DIREÇÃO e ROTEIRO: Jane Campion
ELENCO: Holly Hunter, Harvey Keitel, Sam Neill, Ana Paquin, Kerry Walker
Austrália, Nova Zelândia, 1993 (121 min)
Quando o filme tem um roteiro envolvente e amarrado e me fisga de uma maneira especial, deixando-me absolutamente absorvida pela história, confesso que muitas vezes me sinto no mais absoluto silêncio. Interno também. É como se o enredo, a realidade da tela me subtraísse da realidade, dos meus pensamentos e sentimentos. Entro no filme, por assim dizer. E quando isso acontece, a música também é absorvida, mas de uma maneira diferente. É como se eu a percebesse como conjunto, fazendo parte da imagem, da encenação, do cenário. Quando o todo é harmônico, a trilha ganha outras dimensões, fazendo com que muitas vezes eu me esqueça (ou não consiga) senti-la isoladamente.
Falha minha, eu sei. Principalmente em filmes como O Piano, em que a música compõe a trama e o drama vivido por Ada (Holy Hunter) e sua filha Flora (Anna Paquin, também em O Casamento do Meu Ex), ambas vencedoras do Oscar de melhor atriz e atriz coadjuvante respectivamente, e o filme levou também o de melhor roteiro. Elas se mudam da Escócia para a Austrália em meados do século 19, pois Ada está de casamento marcado com um rico fazendeiro. Muda, capaz de se comunicar através de gestos e com a ajuda de sua filha, ela se apaixona pela pessoa errada. Sempre com o piano como intermediário das cenas e dramas, compondo um panorama intenso e emocionante.
Sentir a música dessa maneira é bom e ruim ao mesmo tempo. Bom porque mostra que o filme forma um conjunto equilibrado, capaz de emocionar e tocar o espectador profundamente. Ruim porque a trilha linda e bem cuidada não é apreciada isoladamente, mas sim como composição do conjunto – acabou o filme e fiquei com vontade de ouvi-la de novo. Se quiser rever O Piano, pode tentar fazer o exercício de prestar especial atenção à trilha. Não em detrimento de todo o resto, que é belíssimo. Mas com o olhar – e ouvidos – de quem aprecia uma obra que fala por si só.
ROTEIRO: Judy, Julie Berteccelli
ELENCO: Charlotte Gainsbourg, Morgana Davies, Marton Csokas
França, Austrália, 2010 (100 min)
Charlotte Gainsbourg desta vez não está tão melancólica, embora tenha sim uma tristeza inerente ao personagem já que seu marido morre repentinamente. Digo desta vez porque da última que a vimos no cinema ela era uma das protagonistas, ao lado de Kirsten Dunst, no maravilhoso Melancolia. E ainda, como se não bastasse essa fama de “carregar o mundo nas costas”, é ela também a protagonista do conturbado e controverso Anticristo em que tem que lidar com a morte do filho, transcende os limites da sensatez e nos deixa, espectadores, também muito incomodados com tanta angústia.
No contemplativo A Árvore, da diretora francesa Julie Bertuccelli, Charlotte é Dawn, uma mãe de quatro filhos que mora em uma casa gostosa no interior da Austrália e tem uma vida feliz ao lado do marido. Após sua morte, Dawn vive o luto, mas demonstra vontade de seguir vivendo, de se alegrar, de cuidar dos filhos. É como se ela soubesse aqui que ninguém o substituiria, mas que iria haver um outro caminho, que era preciso esperar. Há tristeza, nos faz parar para pensar, mas há esperança – o que é importante dizer, já que tem um clima diferente dos seus filmes anteriores e definitivamente mais leve.
A esperança está representada pela árvore imensa ao lado da casa, que rende o título do filme, cujas raízes já prejudicam a sua estrutura, mas onde sua filha de 8 anos imagina (e sente) a presença do pai. É aqui que entra a metáfora: as raízes da árvore, da casa, da família, da vida passada se confundem e se mostram fortes e fracas, preenchem e incomodam. É como se só o tempo e a própria natureza fossem capazes de mostrar o rumo a seguir – e aqui a árvore tem uma grande parcela de responsabilidade. Sensível e delicado, A Árvore é uma singela vivência da perda, do luto e da luz que aparece das situações mais imprevisíveis.
ROTEIRO: Jan Sardi, Li Cunxin (autobiografia)
ELENCO: Chi Cao, Bruce Greenwood, Kyle MacLachlan, Wen Bin Huang, Penne Hackforth-Jones, Christopher Kirby, Madeleine Eastoe
Austrália, 2009 (117 min)
Nos cinemas: 9 de dezembro
A primeira referência que me veio à mente ao assistir a O Último Dançarino de Mao, baseado na autobiografia Adeus, China – O Último Bailarino de Mao (Fundamento, 2007, 400 páginas), é o filme com o Mikhail Baryshnikov, O Sol da Meia-Noite, de 1985. Nele, o bailarino russo exilado nos Estados Unidos tem de fazer um pouso forçado no território soviético a caminho do Japão e acaba preso pela KGB por ser considerado um traidor. Fica isolado na Sibéria, sob cuidados de um bailarino americano que desertou do exército e casou-se com uma russa. A história toda gira em torno da saída ou não do território fechado da ex-União Soviética, do envolvimento da embaixada, da mídia, da opinião popular e, obviamente, traz à tona o tema da liberdade de ir e vir, de pensar, de se expressar em regimes autoritários e cruéis.
O Último Dançarino de Mao retoma o assunto, contando a história verdadeira de Li Cunxin, que era um menino de 11 anos como tantos outros nas regiões remotas e carentes da China comunista de Mao, em plena Revolução Cultural nos anos 1970, quando as formas de arte deveriam ser politizadas, militarizadas. Foi escolhido para dançar balé na Academia de Dança de Pequim, submetendo-se a treinamentos intensos, dolorosos e competitivos. Em tempos de penúria e de forte influência do Partido, ser escolhido significava ganhar na loteria – era, de fato, uma chance única de ser alguém na vida aos olhos da família.
Em 1979, Li Cunxin é escolhido para representar a China nos Estados Unidos, num intercâmbio cultural incentivado pelo governo dos dois países. Segue para o Texas, onde se depara com um mundo completamente diferente, do consumo à arquitetura, à liberdade de expressão. A partir daí Li faz suas escolhas, sempre recheadas de fatores políticos, envolvimento emocional, diplomacia – já que um abismo separa a China familiar e censurada, da possibilidade de ser livre, de fazer uma carreira internacional sólida e bem sucedida.
A meu ver, há um importante contraponto em O Último Dançarino de Mao, do diretor australiano Bruce Beresford (também de Conduzindo Miss Daisy). Ao mesmo tempo em que é sentimental demais em algumas cenas e mostra personagens rasos, tem cenas belas e delicadas, momentos de verdadeira superação e escolhas difíceis. Talvez as coisas tenham realmente se dado dessa maneira, dramáticas. O ator e bailarino Chi Cao, escolhido para interpretar Li Cunxin, é intenso na sua interpretação e as cenas de dança são lindíssimas – gosto em particular da mais informal delas, a última. Quando vejo esse tipo de filme, procuro ter em mente o fato de ser uma história real. Isso muda tudo. Como eu dizia, apesar do sentimentalismo em alguns momentos, a história de vida supera qualquer excesso. Um registro importante e histórico de uma China que ainda reprime, mas que já presenteia seu bilhão com o capitalismo que tanto surpreendeu Li naqueles anos.
ROTEIRO: George Miller, Paul Livingston, Warren Coleman
Estados Unidos, 2011 (100 min)
Politicamente correto, os pinguins e todas as outras espécies que vivem na Antártida têm que se unir contra o inimigo comum: o aquecimento global. O homem, vilão do primeiro Happy Feet, agora até que tenta colaborar, mas parece que o estrago já está feito e que a natureza está louca pela desforra. Claro que nem tudo é lição de moral, do tipo “fizeram-agora-engulam”. Mas nas entrelinhas, deixa bem claro que é preciso a colaboração de todos se quisermos lutar contra um mal poderoso e implacável – e isso serve também para os animais, liderados pelos pinguins imperadores.
Mano, o pinguin que no primeiro filme sentia-se deslocado porque não sabia cantar com os outros da sua espécie, sabia sapatear como ninguém. Casa-se com sua paixão, a charmosa Glória, que canta maravilhosamente bem, e com ela tem um filho, Erik. Ele é a grande estrela deste filme, mas não sabe sapatear, tem vergonha, sente-se carta fora do baralho por isso e vai literalmente procurar outra turma. Com outra espécie de pinguins, elefantes-marinhos e os minúsculos krills, os imperadores precisam enfrentar os deslocamentos dos gigantescos icebergs, o derretimento da neve e a mudança que isso causa na cadeia alimentar e na sobrevivência das espécies.
Apesar dessas situações ecologicamente corretas, que podem despertar nas crianças a tão desejada necessidade de preservação do meio ambiente e render conversas interessantes, acho que Happy Feet 2 é mais bonito e graficamente impecável (é 3D!) do que moralista; mais agradável e divertido do que político. Adoro animação – já disse isso aqui – e se você for acompanhado de crianças que ainda se encantam com a graça do pequeno Erik e dos filhotes de elefante-marinho, tanto melhor. Um delicioso programa em família!
PROGRAME-SE: Em cartaz dia 25 de novembro!
ROTEIRO: Scott Hicks, Jan Sardi
ELENCO: Geoffrey Rush, Justin Brane, Sonia Todd, Armim Mueller-Stahl, Lynn Redgrave, Noah Taylor, Jonh Gielgud, Alex Rafalowicz, Chris Haywood
Austrália, 1996 (103 min)
Vencedor do Bafta de melhor ator coadjuvante (prêmio da Academia Britânica de Cinema), por O Discurso do Rei, Geoffrey Rush é imbatível em Shine – Brilhante, quando ganhou o Oscar de melhor ator. Retratar o pianista australiano David Helfgott, que era brilhante na música, intenso na sua interpretação, porém frágil ao lidar com o autoritarismo do pai castrador, redeu-lhe um personagem único e inesquecível. Revi Shine justamente por causa dessa lembrança da figura forte e frágil, do talentoso pianista que só conseguiu se estabilizar e voltar a tocar em público graças à dedicação e afeto da esposa Gillian (Lynn Redgrave).
A história de David emociona, não só pela sua superação, mas por mostrar sem meias palavras as consequências dos maltratos que sofreu na infância. Oprimido e castigado por um pai frustrado e autoritário, ignorado por uma mãe submissa e completamente omissa, David desenvolve sua incrível habilidade musical, mas continua emocionalmente inseguro, confuso, perturbado emocionalmente, num quadro típico de esquizofrenia. Exigido ao extremo, seu sistema emocional entra em colapso e ele se torna um sujeito sem lugar na sociedade. Mais uma vez o cinema mostra uma história real, em que a recuperação da auto-estima e do talento só é possível através do apoio familiar, firme e amoroso, coerente e compreensivo. Vale a pena rever.
DIREÇÃO e ROTEIRO: Adam Elliot
ELENCO: Toni Collette, Philip Seymour Hoffman, Eric Bana, Barry Humphries
Austrália , 2009 (92 min)
Além da amizade diferente já denunciada no título em português, é preciso frisar que o filme também é uma animação diferente, fora dos padrões e dirigida sim aos adultos. Crianças maiores aproveitam, mas aquelas que se interessam por formas diferenciadas de dizer alguma coisa e que não se prendem ao padrão atual de animação. Mesmo para aqueles que acharam estranho a falta de diálogos e o narrador onipresente, o filme vale para aguçar a sensibilidade e a curiosidade diante de outra linguagem. Comentários do tipo: ‘por que a vida de um personagem é colorida e a do outro, preto e branco?’ já valem a pena e dão margem à comentários curiosos sobre as escolhas que um diretor tem que fazer na hora de representar um estado de espírito, uma forma de ver e levar a vida.
Mas o conteúdo é adulto, não por ser inapropriado – não mostra nada além do que eles veem nos desenhos e filmes disponíveis por aí. Lida com questões que também estão presentes no mundo infantil como a solidão, o ’sentir-se excluído’, o ‘ser diferente da maioria’, a difícil relação com os pais. Feitos de massinha, os personagens não são esteticamente bonitos, nem psicologicamente equilibrados; o cenário não tem cores vivas, nem é feito para encantar – um deles inclusive é em preto e branco, como falei, e é quase que um personagem da história, tamanha a sua presença e significado no filme. E é evidente que isso gere estranheza.
A história gira em torno de Mary, uma garota australiana de 8 anos, esquisita e solitária, cuja mãe é alcoólatra; e de Max, nova-iorquino de mais de 40 anos, depressivo, solitário, recluso, cheio de esquisitices e manias. Na falta de amigos, eles se correspondem por cartas e a amizade acompanha o desenrolar de suas vidas.
O conteúdo é adulto por conta da intensidade das emoções do filmes. Fala de temas que as crianças ainda não elaboram, mas que sem dúvida vão fazê-lo no futuro. Ninguém escapa. Até o aspecto da correspondência por carta com alguém desconhecido, por tanto tempo, é interessante em épocas de redes sociais, de amizades virtuais e fictícias, de solidão mesmo tendo o mundo à disposição na internet. O contato humano – ou a falta dele - é o grande mote da história. Uma olhada no trailer abaixo já dá pistas do que estou falando.
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