com a ausência de imagens, cenas de pessoas se jogando das torres – para chocar e fazer refletir, como de costume; de Israel, Amos Gitai (também de Aproximação, Free Zone, O Dia do Perdão), mostra o atentado a bomba em Jerusalém, que aconteceu ao mesmo tempo do que o ataque às Torres Gêmeas – confusão de sentimentos, nacionalidades, morteos, tragédias humanas entrelaçadas; da Índia, Mira Nair enfatiza o sentimento contra os muçulmanos em todo o mundo depois atentado; Sean Penn (também de Na Natureza Selvagem) dirige um curta poético, sobre a sombra do WTC nos prédios vizinhos; e do Japão, o filme menos envolvente e mais abstrato, Shohei Imamura não faz referência ao atentado em si, mas às guerras santas – ou ausência delas.
Como disse, gosto desse tipo de trabalho que propõe uma exposição sem restrições e sem censura, algo realmente autoral.
ELENCO: Nelly Karim, Bushra, Maged El Kedwany, Ahmed El Fishawy, Bassem Samra, Sadwan Badr
Egito, 2010 (100 min)
Esta semana foi premiado com o Oscar de melhor filme estrangeiro o ótimo A Separação, que não só traz à tona a realidade da cultura islâmica no Irã como um todo nas suas relações familiares e sociais, como ressalta a condição da mulher muçulmana nos países em que o Alcorão é interpretado de forma extremamente machista, gerando distorções sociais e humanitárias absurdas. Cairo 678 é mais um filme sobre o tema que, como já tenho dito em outras matérias sobre produções sobre a cultura árabe, ajuda a jogar um facho de luz sobre essa realidade incompreensível, porém absolutamente atual e real no mundo islâmico, presente diariamente na mídia graças à Primavera Árabe, que sacudiu o norte da África desde o ano passado, politica, econômica e culturalmente.
Só que Cairo 678 trata de um assunto específico, incômodo (principalmente para mulheres) e de difícil solução. Mulheres são molestadas sexualmente à luz do dia, nas ruas, nos transporte público lotados (daí o título Cairo 678, uma referência ao número da linha de ônibus). Não fazem denúncias porque obviamente sentem vergonha e seriam renegadas pelo marido, pai, irmãos. E para completar, teriam de submeter sua queixa ao poder policial, sempre sob tutela masculina. Como é possível denunciar algo a alguém que entende que o crime é legítimo? Sem recursos, nem suporte jurídico em países teocráticos, as mulheres egípcias são vítimas impotentes nas mãos e na cultura dessa sociedade.
O interessante do filme, baseado em histórias reais, é que as vidas dessas três mulheres de classe sociais distintas se cruzam por algo que transcende o poder econômico, social, educacional. Cruzam-se porque tratam da honra, do respeito, do livre arbítrio, da liberdade de ir, vir e pensar. Aqui fica claro que mesmo a classe egípcia abastada, instruída, viajada e profissionalmente bem posicionada também não consegue se livrar dessa educação da obediência e subserviência a que são submetidas as mulheres.
Seba, uma empresária rica e bonita, casada com um médico muito bem posicionado, é violentada durante a comemoração da vitória da seleção egípcia de futebol, evento essencialmente masculino; Fayza é uma dona de casa submissa e simples, que se incomoda com a abordagem física do marido e sofre todos os dias com o assédio sexual nos ônibus lotados da cidade; Nelly é de classe média, batalhadora e contestadora, que sonha em ser comediante como o noivo. Mas ambos têm que trabalhar em setores “de prestígio” para serem aceitos nas respectivas famílias. Ela também sofre abuso sexual e consegue criar coragem para depor, denunciar e processar o criminoso. É nesse contexto que elas se conhecem, com Seba liderando um grupo de mulheres vítimas da violência sexual, que precisam aprender perder o medo, ter coragem e se defender dos abusos e da falta de respeito.
Cairo 678 algumas vezes parece documental – e acredito ser de fato. São histórias reais muito fortes, que vão na direção completamente oposta à maneira milenar de pensar do povo egípcio muçulmano. Agora que a revolução contra os líderes corruptos e déspotas iniciou algumas transformações, mesmo que mínimas, no campo religioso, social e comportamental nos países islâmicos do norte da África, a manifestação de cineastas como Mohamed Diab são valiosíssimas. É para dizer para o mundo que desse jeito não dá. Que não se trata de tirar o véu, se despir das tradições e preceitos religiosos. Também não se trata de um simples “grito feminista”, mas sim de encontrar uma maneira de viver com dignidade e respeito. Básico, não?
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