DIREÇÃO E ROTEIRO: Michael Haneke
ELENCO: Christian Friedel, Leonie Benesch, Ulrich Tukur, Ursina Lardi, Burghart Klaussner
Alemanha, França, Áustria, Itália, 2009 (145 min)
Palma de Ouro em Cannes, 2009
“Gostaria que as pessoas vissem A Fita Branca como um filme sobre a perversão dos ideais. Uma educação muito rígida leva à deformação e ao fanatismo. Temos aí a origem não só do nazismo, mas do terrorismo, que tanto aflige o mundo moderno.” – Michael Haneke, em entrevista ao O Estado de São Paulo
Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2010
Nesse curto trecho da entrevista que deu ao jornal O Estado de São Paulo, o diretor Michael Haneke resumiu A Fita Branca de uma maneira bastante objetiva e categórica. E ele tem razão. Até o fato de ter sido produzido em preto e branco reforça a ideia sinistra do desvio de caráter, da dissimulação, da crueldade nua e crua de alguns. E deixa no ar a questão da importância do exemplo. Seja para o bem, ou para o mal.
Estamos nas vésperas da Primeira Guerra, num vilarejo alemão regido pela fé protestante, pelo autoritarismo e pela submissão. A fita branca do título se refere à fita que o pastor amarra no braço de seus filhos para que se conscientizem da sua desobediência, sintam-se envergonhados e peçam perdão após severas punições físicas. Atrelado ao argumento do branco enquanto símbolo da inocência e da purificação, o ato do pastor remete à estrela de Davi que os judeus viriam a exibir anos depois na Segunda Guerra, como símbolo da vergonha. Pura hipocrisia. Não há como não pensar nisso.
Esse é só o começo das relações entre a formação de uma geração dura, corrompida pelo castigo, pela rigidez e pela mentira e a ascensão do nazismo. Não há como aceitar o diferente, se não há quem ensine a aceitá-lo. No microcosmo da aldeia em que o pastor, o médico e o barão, portanto líderes espiritual, econômico e político, usam da punição com seus filhos, esposas e empregados para se perpetuar no poder, percebe-se o que é possível fazer com a mente humana. É só mudar passar da aldeia para uma nação. Lembrei do filme, também alemão, A Onda. Fala da mesma coisa.
Somente o professor, o líder intelectual, questiona o status quo da aldeia, os ataques sofridos por alguns habitantes, a política do não-vi-nada-não-sei-de-nada. É o praticamente o único que demonstra afeto. Não é por acaso. O conhecimento traz a dúvida, a investigação, a contestação. Sempre foi o agente transformador. Aqui, é quem duvida da inocência das diversas crianças arianas, dissimuladas e mentirosas; é quem desconfia dos ataques gratuitos por ódio, impaciência ou simples prazer. É ele que tem coragem de enfrentar o poder instituído – embora ganhe em inteligência, sabe que perde em força e influência.
Ainda bem que, na vida real, podemos contar com outros tantos “questionadores” para mudar as coisas. Pena que muitas vezes tenhamos que pagar um preço muito alto pela ignorância, intolerância e arrogância de alguns.
Não percam, faz jus à indicação ao Oscar. Vale a pena ver também o trailer abaixo.
Nota: Assisti ao filme na sala Cinema da Vila, na Fradique Coutinho, 361. Para quem não fala alemão, parte da legenda se perde no fundo sem cor, essencialmente branco. Vale se informar antes para saber se a cópia foi trocada.
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