DIREÇÃO e ROTEIRO : Lee Chang-dong
ELENCO: Yoon Jeong-hee, Ahn Nae-sang, Kim Hira, Lee Da-wit
Coreia do Sul, 2010 (139 min)
Este filme sul-coreano venceu o prêmio de melhor roteiro em Cannes em 2010, mas teria sido melhor se Yoon Jeong-hee tivesse sido premiada (perdeu para Juliette Binoche, de Cópia Fiel). Isso por que Poesia é essencialmente o trabalho incrível da atriz no papel duplo de avó responsável pelo neto e de senhora que procura a poesia para se ocupar e ver o mundo por outro prisma.
Não acho que Poesia agrade a todos. É um filme seleto, direcionado a quem aprecia esse tipo de sutileza poética. Além disso, lembre-se de que se trata de um filme sul-coreano, portanto com timing mais lento e contemplativo. A avó Mija passa basicamente por duas dificuldades na vida neste momento e, de cada um delas, tenta tirar um verso, uma emoção, um olhar: além de sofrer com a postura indiferente e abusiva do neto adolescente, tem que lidar com o seu esquecimento das palavras e início de uma doença. A poesia é uma maneira não só de se distrair, mas de trabalhar suas visões de mundo. Dessa observação, Mija percebe que a poesia nem sempre é beleza e suavidade, que ela existe onde existe emoção, sensações e vivências. E é essa descoberta é o ponto mais bonito do filme e a mensagem também fica clara para o espectador.
Mija descobre que a poesia está na postura totalmente equivocada do neto e de seus amigos, nos suicídios dos adolescentes, na maneira destorcida dos pais educarem seus filhos, na sua busca constante por uma explicação, ou na observação de uma simples maçã. Até do jogo de badmington ela parece tirar um verso e, se você reparar bem, há ali um poema amargo. Ela se empenha, enquanto o neto é displicente. Poema amargo, mas poema. E o mais poético é que nem mesmo a saída do neto do jogo faz com que ela desista de escrever.
DIREÇÃO e ROTEIRO: Hong Sangsoo
ELENCO: Sangkyung Kim, Sori Moon, Junsang Yu
Coréia do Sul, 2010 (116 min)
Hahaha, do diretor sul-coreano Hong Sangsoo, venceu em Cannes na categoria Um Certo Olhar em 2010 – aquela que também selecionou Mother e premiou Pecado da Carne e A Banda. Como cada um desses filmes, Hahaha é uma visão bastante particular, e parece até caseira, das relações amorosas e das tradições de um país. Tudo parece confuso e anárquico – essa é inclusive uma característica recorrente no diretor - o que compõe, propositalmente, o tom de comédia.
Incluído na programação do Indie Festival 2010, a história é bastante simples, assim como a produção. Dois amigos se encontram na mesa de um bar e descobrem que estiveram no mesmo balneário, na mesma época. E que suas histórias se cruzam, que conheceram as mesmas pessoas, mas não se encontraram nenhuma vez. O presente, é o brinde preto e branco; o passado, são as histórias coloridas daquilo que aconteceu com cada um deles naqueles dias.
O formato é bem diferente; o idioma, mais ainda, que é rígido e não tem a musicalidade de que estamos habituados. Causa estranheza e não é para menos. Mas, da maneira coreana, fala das relações humanas, seus encontros e desencontros, amores e decepções. Ao contrário do japonês Cura, o formato de Hahaha chama mais atenção do que o seu conteúdo. Mas mesmo assim tem humor e um pouco do patético das difíceis relações humanas.
Confira a programação no site www.indiefestival.com.br.
ROTEIRO: Park Eun-kyo, Park Wun-kyo, Bong Joon-ho
ELENCO: Won Bin, Kim Hye-ja, Jin Ku
Coreia do Sul , 2009 (129 min)
Mother foi exibido na seleção Um Certo Olhar, de Cannes, em 2009. Sei que serei repetitiva, mas digo de novo que adoro essa classificação do festival francês. Esses filmes têm de fato algo diferente, um olhar particular, como Pecado da Carne e A Banda, já publicados aqui. Toda vez que me deparo com filmes que foram celebrados com esse “certo olhar”, fico feliz com a sensibilidade possível do cinema.
O filme é uma grata surpresa. Visualmente, Mother é bonito, cheio de detalhes, cenários minuciosos da vida simples na Coreia do Sul – o mercadinho de grãos, as refeições, o figurino, os campos, a acupuntura, os enquadramentos, a luz. Já é um ponto positivo forte.
Agora, revelador é o roteiro. O filme é um suspense, em que um rapaz é preso inocentemente, acusado de ter assassinado uma garota. Parece que ele tem sua capacidade intelectual comprometida – pelo menos é assim que sua mãe o vê e por isso o superprotege (repare na cena em que ela leva o prato de sopa, para que o filho tome enquanto espera o ônibus). E é esse sentimento de responsabilidade materna que leva essa mãe do título a investigar o crime – ela acredita na sua inocência e vai até o limite da racionalidade para salvá-lo.
Encontrar o ponto exato da coxa para colocar a agulha de acupuntura faria o paciente esquecer as lembranças ruins – pelo menos é isso que ela revela. Dizem que o amor incondicional é justamente esse maternal – que nem o paternal se encaixaria nessa categoria. Será? Mas se a acupuntura ainda ajuda a esquecer, uma mãe é capaz de tudo mesmo. De esquecer até - e principalmente – dela mesma.
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