ROTEIRO: Shane Black, Drew Pearce
ELENCO: Roberto Downey Jr., Gwyneth Paltrow, Guy Pearce, Rebecca Hall, Ben Kingsley, Don Cheadle
Estados Unidos, 2013
Quando assisti ao terceiro filme da série de Christopher Nolan, Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge, disse a mesma coisa que vou dizer agora. Gostei muito, mas faltou voltar ao começo. Claro que quem for ao cinema conferir as novas armaduras e desafios de Tony Stark em Homem de Ferro 3, sem ter assistido aos dois filmes anteriores, vai se divertir. Não tenho dúvida. Mas pode se sentir um peixe fora d’água quando os outros espectadores derem risada sobre alguns sutis detalhes, em que você não viu graça. As referências são inevitáveis e encare isso como uma convite para ver os outros dois em casa. Eu fiz isso e confesso que adorei!
Claro, tudo é uma questão de contexto. Embora este terceiro filme não seja mais dirigido por Jonh Favreau (ele continua sendo o fiel guarda-costas de Stark), é claramente uma sequência. E muito bem conduzida. O diretor Shane Black (também de Máquina Mortífera) acerta na continuidade do tom, imprime humor fino principalmente no personagem do ótimo ator Robert Downey Jr. que tem que derrotar o tão temido terrorista Mandarin e fecha (será?) a trilogia da Marvel com chave de ouro.
Falei em humor e reforço. Embora a tecnologia, qualidade da produção, o elenco afinado (Gwyneth Paltrow, Guy Pearce, Rebecca Hall, Ben Kingsley, Don Cheadle) e a criatividade sejam pontos fortes, eu diria que um filme como este, sem um toque refinado no roteiro seria, só mais um filme de ação. Diante de tanta concorrência com filmes vazios de conteúdo e cheios de matança, sangue e aventuras mirabolantes, caprichar nos diálogos é o grande trunfo. Mesmo para quem não é – ou não era – tão fã assim de super-heróis.
Deixo por último a história propriamente do filme. Mesmo porque, acho que ela é secundária mesmo, considerando o peso dos personagens e a qualidade do texto. Tony agora se questiona, não consegue dormir, porque sabe das inimizades óbvias que criou mundo afora. Pepper Potts (Gwyneth Paltrow) passa, de simples assistente a manda-chuva da empresa. É ela quem decide tudo. Tony Starks pesquisa, aprimora seus inventos e se prepara para a próxima ameaça. Até que ela chega devastadora e ele precisa lugar contra um terrorista daqueles, o Mandarin. O resto, você já pode imaginar. Se não, dê só uma espiada no trailer. Entendeu?
ROTEIRO: Patrícia Andrade
ELENCO: João Miguel, Vinícius Nascimento, Ângelo Antônio, Dira Paes, Ludmila Rosa, Denise Weinberg
Brasil, 2012 (102 min)
Road movie com um certo mistério em torno do personagem João. Regado a canções de Roberto Carlos, À Beira do Caminho é contado pelas letras das músicas, mostrando o sofrimento desse caminhoneiro amargo e desiludido e deixando bem claro que um dia foi feliz. O que fica no ar é justamente o motivo para uma mudança tão brusca de comportamento.
Cruzando o país de fora a fora, ficamos sabendo que João (João Miguel, também em Xingu, Hotel Atlântico, Estômago, Gonzaga, Se Nada Mais Der Certo) não quer se lembrar do passado, nem voltar para sua cidade natal, nem resolver o que ficou pendente. Para tanto, o diretor Breno Silveira, também responsável por 2 Filhos de Francisco e Gonzaga, lança mão de flashbacks bem curtos, que vão se estendendo conseguirem nos explicar o que é que aflige tanto esse homem. Para quem fugir era uma rotina, nada mais difícil do que enfrentar a verdade. É aqui que entra o menino Duda, que pega carona no caminhão de João e traz à tona tudo aquilo que ele não queria enxergar.
Lembra um pouco – guardadas as devidas proporções – a amizade que surge entre Dora e Josué em Central do Brasil. Um road movie também, mas de profundidade bem maior, claro. Mas não deixa de ter uma linguagem parecida, na busca pelo pai, na imensidão do Brasil, na amizade improvável, na reviravolta da vida, na mudança de rumo. Não tem muita novidade, é verdade. Mas acho que o Breno Silveira quis contar é justamente o lugar comum a todos nós: esse longo caminho.
ROTEIRO: Darren Lemke, Christopher maquiarei
ELENCO: Nicholas Hoult, Stanley Tucci, Ewan McGregor, Eleanor Tomlinson, Eddie Marsan, Ewen Bremner, Ian McShane
Estados Unidos, 2013
Nos cinemas: 29 de março
Só que João na verdade é Jack (Nicholas Hoult), um camponês inglês que vive humildemente com seu tio em uma pequena cabana. Vai ao mercado vender um cavalo, é surpreendido por um monge que precisa fugir e lhe oferece um punhado de feijões. E adverte: são encantados, não devem ser molhados de jeito nenhum. Claro que é isso que acontece e os feijões germinam, crescem rapidíssimo, ficam gigantes e acabam complicando a vida do camponês e da princesa daquelas terras. O pé de feijão chega no céu, numa terra misteriosa habitada por gigantes que se alimentam de gente.
A aventura consiste em se livrar dos gigantes e dos traidores e levar a princesa de volta para o bondoso rei. O filme tem ritmo, ótimos efeitos especiais (é em 3D), bom elenco e sintonia entre Jack e Isabelle (Eleanor Tomlinson). Além de bons atores, como o veterano Stanley Tucci e Ewan McGregor (também em O Impossível, Amor Impossível, Sentidos do Amor, O Escritor Fantasma). É uma aventura gostosa para ver em família, que vale o seu ingresso.
ROTEIRO: Mitchell Kapner, David Lindsay-Abaire
ELENCO: James Franco, Michelle Williams, Rachel Weisz, Mila Kunis
Estados Unidos, 2012 (130 min)
Nos cinemas: 08 de março
Diferente do que muitos podem pensar (inclusive eu) ao saber que o mágico de Oz está de volta ao cinema, este filme não é uma releitura do clássico de Victor Fleming de 1939. Nem uma adaptação com licenças criativas da nossa era. É mais interessante do que isso – mesmo por que O Mágico de Oz original é insubstituível e tentar superá-lo seria um risco imenso.
Oz: Mágico e Poderoso tenta criar o momento anterior àquele vivido por Dorothy (Judy Garland) há mais de 70 anos. Tenta explicar como Oz, o ilusionista charlatão e trapaceiro de um circo meia-boca do Kansas vai parar, a bordo de um balão e levado por um tornado, na terra de Oz. Como enfrenta as bruxas boas e más, qual é seu truque para desvendar de que lado elas estão e como se torna, no final, o misterioso e poderoso mágico aos olhos dos habitantes dessa terra.
Tudo com muita fantasia e imaginação, é claro. No papel do mágico está James Franco (também em 127 Horas, Comer, Rezar, Amar, Milk – A Voz da Igualdade), que executa bem o personagem oportunista e vigarista, mas não tão ruim assim. Ou melhor, vigarista que ainda está na dúvida sobre que lado escolher: se foge e se livra das bruxas e de toda a confusão, ou se usa um dos seus truques para fingir ser realmente o poderoso mágico que todos esperam.
As três bruxas são Mila Kunis (também em Cisne Negro, Ted), Michelle Williams (Sete Dias com Marilyn, Entre o Amor e a Paixão, Namorados para Sempre) e Rachel Weisz (O Jardineiro Fiel, 360, A Informante), e formam um bom trio para a trama. O filme é um gostoso programa em família, muito bem feito, com ritmo muito bom. Talvez agrade mais às meninas, já que incluir um conto de fada quando se trata de uma produção da Disney é imprescindível. E aqui, bruxas e fantasia não faltam.
ROTEIRO: David Magee, Yann Martel (romance)
ELENCO: Suraj Sharma, Irrfan Khan, Adil Hussain, Tabu, Gérard Depardieu
Estados Unidos, 2012 (127 min)
Nos cinemas: 21 de dezembro
Com a chamada “acredite no extraordinário”, o filme As Aventuras de Pi já sugere uma história inusitada. E é, ainda mais contando com os efeitos especiais sob comando do diretor Ang Lee, também do premiado O Tigre e o Dragão, O Segredo de Brokeback Mountain, Aconteceu em Woodstock. Embora sejam todos filmes bastante distintos, Lee não dá ponto sem nó. Capricha, conta uma história bonita e trabalha os efeitos especiais lindamente.
Apesar da classificação etária ser para 10 anos, não acho que crianças desta idade aproveitem. O filme é mais contemplativo do que parece, apesar da presença lúdica dos animais. E muito mais reflexivo – fala da transformação causada por fortes eventos da vida, da presença e ausência de Deus, da força e onipresença da natureza. Portanto, não leve crianças pequenas. Exige atenção e paciência para acompanhar a rotina de Pi no barco, e tem efeitos especiais diferentes – o que nem não é feito sob medida para crianças, e sim para o olhar adulto.
As Aventuras de Pi, indicado ao Globo de Ouro 2013 de melhor diretor e filme, conta a história do menino Piscine Patel, um garoto que vive com seus pais e irmão na Índia, onde cuidam de um zoológico. Com as mudanças da vida, a família resolve migrar para o Canadá e levar os animais para vender por lá. Acontece que o cargueiro onde estavam enfrenta problemas em pleno Pacífico e Pi fica à deriva em um bote salva-vidas na singela companhia de um tigre de bengala, uma zebra, uma hiena e um orangutango. Pi passa semanas no mar, lutando para sobreviver. As imagens são preciosas, os efeitos, impecáveis.
Ficamos sabendo de tudo isso pelo próprio Pi, já adulto, que conta sua epopeia para um escritor, interessado em fazer um livro. Mas sua trajetória reserva surpresas e a graça aqui é não falar muito sobre o filme. Eu fui assistir sem saber quase nada e a viagem foi uma delícia. Aproveite e acredite se quiser. Ou puder!
ELENCO: Charlie Tahan, Winona Ryder, Martin Short, Catherine O’Hara, Sparky
Estados Unidos, 2012 (87 min)
Nos cinemas: 2 de novembro
É com Tim Burton que a 36a Mostra Internacional de Cinema de SP encerra suas atividades hoje. E o curioso é que se trata de uma animação que Burton já havia filmado, em curta metragem, quando trabalhava na Disney em remotos 1984. Na época o diretor ainda não era ninguém. Foi inclusive despedido da empresa por desperdiçar dinheiro em projetos nada adequados para crianças. Assustadores demais, diziam.
Agora que Tim Burton (também de Alice no País das Maravilhas) é celebridade – goste do estilo dele ou não – a Disney tirou o antigo projeto da gaveta e o diretor teve carta branca para construir o longa de animação com a sua cara. Tem um tom sombrio que só Burton sabe dar, com ares de A Noiva Cadáver, de 2005, em seu suspense em preto e branco, terror, medo, morte. E é, claro, uma homenagem a vários monstros consagrados nos filmes de terror, mas principalmente a Frankenstein, pelo nome do filme e pela maneira com que o garoto Victor ressuscita seu cachorro, espinha dorsal da produção.
Victor é um pequeno e retraído aspirante a cientista, que não se conforma com a morte do cachorro Sparky, seu fiel companheiro e único amigo. Monta uma experiência para ressuscitá-lo. Consegue, mas a engenhoca acaba sendo usada por outros garotos do bairro para fazer o mau. Com essa contradição do garoto bom, que usa o artifício para resgatar seu amigo e recuperar a alegria de viver, e dos malvados, que usam para prejudicar o outro, Burton dá mais atenção ao bem, à lealdade, à solidariedade acima de tudo. No fim das contas, apesar do clima “tenso” e sombrio, Frankenweenie é um filme doce. Sobre dois amigos, que dão a vida um pelo outro. Todo feito em stop motion e 3D, não acho que agrade crianças pequenas. Mas crianças maiores, sim. Tem um bonito traço e uma história universal.
ROTEIRO: Wes Anderson, Roman Coppola
ELENCO: Jared Gilman, Kara Hayward, Bruce Willis, Bill Murray, Tilda Swinton, Frances McDormand, Edward Norton
Estados Unidos, 2012 (94 min)
Nos cinemas: 12 de outubro
Jared Gilman e Kara Hayward fazem sua estreia neste filme. Seus personagens estão apaixonados um pelo outro e resolvem o problema de uma maneira simples e folclórica: Suzy foge de casa e Sam foge do acampamento de escoteiros. Trocam cartas com os detalhes da fuga, hora e local e marcam um encontro em um dos bucólicos campos da ilha da Nova Inglaterra, onde moram. Naqueles anos de 1965, tudo era diferente e essa atmosfera poética que o diretor Wes Anderson constrói é vem da imaginação daquilo que ele gostaria que tivesse acontecido.
“Não aconteceu obrigatoriamente”, diz Anderson na entrevista coletiva concedida por ele e equipe no Festival de Cannes deste ano, já que Moonrise Kingdom foi escolhido para abrir o grande evento. “É uma perspectiva de como imagino o amor jovem e idealista, a força do amor genuíno”, conta ele. E essa é a essência do filme. Tem uma áurea de anos 60, época em que os Estados Unidos ainda não entrara no turbilhão de mudanças que vem com a Guerra do Vietnã, contracultura, Woodstock, etc. “Isso não foi proposital, foi intuitivo. Percebi que havia desenhado um perfil dos personagens antes da revolução comportamental dos anos 60 depois que o roteiro estava pronto”, confessa o diretor. “Construí dois adolescentes de uma geração que estaria vivendo, em alguns anos, em um mundo completamente diferente.”
Isso é muito curioso no filme. Não coloca o foco nos adultos – um time de atores de primeira linha: Bruce Willis, Bill Murray, Tilda Swinton, Edward Norton e Frances McDormand, que sai em busca do casal, que passa dias na paradisíaca enseada de Moonrise Kingdom, acampando, lendo e conversando. Nem no seu ponto de vista da história, nem na sua vida pacata e acomodada. Pelo contrário: dá importância à determinação de Suzy e Sam e na sua capacidade de mobilizar as opiniões adultas e mudar o curso da vida.
Mas não espere um filme de ação, fugas mirabolantes e buscas frenéticas, um visual tradicional de filmes com essa narrativa (o trailer abaixo mostra isso). Acho até que encantará mais adultos que crianças, pelo ritmo e pela fotografia. Moonrise Kingdom tem um ar de poesia, nostalgia dos objetos e referências da infância, de desejo adulto transportado para o mundo infantil. Algo como isso-é-o-que-eu-queria-ter-vivido. Tem um tom de frustração, pontuado com esperança. Sem falar dos próprios protagonistas, que não fazem os típicos adolescentes descolados e bonitões. Suzy é quieta, reservada, séria, concentrada; Sam é hábil, decidido, estilo escoteiro mesmo. Talvez não sejam feitos um para o outro, fisicamente falando. Mas ambos são solitários na sua realidade, em busca de algo a mais. E é isso que os une na aventura. O mais legal é que conseguem fazer com que os adultos comprem a ideia. Mesmo que para isso precisem ser atingidos por um raio.
ROTEIRO: Gary Ross, Suzanne Collins
ELENCO: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Liam Hemsworth, Stanley Tucci, Wes Bentley, Willow Shields, Liam Hemsworth, Elizabeth Banks, Sandra Ellis Lafferty
Estados Unidos, 2012 (142 min)
Finalmente assisti a Jogos Vorazes, baseado no best seller homônimo da escritora Suzanne Collins. Ou melhor, baseado no primeiro livro dos três que compõem a série. Quem leu o livro diz que o filme é bem diferente. Normalmente é assim mesmo, são linguagens e recursos distintos, o papel e a tela. Fato é que o filme também deixa uma margem grande para continuação. Acho bacana continuar acompanhando essa ideia maluca desse jogo mortal, nesse mundo fictício futurístico um tanto quanto esquisito. E de fato, os atores já estão no set preparando Jogos Vorazes: Em Chamas, o segundo da série.
Gostei do filme. A protagonista Jennifer Lawrence (também em Inverno da Alma), é Katniss Everdeen, uma moça corajosa que se oferece como voluntária, quando a irmã é sorteada para participar desse jogo em que só uma pessoa sai viva. No país fictício, que já viveu guerras, fome, caos, a metrópole Capital é super tecnológica e rica. Mas o país tem outros 12 estados, chamados Distritos, que são pobres, como aquele onde mora Katniss e sua família. Para não deixar que seus habitantes esqueçam sua submissão à Capital e evitar rebeliões, dois jovens entre 12 e 18 anos, de cada distrito, são convocados a participar dos Jogos Vorazes, em uma arena totalmente monitorada e fictícia, como um reality show gigante. Para vencer, os participantes têm que matar uns aos outros e tudo é televisionado para os distritos, que acompanham de perto a performance de seus representantes.
Ficção científica, jogo de sobrevivência. Além disso, uma metáfora interessante sobre a dinâmica do “salve-se quem puder” da nossa sociedade, do jogo de interesses, vaidades, voyeurismo, poder, manipulação. Interessante e bem feito, Jogos Vorazes entretém e impõe um clima de suspense bacana. É para o público juvenil, por isso também é bacana para ver em família. Ainda mais se você tiver alguém do lado fazendo pausas, cada vez que um detalhe é diferente daquele do livro.
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