AMOS GITAI E SEU CINEMA COM CRÍTICA E POESIA

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Nem um dos dois filmes de Amos Gitai está na competição aqui no 75º Festival de Veneza. A essa altura do campeonato, nem precisava. Seu cinema é naturalmente crítico, mas não sem poesia – e, como ele diz, “um cineasta não pode se divorciar dos eventos reais, precisa falar deles e o Oriente Médio produz diariamente muito material para reflexão.” Amos apresenta A Letter to a Friend in Gaza e A Tramway in Jerusalem – que são coisas separadas, mas que se complementam. Bem intimamente, inclusive.

A Tramway in Jerusalem simula “o que poderia ser a relação entre pessoas de diferentes nacionalidades e religiões, se houvesse menos conflito”, explica o diretor na entrevista à imprensa há pouco em Veneza. “Me interesso pelo quebra-cabeça humano e não pelo cinema homogêneo.” O filme é essencialmente o que diz o título: dentro de um trem que cruza os diferentes bairros de Jerusalém, pessoas com diferentes histórias de vida se encontram. Elas se comunicam – pacifica ou violentamente, com ironia, humor ou musicalidade, mostrando o quanto somos iguais. (Aliás, quanto mais a gente vive, mais percebe o quanto as histórias de vida se repetem. Seja lá onde for.)

Filmado inteiramente dentro de um trem, tem casal israelense discutindo a relação; padre católico citando trecho bíblico; a mãe judia se queixando que o filho não lhe deu netos; a mulher israelense acusando, precipitadamente, o palestino trabalhador; a palestina com nacionalidade holandesa, amiga da israelense com nacionalidade alemã; a israelense belicista fazendo a cabeça do turista francês; o policial israelense abusando do poder. E por aí vai. O céu é o limite.

Depois de filmar A Tramway in Jerusalem, Amos Gitai (também de Free Zone) escreveu o curta A Letter to a Friend in Gaza – textos sobre a intolerância, o desrespeito, o desamor. Carrega o questionamento da geração mais jovem sobre o comportamento de seus pais, que deixaram a situação chegar no ponto em que estamos hoje – tenham sido eles omissos ou coniventes. Temas humanos e corriqueiros – já que, como diz uma das atrizes, “amar é simples demais”. Viver no conflito parece ser, para a natureza humana, um desafio bem maior.

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