DIREÇÃO: Alexandre de La Patellière, Matthieu Delaporte
ROTEIRO: Matthieu Delaporte
ELENCO: Valérie Benguigui, Charles Berling, Guillaume De Tonquedec, Judith El Zein, Patrick Bruel
Bélgica, França, 2012 (109 min)
Nos cinemas: 15 de março
Divertidíssima! E com uma parcela interessante de realidade. Claro, amigos de uma vida inteira sempre deixam alguma roupa suja sem lavar com o passar dos anos. Muita intimidade é sinônimo de alguns segredinhos importantes. E é tudo isso que faz o filme ser uma delícia de assistir. Pelas risadas desenfreadas e pelo tributo que se faz à amizade. Mesmo com o barraco armado (mais do que humano), a amizade segue em frente.
Lembrei-me de dois filmes recentes e muito bons, já recomendados aqui no Cine Garimpo. O primeiro é Até a Eternidade, de Guillaume Canet, em que amigos antigos se reúnem, algumas mentiras veem à tona e têm que ser repassadas para que a vida continue; o segundo, Deus da Carnificina, de Roman Polansky, em que dois casais se encontram num apartamento e daí saem confissões, brigas, revelações incríveis, vindo do mais fundo da alma humana. Os dois engraçados, inteligentes e superbem estruturados.
Qual o Nome do Bebê é uma mistura desses dois. Também num apartamento, amigos antigos se reúnem: o casal anfitrião é Elizabeth e Pierre recebem o irmão Vincent, a cunhada Anna e um amigo solteiro, Claude. Regado a vinho e acompanhado de um bom jantar, rola a discussão sobre o nome do bebê de Vincent. O que era para ser um jantar descontraído e divertido entre amigos que têm toda a intimidade, assunto de sobra e bom humor, torna-se um caos, uma lavagem de roupa suja. Além de superengraçado e divertido, graças aos ótimos atores e à integração espetacular entre eles, toca no ponto delicado e comum a todos nós da importância da bagagem acumulada com as relações muito longas. Tanta intimidade gera conflito, claro. Mas para mim o que ficou é justamente o contrário. A amizade fala mais alto e toca-se o barco em frente, apesar de tudo. Ou seria, graças a tudo?
ROTEIRO: Joachim Lafosse, Matthieu Reynaert, Thomas Bidegain
ELENCO: Niels Arestrup, Tahar Rahim, Emilie Dequenne
Bélgica, 2012 (114 min)
Esta Mostra está cheia de filmes que competem com O Palhaço, de Selton Melo, pela vaga na seleta lista da Academia de Hollywood para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2013. Perder a Razão é o concorrente da Bélgica, No, do Chile, Barbara, da Alemanha, Além das Montanhas, da Romênia. E durante a semana publicarei outros mais. Bom esse movimento, assim chegamos na premiação com mais conhecimento de causa e menos curiosidade – é sempre uma categoria que me fascina, pela diversidade de olhares.
Outro comentário um pouco deslocado do filme, mas que vem bastante a calhar. Por que é que as distribuidoras e assessorias de imprensa (ou quem quer que seja responsável pelas sinopses) teimam em contar o que acontece no final? Ao ver a sinopse do filme no site da Mostra, ficamos sabendo do tom do final do filme. Não leiam. Aliás, nem precisa. Para um bom espectador, meia palavra basta. Ou melhor, três. O título do filme já denuncia a perda da razão em algum momento, absolutamente em comunhão com o andar do roteiro, com a construção (e destruição) da personagem de Murielle (Emilie Dequenne). Certo, entendo. Mas fica chato ler uma sinopse que conta, como se não fôssemos capazes de entender e sentir as matizes, as sutilezas, o silêncio, o diálogo proposto no filme. Pronto, falei!
Agora sim, o filme. Murielle e Mounir (Tahar Rahim, também em O Príncipe do Deserto, O Profeta) se apaixonam e se casam sob a aprovação de Pinget (Niels Arestrup, também em O Profeta, Cavalo de Guerra, A Chave de Sarah), pai adotivo de Mounir. Além de acolher o casal, é Pinget quem banca a vida confortável, a criação dos filhos e os trâmites da família muçulmana de Mounir no Marrocos, que enfrenta problemas típicos de imigração. Com o tempo, o que era conveniência e parceria, torna-se privação e perda da individualidade. Mais que isso: transcendo o incômodo físico e se mistura ao emocional, à diferença cultural, à falta de diálogo, à interferência, à dificuldade de criação dos filhos.
Perder a Razão é sutil, não é óbvio. Muito embora o potencial dramático vá crescendo, à medida que desaparecem a satisfação. Claro que isso não se aplica ao momento do nascimento do filho homem. Não que seja um filme arrebatador, mas é um forte drama pessoal, em que a maternidade e o tratamento dado à mulher nas diferentes culturas vem à tona de uma maneira singular. Foi selecionado para a categoria Um Certo Olhar (Un Certain Regard) de Cannes. Faz todo o sentido.
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ROTEIRO: Michael Thomas, Latif Yahia

ELENCO: Dominic Cooper, Ludivine Sagnier, Mimoun Oaïssa, Philip Quast, Mem Ferda, Dar Salim, Raad Raw
Bélgica, Holanda, 2011 (109 min)
De que diabo estamos falando? Que ainda por cima tem dublê? Todo mundo conhece ou já ouviu falar das famosas – e lendárias – histórias sobre o clã violento e perigoso de Saddam Hussein. Quem ousa contestar? O que a gente ouviu durante os anos em que foi ditador, em que circulava pelo bem bom do mundo árabe e europeu, em que manda soltar e mandava prender quem quer que fosse, que fazia guerra quando bem intendesse não foi pouca coisa. Não importava contra quem, mas era do contra – curdos, iraquianos, americanos, kwaitianos e quem mais aparecesse pela frente.
Tal pai, tal filho, literalmente. É do “diabo-filho” que estamos falando, de Uday Hussein, filho sádico, maldoso, alcóolatra, drogado, promíscuo e assassino de Saddam Hussein, que esbaldou-se com mulheres, drogas, carros, excessos de todos os lados durante o tempo em que seu pai reinou solto pelo Iraque. Isso tudo é contato pelo ponto de vista de Latif Yahia, um rapaz que estudou com Uday e, pela semelhança física, foi selecionado por ele para ser seu dublê, seu sósia. Ou seja, para correr perigo em nome de Uday, obviamente sem ter tido a opção de dizer não. Latif é quem conta essa experiência em livro quando consegue fugir da vista da autoridades iraquianas e dá a sua versão dos fatos.
Eu ressalto dois pontos: o primeiro, e fundamental, é a atuação de Dominic Cooper (também em A Duquesa, Educação, Sete Dias com Marilyn) como Latif e Uday. Ora bom moço, inconformado com tanta maldade; ora um assassino sádico e extremamente perigoso. Tem alguns excessos, mas não saberia dizer que ficou por conta das lentes do diretor e da liberdade do ator, ou se realmente retratam a verdade. Acho que jamais saberemos – ainda mais agora, que o reinado virou pó. Mas convence dos dois lados e se mostra competente. Outro ponto é a história em si – que embora possa ter algumas distorções, é inacreditável. Algumas cenas, como as emboscadas e os enfrentamentos entre os sósias, são boas; outras me soaram desnecessárias, como a violência sexual – que já está absolutamente explícita na sua atitude. No fim das contas, acho que essa violência exarcebada – não só física, mas também moral – me cansaram um pouco. Menos teria sido mais. No entanto, é interessante – e no mínimo curioso, para quem tiver estômago para aguentar tanta maldade – entrar nos palácios iraquianos, espiar pelo buraco da fechadura e ver quantos “Saddams” havia por lá, rindo à toa.
ROTEIRO: Pierre de Clercq, Mariano Vanhoof
ELENCO: Robrecht Vanden Thoren, Tom Audenaert, Isabelle De Hertogh, Gilles De Schrijver
Bélgica, 2011 (115 min)
Se eu pudesse resumir Hasta la Vista em uma palavra, não diria diversão, muito embora seja divertido; nem deficiência, muito embora os três protagonistas sejam deficientes; nem mesmo sexualidade, embora esse seja o mote do filme. Eu diria que honestidade resume a proposta do filme e é justamente a maneira honesta, sem dramas ou vitimização, que permitiu com que eu me divertisse e me emocionasse no filme. Sem culpa.
Aliás, aproveitando, culpa é algo que não existe na linguagem escolhida pelo diretor belga Geoffrey Enthoven. Ninguém tem culpa de nada, nem os rapazes, nem os pais. Já começa por aí: são rapazes normais, que levam uma vida limitada e cheia de cuidados por causa de sua deficiência física: Lars tem câncer, é paraplégico e o tumor paralisa seus órgãos aos poucos; Philip é tetraplégico e Josef é praticamente cego. Todos jovens, perfeitamente capazes intelectualmente, mas dependentes e acostumados com a superproteção dos pais. Adoram vinhos, cultivam os amigos, saem de férias – sempre com os pais, sempre sem emoção. Até que um dia Philip descobre que há um bordel na Espanha especializado em receber rapazes com deficiência física e é pra lá que eles querem ir para finalmente experimentar o sexo! Independência, por que não?
Claro que convencer os pais não é tarefa fácil, nem encontrar alguém que se encarregue do trio, que pretende sair da Bélgica, passar por Paris e seguir até a Espanha em uma van, e de suas dificuldades. Mas Claude (Isabelle De Hertogh) cai como uma luva (ou nem tanto!) e faz um contraponto interessante, completando o panorama de situações engraçadas, tiradas inteligentes e humor sincero (inclusive piadas sobre suas próprias condições), ressaltando a amizade como a força geradora de movimento e capaz de superar qualquer situação. Curioso só ter sentido o lado duro, penoso e triste da deficiência nas cenas com os pais, embora o amor pelos filhos seja o sentimento mais forte e mais evidente, muito mais do que a dor ou a dificuldade. E digo mais: em nenhum momento vem à tona a o sentimento de pena, ou é ressaltado o preconceito (há situações inclusive ao revés), o que é uma maravilha e uma delicadeza por parte da direção!
O road movie Hasta la Vista: Venha Como Você É pode ser visto para se divertir, para pensar sobre a percepção que os próprios deficientes têm da vida, para se emocionar. Comigo serviu bem nas três categorias. Esse é um daqueles filmes para sair do lugar comum, sentir algo diferente, elaborar e pensar sobre outras perspectivas de vida. Dê uma espiada no trailer abaixo.
ROTEIRO: Jullie Bertuccelli, Bernard Renucci
ELENCO: Esther Gorintin, Nino Khomasuridze, Dinara Drukarova
França, Bélgica, Georgia, 2003 (103 min)
Na Geórgia independente, ex-república soviética, falta luz e água com frequência, além de emprego, oportunidades, prosperidade. Nada mais natural do que migrar, como fez Otar, para a Europa ocidental. Mesmo sendo médico, sujeita-se a trabalhar como pedreiro para ganhar a vida em Paris. E desde que Otar partiu, quem ficou na Geórgia faz disso um mito. Sua mãe Eka, uma senhora que viveu os tempos gloriosos de Stalin e ainda se gaba dessa época de “estabilidade”, acredita piamente que o filho é um herói. Ele parte, ela nutre seus dias com suas cartas, lembranças e um dinheirinho que ele manda.
É Eka quem comanda e dá o tom da narrativa da diretora francesa Julie Bertuccelli, também de A Árvore, publicada recentemente aqui no blog. Ao seu lado ficou o ramo feminino da família: sua filha Marina, ressentida e enciumada, faz parte da geração frustrada que teve a profissão e a possibilidade de uma vida melhor tolhidas pelo regime e sua queda; sua neta, Ada, uma moça inteligente e viva, que não vê perspectiva na Geórgia, mas que tem ainda acesa a chama do sonho de fazer uma carreira e viver em um lugar melhor. Elas coordenam a vida de Eka, sem perceber que Eka tem vida própria. Elas escondem um grande segredo, sem perceber que Eka também faz isso muito bem. O jogo de sabedoria e sensibilidade do filme nas questões humanas e familiares é muito interessante, fazendo, é claro, lembrar Adeus, Lênin! – em que também uma mentira tem como objetivo poupar alguém da dor, subestimando, assim, o olhar sagaz da maturidade.
Desde que Otar Partiu tem elementos opostos carregados de significado como a escuridão do apartamento e as luzes de Paris, o que torna o filme ainda mais sutil. E sensível, humano. A cena final do aeroporto, o entendimento de Eka do presente, passado e futuro é o que poderia se chamar de sabedoria.
DIREÇÃO e ROTEIRO: Jean-Pierre e Luc Dardenne
ELENCO: Olivier Gourmet, Morgan Marinne, Isabella Soupart,
Bélgica, França, 2002 (103 min)
Você precisa realmente gostar do estilo dos diretores belgas, os irmãos Dardenne, para apreciar sua obra. Duas escolhas dificultam muito este processo: o tema e a linguagem. O tema porque invariavelmente eles tratam de questões humanas e sociais profundas e cruéis, como o abandono de crianças pelos pais, o crime adolescente, a falta de perspectiva do jovem, o excluído, o ilegal, a desconstrução familiar, portanto assuntos difíceis, que incomodam, criam um profundo mal estar no espectador; a linguagem, a forma, porque há pouquíssimos diálogos, só o essencial é dito, o ritmo é lento, sendo um exercício de observação e acompanhamento do personagem, bem perto de suas angústias.
Tendo isso em vista, O Filho não difere de suas outras produções também premiadas como O Silêncio de Lorna, A Criança e O Garoto da Bicicleta – muito embora este último tenha um toque de esperança que os outros não possuem. É seco, duro. Chega a ser árduo, é só reparar nos sentimentos, na figura do protagonista Olivier (Olivier Gourmet), que venceu o prêmio de melhor ator em Cannes pelo papel. Como chefe de uma marcenaria que acolhe e ensina o ofício a meninos que saem de um reformatório, ele vive o drama pessoal da perda do filho. Metódico, gentil mas apagado, revive essa dor quando Francis, o garoto que o matou, é um dos meninos que são enviados para sua inserção na sociedade através do aprendizado de uma profissão em sua marcenaria.
Passamos o filme todo seguindo – perseguindo, melhor dizendo – os passos de Olivier; e Olivier, por sua vez, passa o filme todo espionando os passos de Francis. A câmera os segue bem de perto, nos mostra movimentos repetitivos e detalhados da rotina, seus gestos, sua respiração, sua ansiedade. Apresenta a questão desse relacionamento inesperado e improvável e tem um final absolutamente inacabado – se é que isso é possível. Marca dos irmãos diretores, não apresentam desfecho, não concluem nada, pelo contrário. Transferem a responsabilidade do final para o espectador, que fica se perguntando qual a probabilidade de tal e tal situações continuarem. Por essa e outras que disse no começo deste comentário que é preciso gostar do estilo para apreciar a profundidade da proposta e conseguir chegar no final do filme para “comprar” a reflexão proposta. Dos Dardenne, não espere pacote fechado. Eles passam adiante a batata quente sobre o mistério das relações.
DIREÇÃO e ROTEIRO: Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne
ELENCO: Thomas Doret, Cécile De France, Jérémie Renier
França, Bélgica, Itália, 2011 (87 min)
Hoje começa oficialmente a 35a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, com evento só para convidados no Auditório do Ibirapuera. E o filme de abertura escolhido, entre os 250 que compõe a seleção deste ano, é a nova produção dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, também diretores de A Criança e O Silêncio de Lorna. Quem conhece essas duas obras anteriores, sabe que o estilo dos irmãos diretores não é dos mais afáveis. Levanta, de uma forma muito íntima, realista e seca, as dificuldades próprias do ser humano no que tange o respeito e de relação consigo próprio e com o outro.
Em O Garoto da Bicicleta não é diferente. O assunto ‘família desagregada’, ‘inversão de valores’ ‘desconstrução do amor’ é recorrente também aqui. Portanto, prepare-se. Mas, se servir de alento, digo também que este filme tem de belo o que os outros têm de amargo. Saí da coletiva de imprensa da Mostra, quando o filme foi exibido, aliviada. É como se a vida tivesse falado mais alto desta vez, como se os Dardenne tivessem tido a chance de escolher um caminho da esperança. E o fizeram. Optaram pela réstia de luz e resgate ético que poderia caber no roteiro, indicando que nem tudo são trevas. Apesar de todos (e não são poucos) os pesares. E apesar de não adotarem um estilo de direção que ‘facilite a vida do espectador’.
A espinha dorsal do belo O Garoto da Bicicleta, que venceu o Grande Prêmio do Júri em Cannes este ano, é a família que não se une diante das diferenças e dificuldades, que opta pelo caminho mais fácil, o do abandono. Cyril (Thomas Doret) foi deixado pelo pai (Jérémie Renier, também em Potiche – Esposa Troféu, O Silêncio de Lorna, A Criança) e vive em um internato. Tenta, de qualquer maneira, saber do seu paradeiro. Sabrina (Cécile de France, também em Além da Vida, Bonecas Russas, Albergue Espanhol) é sua tutora nos fins de semana e estabelece com o garoto uma relação de afeto, embora sinta, logicamente, resistência do menino. Apesar disso, as frustrações, angústias e dessabores falam mais alto e Cyril acaba cedendo a pressões de maus elementos na pequena cidade onde passa os fins de semana com Sabrina.
O que vem a seguir são situações em sempre há dois caminhos a serem escolhidos. Pai, tutora e garoto adotam uma postura que transforma não só as relações no filme, mas a relação do espectador com a história. Embora não seja uma linguagem pronta e mastigada, que deixe o espectador totalmente à vontade, mas sim um discurso que estimula a reflexão e o desconforto, os Dardenne desta vez escolheram elementos que suavizaram as tão difíceis relações. A bicicleta, os passeios, a luz do dia, a pequena cidade, a escolha de Cécile de France como a atriz protagonista – que tem um brilho especial, sim – trazem a esperança de que algo pode dar certo no final.
Elenco: Marianne Faithfull, Miki Manojlovic, Kevin Bishop, Siobhan Hewlett
Local /Ano: França/Bélgica/Luxemburgo/Inglaterra/Alemanha/2007
Irina Palm é interessante por dois motivos: primeiro por se tratar da história de uma avó que trabalha na indústria do sexo sem que isso seja tratado de uma forma vulgar; segundo, porque fica a pergunta: até que ponto podemos ir para salvar a vida de quem se ama? Bem europeu, mais lento e mais reflexivo – mas nem por isso monótono – tem um ritmo que nos permite acompanhar primeiro a agonia dessa avó, depois a sua certeza de que tudo dará certo. A personagem cresce, toma pé da situação e sacode a poeira. Gosto desse jeito decidido, mulher que toma atitude e não espera que ninguém faça isso por ela.
Irina Palm é o pseudônimo de uma avó que precisa desesperadamente de dinheiro para pagar o tratamento do neto, que está muito doente. Os pais não têm dinheiro e Maggie (Marianne Faithfull) já não tem crédito na praça. Além disso, não consegue emprego, por ser mais velha e não ter experiência de trabalho. Um dia se depara com uma oportunidade em uma boate de strip-tease do Soho londrino: o que seria o trabalho de “recepcionista”? O que faria uma senhora matrona como ela num lugar como aquele? Não vê alternativa senão aceitar.
A partir desse momento, o drama do garoto fica em segundo plano, o inusitado trabalho de Maggie ganha a cena e ela encara aquilo realmente como trabalho. Vence o próprio preconceito, se supera, faz “sucesso” e por isso lança o nome artístico de Irina Palm. Sem julgar pelo mérito do trabalho, ele fecha os olhos e se coloca um objetivo: juntar dinheiro para salvar a vida da criança. A conservadora Maggie assume o risco e a experiência lhe traz uma nova perspectiva de vida.
A atriz Marriane Faithfull tem uma longa carreira como cantora, inclusive com participação, ao lado de Mick Jagger e toda a turma, da farra do sex, drugs and rock and roll dos anos 60 e 70. Não sabia disso quando assisti ao filme. Agora vejo que de ingênua que é sua personagem, Marianne Faithfull não tem nada. Inclusive por isso sua atuação é incrível. Para quem aprecia filmes europeus, vale a pena. O final tem um viés romântico, mas sobretudo de cumplicidade, dela com o neto, dela com sua própria escolha.
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